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Bruce Springsteen fez 71 anos esta semana. Há um ano víamos em Londres o filme da vida do Boss na presença do próprio

Bruce Springsteen celebrou no passado dia 23 de setembro 71 anos. Há quase um ano, dizia-nos em Londres: “Sempre me interessei muito pelas pessoas, pelo que fazem e porquê”

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Nos últimos cinco anos, Bruce Springsteen escreveu um livro e uma peça de teatro e produziu um belo álbum. "Western Stars" é agora um filme, que vimos em Londres, com o seu autor.

A noite é de chuva e com manifestações pelo clima junto ao Tamisa. No cinema onde decorre o BFI London Film Festival, todos - imprensa convidada e fãs que compraram bilhete - aguardam a chegada de um só homem: Bruce Springsteen, que entra na sala com capacidade para 450 pessoas com tanta elegância como discrição. Vestindo fato negro e camisa branca, um dos derradeiros ícones do rock é recebido com uma estrondosa ovação de pé, reagindo com típica humildade: "Pedia-vos que não aplaudissem cada atuação", diz, referindo-se às 13 canções que perfazem "Western Stars", o filme. "Se gostarem, aplaudam no final." E com a mesma simplicidade com que apareceu, aquele a quem chamam "Boss" senta-se na plateia, duas filas à nossa frente, para assistir ao primeiro filme que realizou (em parceria com o colaborador de longa data Thom Zimny, também presente).

Filmado ao longo de dois dias no passado mês de maio, "Western Stars" podia ser mais um filme-concerto, daqueles em que o alinhamento de um álbum - no caso, o do disco com o mesmo título, lançado em junho - é recriado tema a tema, sem arroubos de maior. Espelhando a cintilante criatividade recente de Bruce Springsteen, contudo, o filme - que vimos por duas vezes, na projeção de sexta-feira, dia 11, e na manhã seguinte, numa sessão apenas para jornalistas - é precisamente o contrário: intercalado por vinhetas tocantes, o espetáculo em que o veterano se apresenta com uma orquestra, uma pequena banda e Patti Scialfa, a sua mulher, na voz e na guitarra é uma viagem tão pessoal como transmissível ao cerne do que significa ser humano.

Parece pomposo e impossível de concretizar em pouco mais de uma hora, mas a magia que o 'maestro' opera com as palavras, nos textos que lê entre canções, deixou as duas salas com um nó na garganta; independentemente do trajeto de cada um, é complicado não encontrar pontos de contacto com a análise, sucinta mas riquíssima, que Bruce Springsteen faz da sua caminhada. "Quando era mais novo, se amasse uma pessoa, muito provavelmente a magoaria", confessa num desses interlúdios para os quais se deixou filmar no deserto de Joshua Tree. "Era um pecado. Consegui melhorar com a ajuda da minha família", explica, para mais à frente sentenciar que "toda a gente está estragada de alguma forma" e que muitas vezes o amor nasce quando essas peças escangalhadas se juntam numa só". Sem moralismo e com aquela voz de gravilha que até em Marte seria reconhecida, Bruce Springsteen vai debitando estas reflexões como forma de dar a conhecer "a vida interior" das canções novas.

Quando começou a escrever "Western Stars", o outrora garoto de New Jersey sentiu que este seria um disco diferente. Estávamos em 2012, confidenciou em Londres, e do 'parto' demorado saíram umas 50 canções, por fim reduzidas a uma dúzia de temas especiais. "Escrever é um mistério", afirmou na sessão de 12 de outubro, conduzida por Edith Bowman. "Pergunto-me: 'será que alguma vez irei voltar a escrever uma canção?' Durante um ano fico às voltas, sem ideias ou inspiração, e de repente descubro uma veia criativa nova na minha mente. Neste disco foi a Califórnia do Sul, Burt Bacharach, Jimmy Webb", ilustra. "Pensei: 'e se tentar escrever canções com esse sentimento?' De repente tenho ali uma coisa fresca. O mais difícil é escrever rock, porque isso já fiz muito", brinca.

Neste momento, Bruce Springsteen podia viver dos rendimentos, capitalizando um catálogo imenso ("The River", o álbum de 1980, faz 40 anos em 2020, recordou a moderadora da segunda sessão, mas o autor não revelou planos de assinalar a efeméride). Ao invés disso, encontra-se numa nova vida criativa, desencadeada pela edição, em 2016, da autobiografia "Born to Run". Em 2017 as suas memórias inspiraram a peça "Springsteen on Broadway", que esteve em cena em Nova Iorque durante mais de um ano, num total de 236 apresentações, e em 2018 o espetáculo que com agilidade felina cruza música e spoken word deu origem a um especial da Netflix e respetiva banda sonora. Agora, poucas semanas depois de completar 70 anos, apresenta "Western Stars", um filme que, nas suas próprias palavras, se transformou em cinema quando a habitual bajulação dos extras deu origem a algo mais profundo. "Depois de se filmar o concerto, nos extras, põe-se sempre as pessoas a dizer que sou um gajo porreiro e que foi uma grande honra trabalhar comigo", ri-se este herói americano. "E nós ainda filmámos isso. Mas às tantas pensei: 'temos toda esta música nova, como é que vou apresentar a sua vida interior às pessoas que nunca a ouviram?'. Certa noite estava a ver televisão e comecei a escrevinhar os meus pensamentos para cada canção. Foi assim que fiz o guião que serve de voz off. E depois precisávamos de imagens para a voz off."

Além das cenas filmadas no deserto de Joshua Tree, com pores-do-sol poéticos, nuvens dramáticas e cavalos correndo livremente pela paisagem a perder de vista, as pequenas fábulas são acompanhadas por imagens antigas que Thom Zimny, o correalizador, encontrou em arquivos públicos e também em casa do amigo; entre elas encontra--se um pequeno filme da lua-de--mel de Bruce Springsteen e Patti Scialfa, sua mulher há cerca de 30 anos e "o verdadeiro centro emocional deste filme", diz o marido. Cantora e compositora com obra em nome próprio e membro da E Street Band desde 1984, Patti tem praticamente tanto tempo de câmara como Bruce no concerto gravado no celeiro da propriedade do casal, em New Jersey. Enfiar banda, orquestra, uma grua e pelo menos duas centenas de pessoas num celeiro construído no século XIX não terá sido fácil ("Quando cheguei, já estava tudo montado", admite o anfitrião), mas a intimidade alcançada compensa tudo; "Western Stars" está nos antípodas do filme musical frio, mostrando o protagonista em casa, com a companheira de uma vida a seu lado.

Na fita, tal como no disco, o homem de "Nebraska" procura oferecer "uma meditação sobre amor, família, esperança, fé e futuro" e os caminhos que nos levam do nosso papel enquanto "atores individuais" para "uma vida cheia de pessoas e família e amigos, ou seja, para uma experiência comunitária. Toda a gente tem de fazer essa viagem", acredita, e é dessa dualidade entre raízes e escapismo, entre o celeiro do clã e a liberdade da estrada aberta, que o filme também se alimenta. Em todos os seus álbuns mais narrativos Bruce Springsteen veste a pele de uma personagem para falar de si mesmo. "Conto os pormenores da vida de alguém para expor a minha própria vivência interna. Nesses discos de short stories, como 'Nebraska', 'The Ghost of Tom Joad' ou 'Devils & Dust', escrevo sempre de forma cinematográfica", admite. O autorretrato não ficaria completo sem um ato de contrição, pressentido ao longo de todo o filme.

"Tenho tido sorte", disse na segunda sessão. "Talvez tenha a ver com o facto de estar a chegar àquela idade em que fazemos a revisão da matéria do que aprendemos e do que a nossa vida tem sido. Escrever o livro foi o primeiro capítulo, depois a peça saiu daí, e curiosamente o filme saiu da peça." É possível que esta fase de introspeção fique por aqui ("Sou um homem de muitos talentos. A seguir vou tentar ser astronauta!", galhofou em conversa com Edith Bowman), pois em 2020 os planos passam por regressar à estrada com a E Street Band. "Tenho de voltar ao meu day job para pagar as contas!", anunciou, para júbilo da assistência.

Mas a riqueza emocional de um filme como "Western Stars" não o abandonará tão cedo. Comentando o intenso dueto com Patti Scialfa em 'Stones', reconhece: "Foi um grande erro não a ter tido num disco que é sobre homens e mulheres. Estamos juntos há tanto tempo, por isso há muita experiência à volta daquele microfone. No momento em que nos aproximámos para cantar, temos os nossos 30 anos de vida em comum entre nós."

Se com canções como 'Tucson Train', 'Sundown' ou 'Chasin' Wild Horses' "Western Stars" já era um dos álbuns mais belos do ano, o filme torna-o ainda mais próximo da experiência humana. Mais do que explicá-lo, as vinhetas funcionam como breves cartas de amor ao protagonista de cada história; fitando o espectador, ao som das peças instrumentais que compôs para acompanhar os interlúdios, Bruce Springsteen parece olhar-se a si mesmo - e, apesar dos "comportamentos destrutivos" e outras falhas que foi tentando superar, os grandes planos dos olhos que "aprenderam a ter compaixão" mostram algum orgulho na estrada percorrida.

Gravado ao longo de dois dias de calor, o filme do concerto usa sobretudo imagens do segundo dia e, misturando a doçura das canções com a suntuosidade dos arranjos de cordas, evolui num absurdo de talento e emoção que seria notável em qualquer fase da carreira, mas que, neste outono cheio de sol de Bruce Springsteen, comove ainda mais. "É aquela velha história", resume ele a certa altura. "Amor e glória." É verdade, mas ninguém a conta como um septuagenário sem medo de mostrar imagens do banco onde pediu Patti, segunda mulher e mãe dos seus três filhos, em casamento. Trajando jeans e botas de cowboy, o músico lembrou, na segunda sessão, que o público só deseja duas coisas: "Sentir-se em casa e ser surpreendido." E, com isso em mente, correu riscos, "e a magia aconteceu".

Dois minutos com o Boss

Mais tarde ficaríamos frente a frente com o homem mais procurado daquela manhã, num brevíssimo meet and greet, e não resistimos a perguntar: qual o segredo para manter este otimismo de peito aberto, e até uma certa pureza de intenções, após tantas décadas numa indústria que pode ser madrasta? "Tens de te lembrar porque é que te meteste nisto, para começar", responde-nos de olhos semicerrados. "O que é que querias retirar de tudo isto. Há coisas que estão associadas à música, e não é que não goste de participar nelas, mas tenho de me manter concentrado naquilo que estou a fazer. Sempre me interessei muito pelas pessoas, pelo que fazem e porquê, em como se relacionam e o que querem da vida: acho que toda a gente pergunta a si próprio isso mesmo. É esse tipo de conversa séria que desejo ter com o meu público e os meus fãs. Claro que há outras coisas, mas o meu valor é como songwriter, e tento nunca me esquecer disso."

Artigo publicado na revista do Expresso a 19 de outubro de 2019