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"Power, Corruption & Lies", o disco em que Ian Curtis deixou de assombrar os New Order

"Power, Corruption & Lies", o segundo álbum dos New Order, é agora alvo de uma reedição expandida que enquadra o seu carácter absolutamente visionário. O álbum saiu em 1983, mas continua a ecoar o futuro quase quatro décadas mais tarde

Há um momento, nos alvores da década de 80, em que a caixa de ritmos se transforma numa máquina do tempo capaz de antecipar o futuro. Stephen Morris, o baterista dos Joy Division e New Order, confirmou nas páginas de "Totally Wired: Post-Punk Interviews and Overviews" (livro de Simon Reynolds que resultou da reunião das entrevistas que serviram de base para a escrita de "Rip It Up and Start Again – Postpunk 1978 – 1984") que foi com o single 'Everything’s Gone Green', lançado em Dezembro de 1981, que esse inexorável mergulho no futuro teve início: “Foi aí que voltámos a encontrar uma direcção. Foi aí que começámos a trabalhar com a caixa de ritmos, que carregámos no botão de arranque”.

A 10 de Maio de 1982, Morris e ainda Bernard Sumner, Peter Hook e Gillian Gilbert editaram 'Temptation', single em que asseguraram a composição, a execução e, notoriamente, a produção, marcando assim a definitiva ruptura com o passado ao prescindirem dos serviços de Martin Hannett, que ainda tinha sido figura decisiva na arquitetura sónica de "Movement", o álbum de estreia do novo grupo nascido das cinzas dos Joy Division após o suicídio de Ian Curtis, a 18 de Maio de 1980. Em busca de um futuro que os distanciasse não apenas da pesada sombra do malogrado cantor, mas também da própria aura de densos tons de cinza de Manchester, o grupo inspirou-se nas suas viagens a Nova Iorque e na música que aí encontraram, numa efervescente e emergente cena de clubes, para abrir a 21 de Maio de 1982 as portas do Haçienda, o mítico clube que até mereceu número de entrada no catálogo da Factory – o famoso FAC 51.

“Nessa altura”, explicava Morris a Reynolds, “toda a gente queria uma caixa de ritmos. Portanto eu adiantei-me e aprendi a usar essa ferramenta antes de toda a gente. Dessa forma, nunca me senti ameaçado pela caixa de ritmos, enquanto baterista. Tornou-se algo normal para mim. Algo que fosse difícil de tocar, poderia simplesmente programar-se.”

Para o trio que sobreviveu aos Joy Division, a música de dança tornou-se uma espécie de escape e de terapia para lidarem com a inesperada morte de Ian Curtis. “Tínhamos um amigo”, recordava Morris, “Mark Reeder, que conhecemos quando fomos a Berlim, e ele enviava cassetes de disco italiano ao Bernard. Era música irritantemente orelhuda e muito bem-disposta. Nos primeiros tempos dos New Order costumávamos ouvir essas cassetes de Italodisco do Reeder a caminho dos concertos, para nos abstrairmos.”

O baterista menciona igualmente como a tour manager americana da banda, Ruth Polski, começou a levar o grupo às grandes discotecas de Nova Iorque, como a Hurrah, a Danceteria ou a Area, clubes de “superfícies brilhantes” que haveriam de inspirar o design quase industrial e totalmente funcional do Haçienda, que também, dessa forma, rompeu com o tipo de atmosfera que prevalecia na maior parte dos clubes britânicos da época. “Eram discotecas bem diferentes das inglesas, aquelas que encontrámos em Nova Iorque. Outra coisa que costumávamos fazer”, revelava igualmente Stephen Morris, “era simplesmente escutar a estação de rádio Kiss. Todos aqueles discos de Sharon Redd, cenas tipo ‘Can You Handle It’. Os Peech Boys. Metade do tempo costumávamos simplesmente quedar-nos pelo hotel a ouvir a rádio. E a gravar as emissões”. Essa descoberta inspirou decisivamente os novos passos do grupo. “Tinha uma boa batida. Via-se as pessoas a dançarem ao som daquilo. Mas é preciso ecstasy para que um homem branco consiga dançar. E contemporânea dessa cena era a Sugarhill e o Grandmaster Flash e todo aquele hip hop do início. E essa era outra coisa que eu fazia – comprar tudo o que saía na Sugarhill.”

De acordo com as memórias de Peter Hook alinhadas em "Substance – Inside New Order", 'You Make Me Feel (Mighty Real)', clássico maior de Sylvester, o tema 'Uranium' dos Kraftwerk, 'Dirty Talk' de Klein & MBO e até a banda sonora de Ennio Morricone para "For a Few Dollars More" foram coordenadas que inspiraram a criação do tema 'Blue Monday', com a abordagem em estúdio a ser totalmente informada pelo trabalho de produtores como Arthur Baker e Jellybean Benitez, DJ do clube Hurrah ou do Studio 54 que haveria de remisturar vários dos temas do primeiro álbum de Madonna, artista com quem manteve uma relação romântica na época. Em reportagem em Nova Iorque para o lançamento do maxi 'Blue Monday', em julho de 1983, Chris Bohn descrevia o tema como “o mais elegante, absolutamente perfeito, seco e mais sexual de todos os discos de dança” acrescentando tratar-se de “um modelo de funcionalismo anónimo, o trabalho de um grupo que coloca a qualidade acima da novidade da identidade.” O resultado foi um êxito massivo e global que colocou os New Order no centro de todas as pistas de dança do planeta e os tornou obrigatórios na programação de qualquer rádio que procurasse olhar para o presente e agarrar o futuro.

O site Discogs lista quase 200 versões de 'Blue Monday', o icónico single que marcou a entrada dos New Order em 1983, o ano em que finalmente sacudiram das costas o pesado fantasma de Ian Curtis e escancararam as portas do futuro em que ainda hoje se movem. É uma marca impressionante que diz muito do alcance do tema que é hoje apontado como um clássico absoluto da electrónica mais sintonizada com as pistas de dança. Cerca de seis dezenas dessas prensagens datam de 1983 e reforçam o assinalável facto de se tratar do maxi-single mais vendido de sempre: mais de 1 milhão e 200 mil exemplares só em Inglaterra em vendas acumuladas ao longo dos anos, com cerca de 700 mil exemplares só no ano da sua edição original. Em 1983, 'Blue Monday' conheceu prensagens no Reino Unido, claro, mas também em França, Alemanha, Holanda, Itália, Espanha, Canadá, Irlanda, Austrália, Nova Zelândia, Japão, Escandinávia. Mas não em Portugal, apesar da Vimúsica ter, em 1982, lançado uma versão local de "Movement", o álbum de estreia do quarteto de Manchester.

O estatuto atual de 'Blue Monday' mantém-se intacto e talvez a sua monumentalidade tenha até sido amplificada pelo tempo: há cerca de um ano, a revista Classic Pop atribui-lhe o oitavo lugar na sua lista “Top 40 Classic Synth Pop Singles” (que, já agora, tem 'True Faith' à cabeça): “O argumento de que 'Blue Monday' é o momento sintetizado mais marcante dos New Order é estanque. Criado como uma forma de fazer com que as máquinas tocassem os seus encores – 'Porque não premir um botão e ir embora?', como Bernard Sumner disse um dia –, a faixa inspirou-se nos tempos que a banda passou na baixa de Nova Iorque”. Já na lista semelhante que a Uncut preparou para o seu igualmente recente "Ultimate Genre Guide" dedicado à Pop Eletrónica (lista essa, curiosamente, encimada por outro single dos New Order, nesse caso 'Bizarre Love Triangle'), 'Blue Monday', que ocupa também o oitavo posto, é descrito como um tema que resulta “de uma singular combinação de escuridão e luz, de amargura e propulsão, que faz com que seja um certeiro enche-pistas 37 anos depois”. Na mouche.

Depois do lançamento do single a 7 de Março de 1983, com a icónica capa de Peter Saville que procurava assemelhar o disco a um floppy disc (sistema de armazenamento digital de dados que conseguia acomodar uns estonteantes 1,2 megas de informação) e cujas primeiras prensagens custavam tanto a produzir que implicavam que a Factory perdesse dinheiro em cada cópia, a banda apresentou, a 2 de Maio, o álbum "Power, Corruption & Lies". No NME não se poupavam loas ao quarteto mancuniano: “Os New Order tornaram-se um grupo verdadeiramente destemido, um grupo que se recusa a ser intimidado quer pelas tendências dos seus pares quer pelos desejos do público. Eles são capazes de vos levar --- se estiverem dispostos a deixarem-se ir – do inchado coração sangrento que é ‘In a Lonely Place’ até ao ímpio e turbulento ‘Tempation’, à dança desenfreada de ‘Confusion’ e daí até ao inteiramente diferente plano feliz da maior parte de 'Power, Corruption & Lies'.”

Peter Hook, Bernard Sumner, Stephen Morris, Gillian Gilbert

Peter Hook, Bernard Sumner, Stephen Morris, Gillian Gilbert

Getty Images

De facto, tanto 'Temptation' como 'Blue Monday' foram determinantes para o naturalmente difícil segundo álbum dos New Order, gestos de assumida ruptura, autênticos golpes de rins com que o quarteto procurava assumir uma nova orientação estética, um novo som, uma radicalmente diferenciada postura. A partir de "Power, Corruption & Lies" já não seria possível fazer comparações simplistas entre os New Order e os seus antepassados directos, os Joy Division.

Tal como aconteceu com "Movement", e seguindo o que parece ser uma tendência generalizada da indústria discográfica, também "Power, Corruption & Lies" merece agora uma reedição de luxo expandida. Numa caixa desenhada por Peter Saville, que continua a ser o melhor tradutor gráfico da arrojada e original visão artística da banda, poderão encontrar-se um LP, 2 CDs, 2 DVDs e um livro. Com som alvo de remasterização a partir das fitas masters originais – a primeira vez que tal acontece para este título específico -, esta caixa reúne material inédito compilado a partir do resultado de sessões de escrita para o álbum, imagens captadas ao vivo e recuperadas de arquivos televisivos, fotos raras, ensaios originais e muito mais. Tal como aconteceu com a reedição de "Movement", também os maxis que à época tiveram edição paralela e não integraram o alinhamento do álbum (exemplo por cá seguido pelos Heróis do Mar...) serão agora alvo de reprensagens cuidadas: 'Blue Monday', 'Confusion', 'Thieves Like Us' e 'Murder' voltarão todos aos escaparates.

Com uma capa criada por Saville a partir de uma pintura de Henri Fantin-Latour (que faz parte do acervo da londrina National Gallery), "Power, Corruption & Lies" é um daqueles portentos pop que parece ter ascendido imediatamente após a sua edição a um plano superior, intocado pelo tempo. Escutado hoje, entende-se ser clara referência para incontáveis bandas indie surgidas no último par de décadas, um daqueles faróis que serve de incontornável referência para quem experimenta fazer canções com baterias e guitarras, com baixos e sintetizadores, com vozes temperadas com um misto de angústia juvenil e ansiedade esperançosa. Confortavelmente posicionado no Top 30 dos 100 Melhores Álbuns dos Anos 80 escolhidos pela Pitchfork, o segundo álbum dos New Order inspira algumas ideias fortes à publicação norte-americana que começa por declarar que o espírito de Ian Curtis assombra este álbum “exactamente durante 30 segundos”, que é o tempo que demora a que escutemos a voz de Bernard Sumner a adornar a fantástica “Age of Consent”. “Ao mudar o foco poético da alienação e fascismo para o amor e desamor e ao mudarem o som da banda de rock algo marcial para uma dança igualmente algo marcial, este trabalho representa o pico criativo dos New Order nos anos 80, antes de eles se terem tornado autores moles de hinos futebolísticos a implorarem-nos para ‘Rock The Shack’. Todas as malhas de sintetizador permanecem. Escutem o balanço que toda a gente em Athens, Geórgia, estava a copiar. Escutem porque é que Peter Hook é o nome mais apropriado do britpop. Escutem o que têm andado a perder caso conheçam apenas os êxitos”, alertava William Bowers.

Escuta-se bem mais do que isso. Escuta-se igualmente uma banda que, não abdicando da sua mais funda identidade arrancada ao âmago do punk, consegue ainda assim encontrar estímulos criativos no uso da tecnologia que se fazia nos estúdios italianos, que se escutava nos sistemas de som dos clubes nova-iorquinos, criando aí uma fusão que se impôs como fórmula para o futuro. É esse olhar para a frente que anima o exótico '5 8 6', um tema que parece ser o resultado inquisitivo de uma primeira abordagem a novas ferramentas, enquanto que em temas como 'Ultraviolence' ou 'Ecstacy' se parece criar o molde que serviu para gente como os Depeche Mode criar a sua própria identidade. O equilíbrio entre o respeito pelo próprio passado, entre o desejo de descoberta de um novo futuro, entre as guitarras e os sintetizadores, entre o rock e a vontade de dançar, rendeu aqui um insuperável clássico e a verdadeira base sobre a qual os New Order ergueram uma carreira que continua a desenrolar-se e que, em 2021, os deverá devolver aos palcos para uma série de concertos com os Pet Shop Boys que deveria ter tido lugar durante este ano. Lá estaremos todos.