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Adolfo Luxúria Canibal fotografado em dezembro de 2019

Rui Duarte Silva

Os Mão Morta tocam hoje na Casa da Música. E nós recordamos a entrevista de vida a Adolfo Luxúria Canibal

Os Mão Morta tocam este sábado, 26 de setembro, na Casa da Música, no Porto. Recordamos a entrevista de vida que fizemos a Adolfo Luxúria Canibal, em dezembro de 2019. Da infância bucólica à descoberta do rock que se fazia em Lisboa, passando pela droga mais difícil de largar e pela sensação de chegar aos 60 sentindo-se jovem - uma conversa para ler com tempo

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Os Mão Morta apresentam hoje, 26 de setembro, o álbum “No Fim Era o Frio” na Casa da Música, no Porto, pelas 22h00

Líder dos Mão Morta há mais de 35 anos, Adolfo Luxúria Canibal celebrou no último dia de Natal 60 anos. Na sua cidade de Braga, o músico e poeta abriu o livro de uma vida preenchida: do nascimento em Luanda até à carreira em Direito, passando pelos excessos do rock e uma longa temporada em França. Uma história que continua a escrever, intensamente

Conhecido dos melómanos portugueses como Adolfo Luxúria Canibal, Adolfo Morais de Macedo é um homem de histórias. Além dos caminhos trilhados pela sua banda de sempre, os Mão Morta, tem vários livros (de poesia e crónicas) editados e uma longa carreira no Direito, atualmente ao serviço do Instituto da Conservação da Natureza, enquanto consultor jurídico. Nascido em Angola, filho de Braga e enteado de Lisboa, é um conversador de grande disponibilidade e memória impressionante, recordando ao mais ínfimo pormenor a infância bucólica em Vieira do Minho, as descobertas mais desviantes em Lisboa e os grandes desafios de uma vida, pessoal e profissional, plena de emoção. Quase quatro horas de conversa deram uma entrevista, mas falar com Adolfo Luxúria Canibal desperta a mesma sensação de saciedade e curiosidade de ler uma grande obra. Esta é a sua vida.

Nasceu em Luanda, num dia de Natal. E o parto foi apressado por uma gravata, certo?
Não foi apressado, pois já estava no tempo, mas seria desencadeado pelos risos provocados pelas brincadeiras que surgiram à volta de uma prenda: uma gravata que o meu pai recebeu. Não sei se a minha mãe já estaria no hospital e se foi lá que a distribuição de presentes aconteceu, ou se foi na casa de alguém da família, em Luanda. Mas a emergência do parto fez com que a minha mãe fosse para o hospital. Devia ser uma gravata bonita [risos].

Deve ter sido uma história repetida durante muitos natais. A sua família era unida?
Era uma família próxima, tanto do lado da minha mãe como do meu pai. E havia sempre momentos de união à volta da minha avó, no Natal, na Páscoa e noutras épocas tradicionais. Mesmo quando a família, antes do 25 de Abril, vivia toda em África e nós já vivíamos cá, havia vindas à metrópole, como se chamava a Portugal na altura. Quando os meus primos vinham estudar para a metrópole, ficavam em nossa casa. Do lado do meu pai, também: os meus avós paternos viviam em Lisboa e só tinham um filho e uma filha. Também nos uníamos sempre em épocas de festa. As férias grandes eram passadas em conjunto, íamos todos para Vila Praia de Âncora. O mês de setembro também era passado em conjunto, em Vieira do Minho. As famílias eram muito unidas e ainda se tenta manter isso. A minha avó já morreu, tal como a minha mãe e a maior parte dos meus tios. Mas ainda hoje, no aniversário da minha avó, que era o dia em que a família se reunia, a família volta a reunir-se em Braga.

Quanto tempo viveram os seus pais em Angola?
A minha mãe nasceu em África. Os meus avós maternos eram cá de Braga: a minha avó era de Cabeceiras e estudou o magistério primário aqui. Aliás, foi catrapiscada pelo meu avô paterno, que também era de Braga! Mas acabou por casar com o meu avô, que foi para Angola, onde era diretor dos correios. Andou muito tempo por muitos sítios e depois esteve em Luanda, na sede, como diretor geral. Mas a minha mãe e as suas irmãs nasceram quando ele estava em Silva Porto, no sul de Angola. Depois, a minha mãe viria tirar o curso em Coimbra. O meu avô [paterno] era professor, foi cedo para Lisboa dar aulas, e o meu pai foi [para a capital] ainda miúdo. Fez a sua vida adolescente e escolar toda em Lisboa, mas tinha os primos em Braga e gostava muito de vir passar as férias a casa deles, em Ferreira. E a minha mãe tinha dois colegas em Coimbra que eram primos do meu pai. No fundo, Portugal era pequenino e era tudo gente do Norte. A minha mãe vinha passar férias a casa de uns primos do meu pai e foi aí que os meus pais se conheceram. Os primos foram à estação buscá-la, a ela e a dois primos que vinham num comboio de Coimbra, o meu pai já cá estava de férias e pronto, foi amor à primeira vista [risos].

Falava-se muito dos tempos de África, em sua casa?
A minha mãe ficou sempre com a nostalgia de Angola. Quando acabou o curso em Coimbra, ela regressou a Angola, onde estava a família. O meu pai ficou cá, acabou a tese, arranjou trabalho em Angola e foi ter com a minha mãe para se casar. Casaram e estiveram lá um ano, sensivelmente. Depois começou a guerra, e o meu pai, que trabalhava como administrador florestal de Cabinda - e a guerra começou ali junto ao Congo belga, no Norte de Angola -, decidiu pirar-se. E fizeram muito bem, porque o administrador seguinte foi morto. Vieram embora e ainda ficámos um ano em Lisboa, onde nasceu a minha irmã. Depois, o meu pai arranjou trabalho como administrador florestal em Vieira do Minho e viemos para o Norte, onde o meu irmão já nasceu. E ficámos em Vieira do Minho até aos meus 11 anos, salvo erro. A minha mãe arranjou trabalho como professora em Braga, onde eu fiz toda a escolaridade primária; vínhamos à semana, ficávamos em casa dos meus avós maternos, que entretanto se reformaram, em Angola, e vieram para a sua terra de origem, Braga.

É verdade que tem uma recordação de estar num barco, eventualmente na viagem para Portugal, ainda bebé?
A única imagem que eu tenho, real, é a de estar ao colo de alguém e de sentir que havia uma grande tensão no ar. De ser de noite e de ver luzes ao longe. E de estar numa amurada e de haver água, entre essas luzes e nós. E a única explicação possível é a de estar ao colo da minha mãe, na viagem de regresso de Angola para cá, que se fazia de barco e demorava um mês, na melhor das hipóteses. Fazia uma paragem, normalmente na Madeira ou em Cabo Verde, portanto terá sido num desses sítios. Ou porventura na chegada a Lisboa? Mas devia ser de tal maneira excitante, chegar a terra e ver luzes ao fim de um mês em mar alto, que aquilo marcou-me. Não é normal uma pessoa ter memórias de quando tinha seis meses! Sei que há memórias induzidas, mas aqui não é o caso: a imagem é visual e eu é que andei a tentar situá-la.

Antes de seguir para Vieira do Minho, a sua família ainda esteve algum tempo em Lisboa...
A minha irmã nasceu em Lisboa, quando chegámos de Angola. Estivemos um ano em Lisboa, onde a minha mãe ficou a dar aulas e o meu pai trabalhava, enquanto esperava colocação como administrador noutro sítio. Depois viemos para Vieira do Minho, tinha a minha irmã acabado de nascer e eu tinha um ano e meio. Já no Minho nasceu o meu irmão - no hospital de Braga, porque em Vieira do Minho não havia maternidade. Nasceu num dia de neve, num 31 de janeiro em que o meu pai nem conseguiu chegar a tempo de ver o nascimento, porque ficou retido pela neve.

Qual era a sua relação com os seus irmãos, ambos mais novos?
Acho que nos dávamos muito bem! Pelo que me contam, eu era muito protetor. A minha mãe contava que houve uma altura em que me recusei a ir para o jardim-escola, porque não conseguia tomar conta dos meus irmãos. Eles eram de tal maneira turbulentos que eu sentia que não conseguia tomar conta deles. E recusava-me a ir porque não conseguia assumir as minhas funções! Dizem que andava sempre a zelar para que tudo corresse bem com eles.

Os seus pais gostavam muito de literatura e música, certo?
Ópera, o meu pai. E tinham muitos livros. Técnicos, mas também literatura. A minha mãe, mais do que professora, era pedagoga; escreveu livros sobre pedagogia e programas. Quando ela morreu e a minha irmã começou a limpar a casa, a quantidade de livros sobre pedagogia era incrível. A área dela era Português e História, Filosofia também. E tinha alguma literatura. O meu pai tinha muita coisa ligada à conservação da natureza, a parques nacionais, à silvicultura e também alguma literatura. A minha casa estava apinhada de livros, não havia estante que se conseguisse consultar de forma normal: eram livros atrás de livros, segundas filas...

Foi isso que fomentou a sua paixão pela leitura e pela escrita?
É evidente que o meio familiar ajuda, mas a minha paixão pela literatura, pela poesia, pelo ensaio, surgem muito com o 25 de Abril. Sou de uma geração que tinha 14 anos quando aconteceu o 25 de Abril. E uma das coisas muito positivas que [a revolução] trouxe foi uma vontade enorme de discutir ideias. Não havia internet, as coisas funcionavam muito por boca a boca. Quando tinha 14 anos, reuníamos num descampado que havia em Braga, em grupos de seis, sete, dez pessoas. Pegávamos num livro, alguém lia um capítulo em voz alta e no fim discutíamos o que tinha sido lido. Hoje uma pessoa vai para os jogos, na altura o incentivo era discutir: literaturas, teses... porque o 25 de Abril não trouxe só política para a superfície. Os livros que se liam naquelas tertúlias eram uma panóplia enorme. Isso é que deixou as suas marcas. E também a escola, porque tive muito bons professores, sobretudo duas professoras de português que me incentivaram muito não só a leitura como a escrita. A primeira infância, até aos cinco anos, e os primeiros anos da adolescência são duas idades que marcam uma pessoa para o resto da vida. E os traumas e os incentivos que temos nessa idade nunca mais nos largam. Tive sorte de ter 14 anos no 25 de Abril.

Durante a entrevista em Braga, no final de 2019

Durante a entrevista em Braga, no final de 2019

Rui Duarte Silva

A infância passou-a em Vieira do Minho, num cenário bucólico. Uma infância à Tom Sawyer?
O meu pai era administrador florestal e, na época, os administradores florestais viviam nos parques florestais, que eram terrenos de vários hectares, com o chamado parque inglês - aquele parque tipo floresta com carreiros - e o parque francês, mais ordenado, com relvados. No Parque de Vieira do Minho, como era a sede dos serviços florestais do perímetro da serra da Cabreira, nem a polícia entrava. Hierarquicamente, quem mandava eram os guardas florestais. Se um GNR fosse fazer uma operação de trânsito numa estrada florestal, era mandado embora pelo administrador florestal, que sobre aquele território tinha superintendência. Era um poder enorme. Lembro-me de coisas que hoje parecem absurdas: fazer o périplo dos pagamentos mensais, em que o meu pai ia à casa dos guardas e os guardas tinham jornaleiros, que eram as pessoas que faziam a manutenção dos caminhos, das sebes, a plantação. E depois recebiam à jorna, ao fim do mês ou de 15 em 15 dias. Eu ia com o meu pai, que levava uma pastinha de madeira com as notas lá dentro. Chegava a uma dessas casas, o guarda tocava o clarim, juntavam-se os jornaleiros todos, o meu pai abria a pasta e o guarda perguntava: "Fulano tal, trabalhou quantos dias?" E pagava ali! Tudo em dinheiro vivo. E nós andávamos pela serra de carro, naqueles carochas do Estado, com uma pasta cheia de dinheiro, a distribuí-lo pelos jornaleiros. Sem assaltos... Uma loucura!

É desses tempos que lhe vem o amor pela natureza?
A minha infância foi passada nesse parque florestal, onde também havia um rio: passava lá o início do rio Ave, onde se podia tomar banho e havia uma represa. E depois havia todos os serviços inerentes: a carpintaria, o ferreiro, a oficina, as garagens. Apareciam lá os barcos de caniçada para serem reparados, os caterpillars, os camiões. Tudo era objeto de brincadeira. Tínhamos cães, gatos, pássaros, pombos, galinhas, perus, porcos, cabritos... Eu tinha um cabrito muito engraçado, que andava sempre atrás de mim. O cabrito liga-se às pessoas e, se se relaciona com alguém, começa a andar atrás dela como se fosse a mãe. Um dia, o filho de uns amigos dos meus pais foi dormir lá a casa e a minha mãe achou por bem pô-lo a dormir na minha cama e a mim numa cama mais pequena. A meio da noite, toda a gente acorda com ele aos berros, porque como era costume toda a bicharada foi ter ao quarto para dormir comigo: o cão, o gato, o cabrito [risos]. Todos os bichinhos foram lá, todos já tinham o seu espaço. Havia um galo, inclusive. E foi assim que a minha mãe descobriu que os bichos dormiam todos comigo! Esse cabrito era muito engraçado, porque nós tínhamos um piano e ele adorava subir para o piano e andar em cima das teclas. Era tocador de piano, só não sabia falar francês [risos]. A minha infância foi passada na floresta; íamos aos ninhos, apanhávamos peixinhos no rio, íamos às castanhas, às ameixas... Sempre ao ar livre, de bicicleta ou a pé.

No começo da adolescência passa a viver em Braga, que na altura não seria uma cidade muito grande...
Não era uma grande metrópole, era uma cidade provinciana, mas eu também já tinha uma relação com Braga. Por um lado, desde o tempo da escola primária que passava as semanas aqui, em casa da minha avó, num bairro limítrofe da cidade, onde atrás de casa havia campos, com vacas e lama e rãs. Foi aí que aprendi a manobrar pedras, porque as lutas de rua eram à pedrada. Vivia numa rua limite: havia a rua de baixo, a rua de cima e a rua mais acima, do bairro operário, a quem nós, da classe média, chamávamos os gandulos. Quando havia conflitos, resolviam-se à pedrada, e eu tornei-me exímio. Quem me dera saber atirar pedradas como sabia na altura! Na altura, os putos, quando viviam na cidade, passavam os dias na rua, e eu já tinha essa vivência. Além disso, ia muito a Lisboa. Passava o Natal com os meus avós paternos e ficava sempre lá uma ou duas semanas. E o meu avô levava-me a conhecer todos os museus de Lisboa e explicava-me tudo: que barco era aquele no Museu da Marinha, que batalha tinha sido aquela no Museu Militar... contava-me as histórias todas, conhecia tudo. Mesmo no Planetário, explicava-me as constelações. E havia também as viagens no autocarro de dois andares, o 9. O meu avô vivia em Campo de Ourique, saíamos e íamos até Madredeus, ou dávamos passeios a pé, ou apanhávamos o 28, que saía dos Prazeres e dava a volta à Graça. Lisboa era uma cidade que eu conhecia e dominava bem. Podia ficar sozinho, com 10 anos, que sabia ir ter a casa. De maneira que, quando vim viver para Braga, tinha uma sensibilidade relacionada com o campo e com a serra, mas não era estranho à vida urbana. Integrei-me muito bem.

O seu avô já era reformado, nessa altura?
Na altura ainda não. Era professor de português. E poeta, também. Tinha livros de poesia e manuais de gramática portuguesa editados. Todas aquelas lições técnicas dos poemas clássicos, de métrica, da rima, aprendi tudo com ele.

Na faculdade, escolheu o curso de Direito. Foi o menor dos males?
Um bocado por aí! Eu era bom aluno na escola primária e no liceu, mas a minha facilidade era maior em letras, como é normal, face ao ambiente familiar. E gostava muito de Antropologia. Tinha andado a ler o Claude Lévi-Strauss e achava que a Antropologia tinha a ver com ir para sítios remotos, primitivos, e estudar civilizações não ocidentais. Um dos meus tios, casado com uma das irmãs da minha mãe, era antropólogo. Tirou o curso em França, que em Portugal não havia, e foi diretor do Museu de Angola. Quando, na Universidade Nova, abriu o primeiro curso de Antropologia, foi orientado pelo meu tio, que tinha chegado de África. Mas eu não estava interessado em dar aulas, que era o seguimento lógico para um licenciado em Antropologia. Filosofia também me interessava, mas em termos de saídas não ia muito além das aulas. Na área das Letras e História, era tudo canalizado para a via do ensino. A única coisa que me poderia interessar era Direito. Apesar de não haver tradição de Direito na minha família, meti-me nisso. E mal cheguei à faculdade arrependi-me logo!

Não se identificou com o ambiente conservador...
Não gostei nada. Muito pesado, muito conservador. Os estudantes universitários que eu conhecia eram os bracarenses que regressavam à terra nas férias ou nos fins de semana, que estavam nas universidades de Lisboa, Porto ou Coimbra. Eram pessoas de esquerda, cheias de ideias, que vinham a contar histórias. Era isso que eu esperava encontrar em Lisboa, quando fui para a faculdade. Mas o tempo era diferente, já estávamos na ressaca do pós-25 de Abril. As coisas já estavam mais encarreiradas e a Faculdade de Direito de Lisboa não era a que mais fervilhava de ideias. O passado dela era ligado aos maoistas, nomeadamente ao MRPP, portanto era tudo muito monocórdico, e quando deixou de ser maoista passou a ser PSD. Aliás, muitos dos maoistas da época passaram a ser do PSD. Era tudo demasiado cinzento, ou melhor, azul marinho, porque andavam todos de blazer azul. Quando cheguei à faculdade, apanhei um choque enorme. Os primeiros professores que apanhei não admitiam formas diferentes de expressão, nem que se questionasse a doutrina que reproduziam. Existe um conceito em Direito, que é o conceito de bom pai de família. Serve para medir o discernimento mediano. E eu pus em causa o conceito: o que é isso, um bom pai de família? Tive negativa num teste em que respondi a tudo direitinho, só porque brinquei com esse conceito, o que o professor achou [crime] de lesa-majestade. [risos] O conceito [equivale] ao chamado bom senso. Para uma pessoa que vinha dos anarquismos, que estava a pôr em causa a família nuclear, chocou-me muito. Tive um choque total com a faculdade e com a superestrutura ideológica do sistema. E demorei a perceber que ia aprender muita coisa no Direito: uma das mais importantes foi a justeza da linguagem. O Direito utiliza linguagem comum para dizer coisas muito específicas, e essa especialização foi muito importante para mim: para lhe dar a volta e para a utilizar. Isso aprendi no Direito: esse saber mexer na linguagem de forma muito precisa, com pinças. Foi dos maiores contributos que [dele] retirei, além do raciocínio: o raciocínio jurídico é muito pouco ético, muito pragmático e aristotélico. E foi muito importante para estruturar o meu próprio raciocínio. Porque eu vinha de um meio em que a maneira de pensar era anárquica, no mau sentido. Em que se valorizava a espontaneidade, e isso era importante em termos de linguagem poética, mas quando se tenta analisar filosófica ou politicamente o mundo e as pessoas, essa linguagem não serve. A linguagem do Direito é muito mais apta.

Adolfo Luxúria Canibal

Adolfo Luxúria Canibal

Rita Carmo

Desinteressado da faculdade, começou a explorar a cena musical de Lisboa...
Mas Lisboa na altura não tinha vida noturna, tinha dois ou três sítios, um deles era a [cervejaria] Trindade, e uma pessoa chegava lá e eram gajos a beber cerveja. Mesmo no meio mais literário, alguns poetas que encontrava eram gajos bêbedos atrás de gajas. Foi através de um colega meu, que era lisboeta [que conheci outras coisas]. Na altura tinha acontecido o punk lá fora e em Lisboa começava a haver alguma movimentação, muito ligada aos Olivais e à Avenida de Roma. Esse meu colega sabia quando havia concertos, que eram sobretudo em liceus, organizados por alunos. Lembro-me de ver os Xutos no Liceu D. Pedro V, ainda com o Zé Leonel [como vocalista], e havia os Corpo Diplomático, cujo primeiro concerto também vi, os Minas & Armadilhas, os Aqui d'El Rock. Foi um outro mundo que se me abriu. Eu ouvia jazz; o pop-rock tinha sido mais para trás, na adolescência, numa fase de dois ou três anos, mas parecia-me uma coisa comercial sem interesse. A descoberta do punk e dessa movida lisboeta coincidiu com a descoberta dos Stooges como banda rock, que não tinha a ver com o pop-rock que consumira antes. Tudo isso fez com que achasse que as minhas não aptidões e insensibilidades para a música pudessem ser canalizadas; [percebi] que tudo aquilo que eu queria, que passava pela literatura, podia ser explorado de outra forma.

Quais foram os momentos mais marcantes?
Os concertos que eu vi dos Xutos & Pontapés, e que foram os mais interessantes que vi deles até hoje, dos Minas & Armadilhas ou dos Corpo Diplomático, não eram propriamente concertos musicais. A desculpa era a música, mas eram atuações performativas, com mistura de muitas outras coisas: a atitude e a afirmação eram mais importantes do que a música que se tocava, até porque a maior parte deles não sabiam tocar. Os Xutos não sabiam tocar! Aliás, durante muitos anos foram apontados pela crítica musical, na altura concentrada no [semanário] "Se7e", como uma banda risível. Mas aqueles concertos tinham uma narrativa. Não era chegar lá e tocar meia dúzia de baladas que as pessoas conheciam e cantavam em coro. Havia um confronto; um início, meio e fim. Podiam ser mais curtos ou mais compridos, consoante a direção que a narrativa tomava. Ver o Zé Leonel a partir uma cassete à dentada porque um gajo estava a gravar o concerto no D. Pedro V... esse é o acontecimento central do concerto e toda a narrativa gira à volta desse ato. O antes do gravar, o durante, a destruição do gravador - um daqueles de rodas, de cassete -, a cassete a saltar, ele a pegar na cassete e a trincá-la. As fitas a esborracharem-se e o pós-destruição da cassete. De repente há um tumulto, enorme e barulhento, que começa e acaba ninguém sabe como, e o que fica é a destruição de uma cassete: isso é um concerto. E é extraordinário. Ou os concertos dos Corpo Diplomático, que eram uma batalha campal, tensa, de escarradelas entre o público e os músicos. Era nojento, era horrível, mas era qualquer coisa. E foi isso que me levou para a música [risos].

Além da música, sempre teve uma vertente muito performativa nas suas atuações...
Eu tinha lido muito Antonin Artaud [1896-1948] e a sua conferência final, já depois do internamento psiquiátrico. E, no Teatro da Crueldade [forma de teatro associada a Artaud], ele defendia que, mais do que o que se diz, [importa] a forma como se diz. A intensidade do momento é que cria o momento. E essa intensidade, essa entrega, fui buscá-la ao Artaud. Ele é a minha influência inicial profunda. O resto são adornos.

Em 1989, protagoniza o famoso episódio da facada na perna, durante um concerto no Rock Rendez Vous, em Lisboa. [Adolfo cortou-se repetidas vezes na perna com uma navalha, em palco] Ficou com cicatrizes?
Sete cicatrizes, foram sete cortes. Um deles é mais comprido. Hoje em dia elas estão lá, mas tão diluídas pelo tempo que já não as vejo. Durante muito tempo eram bem visíveis. Mas tenho as marcas [risos].

É pai de dois filhos e já tem dois netos. Como é que a família vê a sua música?
O primeiro concerto que a minha filha viu dos Mão Morta foi o do Theatro Circo, na apresentação da banda desenhada do "Mutantes S. 21", em 1993. Tinha ela 13 anos. Foi com o meu irmão e saiu quase no fim, a chorar, a dizer que não conhecia o pai, que aquele não era o pai dela. Foi um drama familiar terrível. Na altura eu vivia em Lisboa e tive de vir a Braga para lhe explicar que aquilo era só um concerto e que o que se passa em palco não é a vida real, que é a representação de outras coisas. Uma conversa a sério, com uma miúda de 13 anos, para desculpar o pai ser cantor, ou músico, ou vocalista. A partir daí passou a ser fã de Mão Morta: não perde um concerto e desde cedo começou a mostrar aos filhos a música do avô.

Nos anos 90 viveu alguns anos em Paris. Como foi essa época da sua vida?
Foram bons anos. Fui para Paris porque a Mariana [Otero], a minha mulher, era francesa e teve uma experiência traumatizante: o nascimento do Mateus [filho de Mariana e Adolfo]. Pela forma como foi tratada no Hospital São Francisco Xavier ficou traumatizadíssima e passou a detestar as instituições portuguesas. Recusaram-lhe a epidural, trataram-na mal, havia uma enfermeira que era uma besta. então ficou com vontade de regressar. Entretanto, também fez o documentário sobre a SIC ["Esta Televisão é Sua", de 1997], que causou uma polémica enorme, e tudo o que tentava fazer [depois disso] levava para trás. Decidiu voltar a França e eu fui com ela, como é evidente. O Mateus era muito pequenino e eu pedi a licença paternal, que tinha acabado de sair na lei e estava desenhada para faltas de dois ou três dias. Mas podiam ser acumuladas até um determinado tempo e eu juntei todas as possibilidades e meti uma licença que dava um ano e tal. Em Paris ia fazendo umas coisas. Na altura ainda estava o [Lionel] Jospin como primeiro-ministro e havia muito dinheiro ligado à cultura. Eu facilmente arranjei trabalhinhos: trabalhei na abertura de uma loja da Valentim de Carvalho em Paris, fiz umas correspondências para o "Blitz", iam-me pingando uns trocos. Mas a minha vida em Paris era ser pai. Foi maravilhoso. Tinha muito tempo: escrevi umas coisas, consegui organizar os papéis e fazia uma vida calma, a conviver com o marroquino do café da esquina, a entrar no espírito comunitário do bairro e a acompanhar o meu filho, a participar nas suas atividades. Ocupava-me da biblioteca da escola dele, lia para os outros miúdos em francês... transformei-me num belo francês de bairro! Vinha muito a Portugal, fazer concertos e gravar discos. Com a saída do Jospin, houve um corte orçamental terrível e todos aqueles biscates que eu fazia desapareceram. Começou a faltar dinheiro, os concertos em Portugal também não davam o suficiente para ter uma vida decente em Paris, e quando começa a faltar dinheiro as coisas começam a correr mal. Cheguei a um ponto em que me separei e vim-me embora. Esperei que o Mateus tivesse 6 anos, para não ser traumático, e regressei a Portugal. Nos seis ou sete anos seguintes, ia a Paris duas vezes por mês. Continuei a acompanhar [o Mateus], já não com a mesma intensidade, mas de forma muito próxima. Foram anos em que mudei completamente a minha forma de viver. Deixei de sair à noite, deixei de beber: era caríssimo beber em Paris! Ia para os cafés e bebia café; passei a beber café cheio, para durar mais tempo.

Ainda acha que a maior droga é o álcool?
Nos países ocidentais, sobretudo nos latinos, [acarreta] um grande problema: é a droga social por excelência. É muito difícil, e eu sei porque passei longos períodos sem beber e continuo a sair à noite sem beber. É difícil encontrar bares que sirvam uma coisa tão simples como cerveja sem álcool, e não passa pela cabeça de ninguém passar a noite a beber sumo de laranja, que eu já tentei e dá-te cabo do estômago. Estar a beber água é um horror, pagas a água ao preço da cerveja. Depois chegas a uma determinada hora e as pessoas começam a ficar bêbedas, e tu não, e começas a ouvir o mesmo discurso em loop. De maneira que deixei de sair, mudei os hábitos, mudei tudo. Duas das drogas mais difíceis de deixar, nos países latinos, são o álcool e o tabaco. Com a heroína tens problemas físicos, quando queres largar - a carência, o vício... Mas dura dois dias, depois é uma questão de mudar de circuito. Se quiseres deixar, é muito fácil. E quem diz a heroína diz qualquer outra droga; a heroína é a pior, a mais viciante. Com o álcool ou o tabaco não consegues fazer isso. Ou ficas recluso e vais para um convento, ou tens de te habituar a conviver com isso. Quando deixei de fumar, foi porque tive uma médica extraordinária, no Hospital Público de Braga, que me disse: "Você tem de deixar de fumar. Isto [um acidente isquémico transitório] não foi nada, mas tem de deixar", e eu acreditei nela. Saí do hospital e fumei o último cigarro. Uma das coisas mais terríveis de um fumador é não ter tabaco: começa a entrar em paranoia. Em Paris, chegava a percorrer a cidade de uma ponta à outra porque chegava às sete da noite e só havia um sítio que vendia tabaco, sem ser em bar. Eu tirava o carro da garagem e corria a cidade só para comprar tabaco. Desta vez, quando deixei definitivamente, pensei: "Não. Se é para deixar, é para deixar, não vou ter angústias." Fumei o último cigarro ao sair do hospital e deitei o maço fora. Hoje, toda a gente pode fumar à minha beira, não tenho problema nenhum. Depois de momentos [complicados nos quais geralmente pegaria no cigarro e não pegou], percebi que nunca mais fumaria. Não sei como um dia pude fumar, não me faz falta nenhuma. Deixar foi das melhores coisas que fiz. Eu fumava no mínimo um maço por dia, mas cheguei a fumar três. E estou com os pulmões fixes, sobretudo para quem fumou o que eu fumei.

Como se sente ao chegar aos 60 anos?
Quando fiz 40, para mim foi uma idade importante, porque achei que tinha chegado a metade da minha vida. Foi quando mudei completamente: deixei Portugal, deixei o meu trabalho e fui para França. E pensei que ia passar o resto da vida lá. As coisas acabaram por acontecer de forma diferente, mas achei que era uma data importante, de tomada de decisões, de mudança, e foi. Quando fiz 50, pensei: "Meio século, data importantíssima, vou fazer uma grande festa." Depois pensei: "Vou gastar um dinheirão do carago, estou-me a cagar. Vou mas é fazer uma viagem." Fui eu e a Marta [a sua mulher], divertimo-nos imenso e foi assim que passei os meus 50 anos, a viajar, que é das coisas que mais gosto de fazer. Uma das coisas ligadas à viagem é comer e, na altura, ainda podia comer o que quisesse, de maneira que foi mesmo muito divertido. Nos 60 anos não faço ideia [a entrevista foi realizada antes do aniversário]. Acho que com 60 começamos a ser realmente velhos. Mas não quer dizer que me sinta, propriamente.

Entrevista originalmente publicada no Expresso a 16 de fevereiro de 2020