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Eddie Van Halen

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8 obras de arte de Eddie Van Halen, o génio que pintava com a guitarra

Inovador na linguagem da guitarra, Eddie Van Halen foi igualmente um criativo nunca satisfeito com os limites do instrumento que foi transformando seguindo os impulsos da sua imaginação. O Metropolitan Museum of Art exibiu a sua “Frankenstein”, por exemplo. E o mundo uniu-se para saudá-lo na hora da sua partida, na passada semana. Aqui estão 8 argumentos que sustentam a sua genialidade guitarrística. De consulta obrigatória

Bach, Jimi Hendrix, Ornette Coleman, Chuck Berry, Robert Johnson, Mozart, Eric Clapton, talvez até um pouco de John Cage? É possível que todos esses mestres ressoem, de alguma forma, nos 102 segundos daquela que poderá muito bem ser a mais electricamente vulcânica demonstração guitarrística de sempre: “Eruption”, tema gravado no Verão de 1977, em pleno processo de reescrita das dinâmicas do rock encetado pelo punk, e incluído no primeiro álbum de sempre dos Van Halen, que seria editado no arranque de 1978. Nesse breve instrumental, simbolicamente “ensanduichado” entre o tema de abertura “Running With The Devil” e a versão dos Van Halen para o clássico dos Kinks “You Really Got Me”, o guitarrista Edward Lodewijk Van Halen, que o mundo aprenderia rapidamente a tratar por Eddie, mudou para sempre o discurso da guitarra elétrica, dramaticamente expandindo o seu léxico, o seu tom e, sem dúvida, afirmando a sua capacidade de eloquência.

Eddie Van Halen nasceu na Holanda, em Amesterdão, mas os seus pais emigraram para os Estados Unidos quando contava apenas sete anos de idade. Naturalizado americano, tal como o seu irmão mais velho Alex, Eddie cresceu na Califórnia, teve aulas de piano, e sentiu, obviamente, o apelo do rock and roll ao entrar na adolescência. Inicialmente, Eddie sentiu-se atraído pela bateria e o seu irmão Alex decidiu-se pela guitarra, mas quando o rapaz Van Halen mais velho demonstrou maior destreza no kit ao conseguir copiar o solo de bateria de “Wipe Out” dos Surfaris, os irmãos trocaram de instrumentos.

A primeira banda dos irmãos Eddie e Alex apareceu em 1972. Chamava-se The Broken Combs, nome alterado para Van Halen dois anos mais tarde. A afirmação da banda foi feita de forma tradicional, nos clubes de Los Angeles, como o Whisky A Go Go, onde a incendiária arte guitarrística de Eddie rapidamente lhes trouxe atenção. Em 1977 a Warner ofereceu-lhes um contrato e o resto, poderia dizer-se, é história. Eddie contava apenas 23 anos quando o álbum de estreia da sua banda aterrou no mercado causando um autêntico terramoto: o disco chegou ao Top 20 norte-americano e acumulou vendas superiores a 10 milhões de cópias, o que lhes valeu o raro galardão de Disco de Diamante. Eddie, o irmão Alex, juntamente com o baixista Michael Anthony e o vocalista David Lee Roth fizeram dos Van Halen um dos principais porta-estandartes do Hard Rock com o grupo a lançar uma dúzia de trabalhos originais, o último dos quais, A Different Kind of Truth, em 2012, e ainda dois álbuns ao vivo, o suficiente para terem vendido cerca de 60 milhões de discos só nos Estados Unidos, marca que faz deles – e os dados são de 2019 – o 20º nome na lista da Recording Industry Association of America para os artistas com maiores vendas de sempre no principal mercado mundial. E isso é obra. Monumental, já agora.

Eddie Van Halen, enfim, não foi apenas um monstro sagrado da guitarra, responsável por revolucionar a sua linguagem. Ele foi um autêntico inovador, nunca satisfeito com os instrumentos que existiam no mercado, procurando ele mesmo criar os seus modelos personalizados, como a sua famosa “Frankenstrat” ou “Frankenstein”, guitarra construída de diferentes partes que lhe custaram apenas 130 dólares, mas modificada com pickups posicionados de forma a extrair dela o som que Eddie escutava na sua imaginação e que não era possível de obter com nenhum modelo “off the shelf”, ou seja passível de adquirir numa qualquer loja.

Como explicou à Guitar Player, depois de ter agarrado ele mesmo numa serra para tentar fazer com que uma Gibson Explorer se parecesse mais com uma Flying V, “ninguém me ensinou como trabalhar em guitarras”. E depois explicou: “Aprendi com tentativa e erro e dei cabo de muitas boas guitarras a fazer isso, mas agora já sei o que faço e consigo fazer o que quiser para as deixar como eu quero. Odeio modelos que se compram nas lojas”. A “Frankenstein”, exactamente por ser tão singular, ganhou em 2018 um lugar na exposição Play It Loud com que o Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque celebrou os instrumentos do rock and roll, reunindo um acervo com artefactos usados pelos Beatles, Jimi Hendrix, Elvis Presley, Metallica, Rolling Stones, Chuck Berry ou, claro, Van Halen. Em 2015, o Smithsonian, a instituição que resguarda a memória cultural da América, também quis exibir uma das suas guitarras, mais um dos sinais da profunda importância que as mais respeitadas instituições souberam reconhecer a este guitarrista.

Os seus pares também não lhe regatearam elogios e nos últimos dias uma verdadeira legião de lendas do rock uniu-se num sentido clamor como forma de reacção à partida do guitarrista, que faleceu aos 65 anos vítima de cancro: de Quincy Jones a Ozzy Osbourne, de Pete Townshend dos The Who e Brian May dos Queen a Billy Corgan dos Smashing Pumpkins, de Mike McCready e Stone Gossard dos Pearl Jam a Gene Simmons dos Kiss, passando por antigos companheiros como Sammy Hagar e Mike Anthony, muitos foram os que lamentaram a partida de um dos maiores guitarristas de sempre. Estes são alguns dos mais incríveis momentos que Eddie Van Halen legou à posteridade.

1. Eruption

Tal como aconteceu com os grandes mestres da pintura – amplamente copiados, mas nunca realmente igualados – também este icónico solo de Eddie van Halen, em que usa várias das suas técnicas singulares, quase tratando a guitarra como um piano, nunca foi exactamente replicado. E talvez nunca possa ser...

2. Running With The Devil

O tema de abertura do primeiro álbum dos Van Halen, apresentado ao mundo em fevereiro de 1978, inspirava-se, na letra pelo menos, em “Runnin’ From The Devil” dos Ohio Players, mas musicalmente era outra coisa: mostrava o poderio de Eddie na criação de riffs orelhudos, daqueles capazes de fazer jovens adolescentes correr para a loja de guitarras mais próxima.

3. Right Now

Tema mais tardio, da era em que os teclados já representavam um papel mais importante no som dos Van Halen, “Right Now”, ainda assim, abre espaço suficiente para que a guitarra de Eddie possa brilhar de forma intensa, mesmo em vésperas do som do grunge voltar a recolar a electricidade no centro das atenções globais.

4. Panama

Na versão original deste tema, dá para ouvir o Lamborghini Miura de Eddie a acelerar, mas nesta versão gravada ao vivo nos Prémios Billboard de 2015, com direito a introdução de Taylor Swift e tudo, não são necessários quaisquer aditivos, e o grupo pega no “standard” do clássico álbum 1984 e transforma esta fantasia de poderio automóvel numa autêntica celebração rock. Com Ediie em topo de forma, pois claro.

5. Jump

Que dizer deste monolítico clássico? Ponta de lança de 1984, tendo ajudado o disco a ultrapassar os 10 milhões de cópias de vendas, instalou-se no primeiro lugar da tabela Billboard, transformou-se num hino em muitos recintos desportivos (em San Siro ouve-se sempre que o Milan marca um golo, por exemplo) e, mesmo embrulhado nos sons de um sintetizador Oberheim, continua a ter um dos mais icónicos solos de guitarra de sempre...

6. Cathedral

Eddie explicou que conseguiu fazer soar a sua guitarra neste tema a um órgão de igreja, e daí o título atribuído, “Cathedral”. É mais uma demonstração do seu inventivo poder no seu instrumento predilecto que aqui beneficia da sua utilização do botão de volume, o “truque” para obter o som que, em concerto, deixava toda a gente de queixo caído a sonhar ser também “guitar hero”.

7. Spanish Fly

A pura demonstração técnica de Eddie neste tema, originalmente incluído no álbum Van halen II de 1979, serviu sobretudo para impor alguma distância entre si e a legião de imitadores que começava a formar-se nos domínios do rock. Inspirado no flamenco, o guitarrista parecia garantir aqui que não havia limites para o que conseguia fazer com as suas mãos e seis cordas.

8. Beat It

Não é coincidência que Eddie Van halen tenha recebido um convite especial para figurar num dos mais importantes temas daquele que é o álbum mais vendido de sempre. Ainda assim, quando o famoso produtor ligou a convida-lo, o guitarrista achou tratar-se de uma brincadeira de alguém. Reza a lenda que durante a gravação do solo, uma das colunas de som do estúdio pegou fogo. Incandescência pura para um single que venderia mais de 7 milhões de cópias em todo o mundo!