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Uma parceria com o jornal EXPRESSO

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101 canções que marcaram Portugal #39: 'Maria Lisboa', por Amália Rodrigues (1962)

A ligação de Alain Oulman a Amália começou com o álbum “Busto”. Desse encontro nasceu uma nova Amália. Dessa dimensão diferente nasceu um novo fado. É, por muitas causas, um disco revolucionário. Um salto em frente. Um disco que glorifica o fado, grandes poetas e a maior voz de que Portugal se orgulha.

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

Em 1989, José Fonseca e Costa preparou minuciosamente o cenário para não perturbar o episódio incomum que iria filmar horas mais tarde. Disfarçou o mais que pôde cabos, câmaras e luzes – para não perturbar o processo de composição e sincronia entre Alain Oulman e Amália – renitentes no registo da sua simbiose. O momento exigia cuidado recolhimento. Alain Oulman entrou no estúdio dois minutos antes de Amália e trazia um poema da brasileira Cecília Meireles, ‘Soledad’, para uma composição sua. Ensaiou alguns acordes no piano e sussurrou a melodia com voz de crooner dos anos 40. Quando cantava, estava todavia a visualizar a canção na voz da fadista. Amália, desconhecendo o enredo da canção e da inspiração de Oulman, acostumara-se por quase trinta anos a visualizar musicalmente o que este lhe confiava e, apesar da timidez entre os dois, Fonseca e Costa conseguiu registar um momento único, de grande autenticidade e encanto. Teve a convicção de ter filmado os mais belos planos da sua vida. Ali, nos estúdios Valentim de Carvalho, despedia-se a dupla que mais tinha dado ao fado e, mais do que ter dado ou recebido, o transformou.

Alain Oulman tinha partido de Portugal há vinte anos, vítima da perseguição da PIDE, mas continuava a enviar canções para Amália em cassetes – e algumas delas foram gravadas ao longo dos anos 70 (o último álbum conjunto exclusivamente com composições de Oulman foi gravado em 1977, “Cantigas numa língua antiga”). Os momentos passados juntos tinham sido, enfim, determinantes para o fado, para Amália e para Portugal. E marcantes para o luso-francês – que via em Amália aquela que mais bem sabia cantar os grandes poetas em língua portuguesa. Descobrira a grande literatura portuguesa do século XVI, cantigas cândidas e melódicas. E descobrira também os grandes poetas do modernismo em Portugal. E descobrira que essa poesia merecia acordes. E que os grandes poemas escritos em português e musicados mereciam Amália.

Amália aguardava por Oulman. Oulman por Amália. Tinham ambos uma extrema sensibilidade poética mas o seu encontro no fado, apesar de aparentar hoje ser límpido, exigiu coragem e afinco para se quebrar com a estrutura do fado tradicional – que não permitia recorrer a poemas incomuns. A acordes incomuns. As linhas melódicas de Oulman eram mais amplas do que no fado tradicional – daí terem causado estranheza e serem desaceitadas por quem se acostumara a acordes e rimas tipificados. Desse encontro nasceu uma nova Amália. Dessa dimensão diferente nasceu um novo fado.

Alain Oulman dispunha afinco nas suas composições – só, obsessivamente, por dias e noites seguidos. Não tinha feição para trabalhar na firma do seu pai, ler e compor amalgadamente. Compartimentava os seus períodos em compulsão demarcada. A música era para si dissociável da poesia. Mas a poesia que musicou para Amália era um desvio à sua norma e à sua atmosfera intelectiva. Porque estava destinado que um novo fado fosse criado por Oulman, Amália e os grandes poetas. O álbum “Busto” é, por muitas causas, um disco revolucionário. Um salto em frente. Uma ruptura. Foi visto de soslaio pelos guitarristas e público de então – costumeiros de um sentido mais simples de interpretar o fado. Causou reserva. Não foi por isso um sucesso imediatista – pela reserva que causou e pela velada provocação.

O álbum “Busto” incluía um poema de David Mourão-Ferreira, ‘Maria Lisboa’ – em que a voz de Amália alcança uma extensão, magnitude e expressividade invulgar, ainda que já tivesse provado que conseguia conduzir (e arrebatar) não só o fado como o flamenco, a rancheira ou o bolero (ou qualquer outro género a que se tivesse entregado). Deram-lhe (o compositor, o poeta e Amália) a real intenção e dimensão que as palavras tinham – porque todos se agregaram para criar um fado novo, uma linguagem nova. As canções do disco, tendo fraturado a canção tradicional, conseguiram ademais atrair e conquistar a classe intelectual – esquiva, até aí, do nacional cançonetismo. Alain Oulman reclamou sempre o mérito das interpretações de Amália em tornar as suas composições sublimes. Amália concedeu às palavras de Homem de Melo, Mourão-Ferreira, Ary dos Santos, José Régio, O’Neill ou Camões a intenção que as palavras detinham e pediam - porque se identificava com elas, porque enfim as vivia sem as ter vivido.

Alain Oulman tinha uma aparência frágil. Vulnerável. Era todavia um homem de grande coragem. Enfrentou a censura, o desdém e a rejeição. Fracionou-se pelas duas artes que venerava e conseguiu uni-las pela voz de Amália e dos nossos maiores poetas. Soube ver um Portugal garboso do melhor de si. Soube dar ao fado aristocracia e extremo bom gosto, trazendo o melhor que há em nós. No fim da vida, dedicou-se em Paris a festejar a literatura na sua editora e continuou a cortejar Amália nos poemas elegantes que lia. O fado e Portugal devem a Oulman e a Amália, naqueles anos e naquela linguagem, a dimensão mais apolínea da sua génese.

Em vez de corvos no xaile
Gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile
baila no baile com o mar

Ouvir também: ‘Barco negro’ (1962), de David Mourão-Ferreira, o poeta que mais cantou. Um fado muito difícil de interpretar, mesmo para Amália. Sempre que gritava São loucas, são loucas, Amália arrepiava-se – pela expressão trágica dos versos e extensão das suas próprias angústias.

  • 101 canções que marcaram Portugal #38: 'Chamem a Polícia', por Trabalhadores do Comércio (1981)

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    Herdeiros do rock cantado em inglês dos anos 70 – com os Psico e os Arte e Ofício – quiseram satirizar a moda tornada popular por Rui Veloso, os UHF ou os Táxi e acabaram por se tornar parte desse movimento fulgurante e fugaz. O ‘chamem a polícia’, apesar de zombeteira, é uma canção de uma aprumada seriedade musical. Uma história que cruza António Garcês, um integrante da banda com 7 anos e a vitória num festival da canção

  • 101 canções que marcaram Portugal #37: 'Fado Falado', por João Villaret (1947)

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    O Fado falado é uma canção dita e não cantada. Dependeu só de si para se tornar imortal. Um fado que falava de um meio que não frequentava, mas que permitiu a João Villaret tornar-se mainstream e, após esse escopo, passar a dedicar-se com mais dedicação à arte que o fez maior: a poesia. Esta é a 37ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #36: 'Liberdade', por Sérgio Godinho (1974)

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    Sérgio Godinho é o mais consistente compositor da música feita em Portugal dos últimos 50 anos. Em véspera do 75º aniversário, relembramos uma canção que deu finalmente nomes concretos à liberdade. Os seus conceitos (paz, pão, habitação, saúde e educação) poderiam ser inscritos num mural tingido a grafite. Esta é a 36ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #35: 'Oração', por António Calvário (1964)

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    Foi o primeiro vencedor do Festival RTP da Canção e perdura como um paradigma de um artista do seu tempo na canção ligeira. Todavia, a vida de António Calvário não se esgotou nas canções. Foi vedeta no teatro e no cinema. Viveu intensamente. Teve coragem de arriscar. Teve sucessos e fracassos. A liberdade prostrou-lhe a carreira gloriosa, mas continua hoje a ter público fiel, como uma memória viva do seu tempo. Esta é a 35ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #34: 'Canto aos Peixes', pelos Ex-Votos

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    Zé Leonel foi bem mais que o primeiro vocalista dos Xutos e Pontapés. Foi alguém que subverteu as normas e viveu na periferia das convenções, um grande músico e letrista, mas sobretudo um roqueiro genuíno. Esta é a 34ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #33: 'Playback', por Carlos Paião

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    Desde que a sua história se cruzou com a de Amália, Carlos Paião – grande compositor, melodista exímio – tornou-se também um artista respeitado não apenas como artesão para letras pitorescas. Foi no ano seguinte a este 'Playback', a 33ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa