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Linkin Park falam sobre o primeiro vocalista “muito divertido”, hip-hop contra metal e o “sítio nojento” onde ensaiavam no início

A 30 de setembro, estivemos uma hora e meia a ouvir os Linkin Park desfiarem memórias dos tempos de “Hybrid Theory”, que agora completa 20 anos. Memórias do inevitável Chester Bennington e a opção singular de contar com dois frontmen (que nem sempre resultou, dizem) foram alguns temas de conversa. As singulares influências do princípio de carreira também

Os Linkin Park estão a celebrar os 20 anos do álbum de estreia "Hybrid Theory" e estiveram à conversa com jornalistas de todo o mundo no passado dia 30 de setembro. A BLITZ participou na reunião virtual de hora e meia durante a qual quatro elementos da banda - Mike Shinoda, Brad Delson, Dave Farrell e Joe Hahn - recuaram até aos tempos do disco que os tornou num fenómeno de popularidade à escala mundial, agora imortalizados numa edição comemorativa que inclui muitas raridades e inéditos.

Da voz de Chester Bennington, que se suicidou há três anos, aos artistas que os influenciaram no início, passando pela associação ao nu-metal, o discurso da banda só não deixou pistas para aquilo que poderá ser o futuro, ainda incerto. Depois da pergunta que a BLITZ endereçou aos quatro músicos, destacamos agora alguns dos momentos mais interessantes da conversa.

"Foi muito desafiante, às vezes, ter dois frontmen"
Falando sobre a liderança bicéfala da banda, com Chester Bennington e Mike Shinoda a dividirem a tarefa, o DJ e teclista Joe Hahn defende que "foi muito desafiante, às vezes, ter dois frontmen". "Acho que foi isso que nos tornou verdadeiramente únicos. Pelo facto de terem perspetivas diferentes, tiveram de se encontrar algures e esse território comum que encontraram traduziu-se na emoção universal que ouvimos nas letras das canções. Escreveram coisas muito pessoais mas, ao mesmo tempo, com as quais todos nos conseguimos identificar. As coisas nem sempre resultaram, mas penso que, ao longo do tempo, o processo de encontrar esses momentos mágicos tornou-se bem presente nos nossos álbuns”.

"O Chester era tão versátil que conseguia imitar muitos dos seus ídolos"
O guitarrista Brad Delson destaca a vulnerabilidade de Chester Bennington na canção 'She Couldn't', uma das primeiras a ser gravadas pelo falecido vocalista, em 1999. "Ele era tão versátil que conseguia imitar muitos dos seus ídolos e acabou por passar por um processo em que a sua própria voz se tornou icónica. O que é fixe nessa canção é que foi uma performance mais suave, mais vulnerável, e fez, certamente, parte desse processo de descoberta”.

"Naquela altura, uma banda desconhecida vender 42 mil discos na primeira semana era uma loucura"
Falando sobre o sucesso quase instantâneo de "Hybrid Theory", Mike Shinoda recorda as apostas que a banda fez antes de saber quanto o disco vendeu na primeira semana. "Tentámos adivinhar quais seriam os números de vendas da primeira semana. Uns diziam 5 mil, outros diziam 7 mil, alguém disse 12 ou 15 mil, mas acabou por ser 42 mil. Naquela altura, esse número era uma loucura para o álbum de estreia de uma banda desconhecida. Eu não lia a Billboard, mas ficámos no top 200 durante um ano e meio ou dois anos. Já estávamos em casa, depois da digressão desse álbum, e a escrever o segundo e continuávamos no top de vendas. A realidade sempre esteve muito à nossa frente. Só percebemos o que se passava mais tarde porque não tínhamos nenhuma experiência na indústria da música”.

"Quando nos perguntavam as nossas influências, dizíamos sempre Portishead, Roots, Aphex Twin e Deftones"
Depois de falar das divisões entre fãs de metal e de hip-hop e no impacto que isso teve na sua vida, Shinoda explica quais eram as verdadeiras influências dos Linkin Park no início. "Quando eu andava na escola, as pessoas não ouviam muitos estilos de música diferentes, ouviam apenas um. Se perguntasse às pessoas que conhecia o que elas ouviam, ou diziam metal ou diziam hip-hop ou o que fosse. Não havia muitos cruzamentos. Quando eu andava a estudar arte, havia uma rivalidade com uma outra mesa de miúdos, porque nós éramos os miúdos do hip-hop e eles os do metal. Era a característica que nos definia e era isso que nos dividia. Foi o meu amigo Mark, que conheci com 12 anos, que começou a apresentar-me outras coisas. Mostrou-me Rage Against The Machine, Nine Inch Nails, Red Hot Chili Peppers, Deftones e acho que foi através dessas ligações que começámos a ter grupos diversos de amigos e a descobrir outros tipos de música. Quando começámos a dar entrevistas, perguntavam-nos quais eram as nossas influências e nós dizíamos sempre a mesma coisa: Portishead, The Roots, Aphex Twin e Deftones. A maioria das pessoas só ouvia uma dessas coisas. Ainda agora pessoas me dizem que eram fãs da banda e que fomos nós que os pusemos a ouvir outros tipos de música”.

"Quando nós aparecemos o Google ainda não se tinha tornado no que se tornou"
Questionados sobre a importância que teve a atenção dada a bandas de nu-metal quando os Linkin Park apareceram, Delson reforça a importância da Internet para chegarem aos fãs. "Os CDs estavam basicamente a desaparecer e apareceu o Napster que depois se viu envolvido em problemas. Nós aproveitámos toda essa onda de partilha de ficheiros e downloads. Estávamos a fazer fãs diretamente na Internet. Pode parecer muito ridículo, mas era uma coisa nova na altura. Quando nós aparecemos nem o Google ainda se tinha tornado o que se tornou”.

"Ensaiávamos num sítio nojento"
Sobre a primeira sala de ensaios da banda, Shinoda recorda uma situação caricata. “O sítio onde nós ensaiávamos tinha dealers de droga e prostitutas em cada esquina. Um dia, saímos do ensaio e dois deles voltaram para trás porque estava uma mulher a defecar no beco. Disseram-me ‘vamos esperar que ela termine para nos irmos embora’. Era essa a nossa vida, nessa altura. Ensaiávamos num sítio nojento. Sinto-me mal por aquela mulher, estava numa situação péssima… mas aquele era o espaço de ensaios que nós conseguíamos pagar”.

"Sempre que falamos desses tempos, as pessoas dizem 'aposto que esse tipo está chateado por não ter continuado nos Linkin Park'"
Algumas das faixas inéditas agora divulgadas em "Hybrid Theory: 20th Anniversary Edition" foram recuperadas a maquetas gravadas por Shinoda e o primeiro vocalista, Mark Wakefield, quando os Linkin Park ainda se chamavam Xero. Shinoda garante que está tudo bem, mas que foi difícil convencer Wakefield a dizer que sim à divulgação desses temas. “Sempre que falamos desses tempos, as pessoas nas redes sociais dizem ‘aposto que esse tipo está muito chateado por não ter continuado nos Linkin Park, mas o Mark, que eu conheci quando tinha 12 ou 13 anos, é manager de artistas, hoje. Os Deftones, os System of a Down, os Smashing Pumpkins. Ele saiu-se muito bem. Foi muito difícil convencê-lo a colocar esse material nesta reedição, mas têm de compreender que ele é um profissional da música. Ele é o tipo por trás das bandas, não quer fazer parte delas. Não quer estar à frente das câmaras, nunca quer estar nessa posição. E é muito bom naquilo que faz. A verdade é que ele é um tipo muito divertido, muito íntegro e não quer esse tipo de atenção".