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Linda de Suza

101 canções que marcaram Portugal #40: 'Um Português', por Linda de Suza (1978)

Teolinda de Sousa fez-se Linda de Suza porque soube agarrar no seu destino e invertê-lo. Os países grandes fazem-se de acolhimento e França acolheu esta étrangère como sua. Em Portugal, nunca deixou de ser a grande embaixadora da nossa cultura mais popular

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Um Português', de Linda de Suza
(1978)

Quando Wilson Simonal subiu ao palco do Festival RTP da Canção de 1979 como atração internacional, estava já longe da sua grande forma como crooner e como vedeta no Brasil. Nunca se livrou da acusação de associação criminosa perpetrada contra o seu contabilista (extorsão por tortura) e, como se não bastasse, viu o seu nome associado a um departamento de ação repressiva da ditadura militar. Passaria a década seguinte a atuar em salas bem mais pequenas (o eufemismo peca por defeito) do que os grandes palcos pelo mundo que pisara na sua carreira e a entregar-se ao álcool – mal do qual viria a falecer. Não era uma grande figura internacional, mas a sua alegria, o seu swag e sobretudo as canções açucaradas que o fizeram ídolo e que nos fazia sonhar com Copacabana e cocos à beira-mar chegava e sobejava. No ano anterior, a gala tinha sido abençoada por Elis Regina, a maior cantora no Brasil, e no ano mais anterior por um sinistro e genial Scott Walker. Dê-se um salto até ao Festival de 1984, ganho nesse ano por Maria Guinot – com uma canção, letra, interpretação e performance pouco festivaleira. A gala foi abrilhantada por uma vedeta luso-internacional: Linda de Suza. Fialho Gouveia justificou longamente a escolha daquela vedeta ‘internacional’ – ela que até era da nossa gente.

A alentejana Linda de Suza fez-se mulher na Porcalhota (valha que o destino dos homens finta os nomes infelizes das terras que os viram nascer ou crescer) e fintou o seu destino com a obstinação dos que sabem que querem ser a exceção e não a regra. A mais profunda miséria levou-a a ela e a um filho pela mão a cruzar a fronteira a salto. Seria Miguel Torga o autor perfeito para trilhar em linhas este seu pedaço de história – caso Linda de Suza lhe tivesse servido de inspiração. Até se fazer Linda de Suza, e enquanto era ainda Teolinda de Sousa Lança, fez a história da maioria dos portugueses não burgueses em França: bidonvilles, lama, tenacidade, amores desencontrados, dificuldades, ordens acatadas, muito andar e pouco assentar, sonhos, ilusões e utopias. A utopia de Teolinda de Sousa era tão só tornar-se Linda de Suza. E como o destino nunca está traçado, Teolinda de Sousa fez-se Linda de Suza porque soube agarrar no seu destino e invertê-lo. Que a rapariga sabia cantar. Que a rapariga soube ver uma nesga num mercado ainda em aberto para franceses e portugueses – não só para portugueses, não só para franceses, mas para franceses e portugueses – os dois a entoarem o ‘Lá em cima está o tiro-liro-liro’. Quem diria. Quem diria? Só mesmo quem não a conhecesse. Linda soube traçar o seu próprio destino e soube fazer-se vedeta da comunidade portuguesa e de França. Que para os portugueses era portuguesa e para os franceses era l’étrangère, diplomata com a autoridade dos que construíam o país grande. O folclore e Portugal saíram das festas católicas da comunidade lusa e passaram a encher as festas das salas dos franceses.

Saiu da Rádio Alfa e passou a ser tocada nas rádios francesas de abrangência nacional. Numa época em que se vendiam discos. Numa época em que Linda de Suza tinha medo. Tinha medo que lhe faltasse a voz e tivesse de voltar para o Hotel Chateaubriand na rua que lhe deu nome e tivesse de conviver de novo com termos como aspirateur, serpillière e balai-brosse. Que lhe tirassem o que construíra sozinha e que deixasse de se vergar ao público. Passou a ser um epítome de uma estrangeira – no país para onde tinha fugido a salto e no seu próprio país. Era a Linda de Suza e não havia outra igual em Portugal. Em França havia muitas Lindas de Suza, que França era verdadeiramente o país da égalité e da fraternité e que o orgulho nacional têm-no em demasia as ditaduras. França completava a tríade com a Liberté. Os países grandes fazem-se de acolhimento; já George Moustaki havia sido uma Linda de Suza muito antes quando cantara "Avec ma gueule de métèque / De Juif errant, de pâtre grec". Linda de Suza teve apenas de fazer o caminho de Moustaki e colocar Portugal no mapa de França como Moustaki fizera com a sua Grécia. Passou a ser embaixadora de Portugal em França e passou a ser convidada de honra em honrarias diplomáticas. Sentava-se no meio de presidentes, literalmente entre François Mitterrand e Mário Soares. O nosso presidente, pela afinidade intelectual, política e vivencial com o novo país de Linda de Suza, segredou-lhe certa vez: "não me trate por Dr. Mário Soares, Linda. Já nos conhecemos há muito tempo e considero-a uma amiga". E ela (Vinícius de Moraes poderia ter escrito estes versos para ela: "é gente humilde/que vontade de chorar") chamou a Mário Soares, ao Sr. Presidente, ao Dr. Mário Soares, a única forma com que nunca se lhe tinham dirigido: "está bem, Sr. Mário". Sr. Mário. O que é feito de Linda de Suza? Teve o ocaso que não esperava. Teve o ocaso que construiu. Teve o ocaso de quem passou a dar a veneração como dado certo e perdeu a obstinação. Não se julga, hoje, aos 70 anos, injustiçada. Conseguiu aquilo que criou para si mesma e por que lutou: deixou de ser l´étrangère em França e para nós, em Portugal, nunca deixou de ser a grande embaixadora da nossa cultura mais popular.

Um português que deixou seu Portugal
E como aqui a chuva pra ele é de mais
Ele vai pensando no sol do seu país natal

Ouvir também: 'Chuvinha' (1981) Linda de Suza insistiu, num acesso de teimosia, em afrancesar o refrão da canção e esta ficou mesmo registada como "Chuva, chuva chuvinhá".

  • 101 canções que marcaram Portugal #38: 'Chamem a Polícia', por Trabalhadores do Comércio (1981)

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    Herdeiros do rock cantado em inglês dos anos 70 – com os Psico e os Arte e Ofício – quiseram satirizar a moda tornada popular por Rui Veloso, os UHF ou os Táxi e acabaram por se tornar parte desse movimento fulgurante e fugaz. O ‘chamem a polícia’, apesar de zombeteira, é uma canção de uma aprumada seriedade musical. Uma história que cruza António Garcês, um integrante da banda com 7 anos e a vitória num festival da canção

  • 101 canções que marcaram Portugal #37: 'Fado Falado', por João Villaret (1947)

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    O Fado falado é uma canção dita e não cantada. Dependeu só de si para se tornar imortal. Um fado que falava de um meio que não frequentava, mas que permitiu a João Villaret tornar-se mainstream e, após esse escopo, passar a dedicar-se com mais dedicação à arte que o fez maior: a poesia. Esta é a 37ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #36: 'Liberdade', por Sérgio Godinho (1974)

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    Sérgio Godinho é o mais consistente compositor da música feita em Portugal dos últimos 50 anos. Em véspera do 75º aniversário, relembramos uma canção que deu finalmente nomes concretos à liberdade. Os seus conceitos (paz, pão, habitação, saúde e educação) poderiam ser inscritos num mural tingido a grafite. Esta é a 36ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #35: 'Oração', por António Calvário (1964)

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    Foi o primeiro vencedor do Festival RTP da Canção e perdura como um paradigma de um artista do seu tempo na canção ligeira. Todavia, a vida de António Calvário não se esgotou nas canções. Foi vedeta no teatro e no cinema. Viveu intensamente. Teve coragem de arriscar. Teve sucessos e fracassos. A liberdade prostrou-lhe a carreira gloriosa, mas continua hoje a ter público fiel, como uma memória viva do seu tempo. Esta é a 35ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #34: 'Canto aos Peixes', pelos Ex-Votos

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    Zé Leonel foi bem mais que o primeiro vocalista dos Xutos e Pontapés. Foi alguém que subverteu as normas e viveu na periferia das convenções, um grande músico e letrista, mas sobretudo um roqueiro genuíno. Esta é a 34ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa