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Idles: “Estávamos em conflito quanto à direção da banda e com o nosso país. A Grã-Bretanha está morta”

Ao terceiro álbum, os Idles reforçam a mensagem e maximizam o impacto. O resultado não poupa ninguém — nem os próprios, alerta o vocalista Joe Talbot em entrevista ao Expresso

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Algures num tempo longínquo em que os concertos rock eram sinónimo de proximidade física e troca mais ou menos voluntária de fluidos corporais, os Idles tornaram-se grandes. A “explosão”, garante Joe Talbot, ao telefone do País de Gales, de onde é natural, nunca foi repentina, mas tornou-se mais acelerada após o lançamento de “Joy As An Act of Resistance”, o segundo álbum do quinteto inglês, lançado em 2018. “Não diria que alguma vez tenhamos estado à rasca”, considera um dos mais aguerridos frontmen da sua geração. “Sabíamos qual era a nossa posição e o que andávamos a fazer. No mundo de hoje os miúdos não andam propriamente a ouvir bandas de guitarras, pois não?”, provoca. “Ouvem hip-hop, EDM — credo, odeio EDM [electronic dance music]. Adoro techno, jungle, house, só não percebo a EDM”, desabafa, bem disposto. “Mas estávamos cientes do nosso contexto e sabíamos que tínhamos de manter a cabeça baixa e trabalhar. Isto não mudou de um momento para o outro: a nossa evolução deu-se ao longo do tempo. Sempre tivemos um plano, seguimo-lo e funcionou. Nunca houve uma explosão súbita dos Idles. Crescemos devagarinho e é por isso que estamos tão gratos.”

“Gratidão” é palavra recorrente no discurso de Joe Talbot, a voz de uma banda formada em Bristol, Inglaterra, há mais de dez anos, e que nos últimos tempos se tem assumido como defensora de causas como a luta contra o racismo, a homofobia ou o sexismo. Desde “Joy As An Act of Resistance”, sobretudo, este ativismo tornou-se praticamente indissociável da música dos Idles — e a intenção daqui em diante é carregar ainda mais nessa tecla. Em “Ultra Mono”, o terceiro longa-duração, há referências ao movimento Black Lives Matter (“I raise my pink fist and say black is beautiful”, ouvimos em ‘Grounds’), à questão do consentimento sexual (em ‘Ne Touch Pas Moi’, dueto com Jehnny Beth, das Savages) e também — por muito que Joe Talbot garanta não lhes dar ouvidos — mensagens para os haters (“fuck you I’m a lover”, repete em ‘The Lover’). Se a mensagem permanece a mesma, o embrulho é ligeiramente diferente — ou pelo menos foi essa a vontade dos Idles, que começaram a trabalhar neste disco a dois tempos, conta-nos Joe Talbot. “Eu e o [guitarrista] Mark Bowen tínhamos acabado de ser pais, por isso só começámos a trabalhar no álbum mais tarde. Os outros rapazes, o Jon [Beavis], o Lee [Kiernan] e o Dev [Adam Devonshire], já tinham começado meses antes”, partilha. Apesar de pacífico, o processo teve os seus entraves. “Eu precisava de ter um conceito”, explica. “Então inventei um título e eu e o Mark falámos sobre como iríamos desenvolver esta ideia de autoaceitação no momento presente. Como poderíamos transformar isso num som. Decidimos como escrever as canções e mostrámos aos rapazes.” Aqui começaram as dificuldades. “Eles não contestaram nada. Aceitaram o conceito e ficaram entusiasmados. Mas transformar isso em música é bastante difícil.”

Este é um artigo do semanário Expresso. Carregue AQUI para continuar a ler.