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Sara Correia, a fadista de alma madura que quer descobrir-se mais

Dois anos depois da estreia, Sara Correia está pronta para deixar uma marca no fado, incorporando outros sons. Eis “Do Coração”, o manifesto de uma “dona Sara pequenina”

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Talvez por desde muito jovem tratar o fado por tu, Sara Correia — nascida em Marvila, Lisboa, há 27 anos — fala com a ponderação de uma veterana. Agora que “Do Coração”, o seu segundo disco, chega às lojas, a cantora que aos 14 anos venceu a Grande Noite do Fado considera-se mais pronta, mais madura. Nos dois anos que passaram desde a sua estreia nos discos, 2020 não conta (“Este ano ninguém fez nada”, diz, referindo-se à pausa imposta pela pandemia), mas o outro foi de profundo melhoramento. “Apercebi-me de que sou fadista, mas quero descobrir-me mais. Também gosto de outras músicas, quero experimentar coisas novas e não deixar nada por fazer. Quero arriscar, acho que a palavra é essa.” A abertura de novas janelas não significa, porém, que Sara Correia se prepare para abandonar a casa que é para si o fado (com três anos viu a tia, Joana Correia, vencer a Grande Noite do Fado e desde cedo começou a cantar ao vivo). “Não temos de ser só uma coisa, e este novo disco ajuda-me a passar [essa mensagem]. Quis mostrar outras facetas, continuando com a minha portugalidade. Isso não tenho como mudar, nem queria. Acho que um dos meus pontos fortes é ser portuguesa e cantar em português, mas indo buscar outras sonoridades: um tango, um pouco de pop...” Para a ajudar na busca de uma sonoridade mais latino-americana, por exemplo, a fadista procurou os préstimos de Luísa Sobral, cantora e compositora conhecida pela velocidade com que é capaz de escrever “para fora” (António Zambujo, que a canta na belíssima ‘Se Já Não Me Queres’, não lhe poupa elogios). Sara Correia corrobora esta ideia: “Disse à Luísa que queria muito que ela fizesse uma composição para mim e dois dias depois tinha o tema na minha mão. Fiquei: ‘Uau!’”, exclama. “Apaixonei-me logo pela letra, pela música, pela forma como ela se expressa a cantar... Depois peguei naquilo com o Diogo [Clemente] e transformámos o tema em Sara Correia”, recorda.“A Luísa é uma compositora inacreditável. Percebe muito de música e quis puxar pelos meus graves. O tema não é puxado [para mim], é fácil de cantar e é lindo, eu adoro”, louva a intérprete, cuja juventude se revela nestas afirmações mais fogosas.

É impressionante a lista de artistas que aceitaram escrever para Sara Correia: de Vitorino, autor da música de ‘Por Passares’ (com letra de Diogo Clemente, produtor do álbum e autor de cinco das suas canções) a Jorge Cruz (no castiço ‘Por Perto’), Joana Espadinha (que escreveu a lânguida ‘Chegou Tão Tarde’) ou Carolina Deslandes (‘dona’ da intensa ‘Porquê do Fado’), eis um elenco elástico no que toca a idade e géneros. “Quis juntar pessoas que admiro e tornar este disco especial para o resto da minha vida. Acabei por formar aqui o meu coração — é uma grande honra. Penso que tem a ver, também, com a fase em que estou: os meus 27 anos estão a puxar por mim.” Sentir o tempo na voz faz parte do ofício, garante a ainda jovem mas experiente artista. “Quando envelhecemos e nos tornamos outras pessoas, ganhamos coisas. Isso também é ser fadista. O mais bonito é ir vivendo. Envelhecer vamos todos, mas ao menos teremos histórias para contar.” Uma das histórias que Sara Correia irá certamente querer partilhar com a descendência é a do dueto que, em “Do Coração”, gravou com António Zambujo. Com um toque de blues, a canção tem música do cantor alentejano e letra de Paulo Abreu Lima e ‘derreteu’ a fadista. “Como a música diz, foi um baque no meu coração”, emociona-se a comentar. “O António Zambujo é um artista que admiro imenso e para mim foi o topo do que estava a construir, a cerejinha em cima do bolo. Nem tenho palavras, às vezes ainda vou ouvir o tema, para ver se gravei mesmo com o Zambujo. Ele já me conhece desde miúda e, quando aceitou fazer um dueto comigo, senti que cada vez mais tenho a certeza de que é isto o que eu quero para a minha vida.” Após o lançamento do primeiro disco, e antes de a pandemia nos cortar as asas, Sara Correia aproveitou para viajar, à boleia dos seus concertos internacionais, e dessas jornadas trouxe ensinamentos importantes. “Fiz sete concertos seguidos na Holanda e na Bélgica, voltei a Portugal, descanso um dia e vou para a Índia”, recorda. “Chegamos lá e é outro mundo. Adorei e vim de lá [um mês depois] com outra mentalidade. A seguir vou para o Chile, outra realidade também. E fui à Coreia do Sul!”, partilha, explicando que atuou em Seul, num festival “enorme. Cantei dois dias e foi inacreditável. No fim dos concertos as pessoas vinham agradecer-me e traziam-me bandeiras de Portugal para eu assinar. Até assinei camisolas do Cristiano Ronaldo, que era o que eles conheciam de Portugal!”, ri-se.