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Os Deftones estão quase de volta. Há 10 anos Chino Moreno recusava o rótulo nu-metal: "Era um queixume pegado"

Falta menos de uma semana para os Deftones regressarem aos álbuns com "Ohms". Em 2010, em entrevista à BLITZ, o líder Chino Moreno falava sobre tragédias, rumores e o facto de ser o vocalista "mais misterioso da sua geração"

Originamente publicado na BLITZ de dezembro de 2010

Dezembro de 2010. Encontramos Chino Moreno, o próprio, um dos ídolos incontornáveis de uma geração que começou a ouvir música na segunda metade da década de 90, descontraidamente sentado ao lado de um grande espelho no sossego que um camarim do Campo Pequeno permite. O vocalista, letrista, face e forças motriz dos Deftones soou lúcido, interessado e enigmático. Viva o mito.

Perderam um baixista num acidente [Chi Cheng está hospitalizado, em estado semiconsciente, desde 2008]. Depois colocaram um álbum na gaveta e recomeçaram do zero. Como é que se sai disto por cima?
Basta deixar que as coisas fluam da forma mais natural possível foi o que nós fizemos. A partir do momento em que começámos a tocar com o Sergio [Vega, baixista], as coisas começaram logo surtir efeito e não voltámos a olhar para trás. No primeiro ensaio, escrevemos logo música nova, que era algo que não acontecia nos Deftones há muito tempo. O Sergio ajudou-nos a reencontrar a nossa criatividade e o processo acabou por servir como terapia, porque empregamos todos os nossos pensamentos e emoções, toda a frustração, na música que estávamos a fazer. Se tivéssemos decidido acabar com a banda, agora provavelmente estávamos todos em casa a pensar se não poderíamos ter feito as coisas de outra forma.

Como é olhar para o lado e ver o Sergio e não o Chi?
É uma daquelas situações que nos leva a sentimentos contraditórios. Não há dia que passe em que não pense no Chi ou não sinta a falta dele, mas quando penso nele não estou a pensar no Sergio. Temos esperança que regresse um dia e, mesmo que não volte a tocar baixo, já me dava por muito contente se pudesse ter uma conversa com ele.

"Diamond Eyes" é um regresso muito inspirado...
Ainda bem que o diz. Em termos de composição já não trabalhávamos assim há muito tempo, desde o "White Pony". Foi a primeira vez que tivemos realmente tempo para experimentar tudo e, apesar de ser um ótimo disco, foi escrito por camadas. Usámos o estúdio como mais um instrumento. Deixámos de ser uma banda de cinco tipos fechados numa sala e depois num estúdio, a tentar captar apenas aquela energia de estarmos a tocar juntos.

As más línguas dizem que andou à «cacetada» com o guitarrista Stephen Carpenter. É verdade?
Isso nunca constituiu problema. Pior era não sabermos como trabalhar. Passámos demasiado tempo a conversar, a jogar às cartas, dominó, a fumar, a beber... em estúdio. Faltava disciplina, mas crescemos.

As suas letras nunca se aproximam do chão. Continuam abstratas...
Isso foi por causa do nu-metal e de nos associarem a ele. O nu-metal era um queixume pegado. «Coitado de mim, a vida é uma porcaria, a minha infância foi terrível, isto e aquilo». Nunca estive interessado em escrever letras assim, por isso virei-me mais para a fantasia e para temas um pouco mais abstratos, com os quais não tinha qualquer relação pessoal a não ser a inspiração que ia buscar aos filmes e a outras formas de arte. Se fosse concreto, o mistério desaparecia e toda a gente saberia de antemão de que é que estávamos a falar. Ouço a música e começo a criar melodias, padrões vocais... As palavras começam a aparecer e o texto toma forma. Normalmente, só quando olho para o papel é que tiro o verdadeiro sentido do que escrevi. A verdade é que quando crio uma melodia mesmo muito boa na guitarra, preferia não ter de a arruinar com palavras (risos). Então por que não para de escrever? Bem... quando acabamos um tema, fico satisfeito com o resultado final. Mas é um tormento para começar.

Ainda é o «vocalista mais misterioso da sua geração»?
Não sei... Acho que a música requer sempre a sua dose de mistério e, às vezes, isso torna-se muito mais importante do que as pessoas que a fazem. Para começar, não creio sequer que seja uma pessoa com uma mensagem a passar... Não tenho grandes opiniões, não sou uma pessoa política. Limito-me a gostar muito de música, de filmes, de arte e, especialmente, de coisas abstratas.

{ Ai Portugal, Portugal } «É engraçado porque, por esta altura, já estivemos mais vezes em Portugal do que em qualquer outro lado», diz Chino Moreno entre risos. Genuíno e terra a terra, o músico exala um fator cool muito acima da média com o seu gorro enfiado na cabeça e um pullover fininho por cima de uma t-shirt, ambos em tons escuros, perna cruzada e a barba geometricamente aparada. «A reação dos portugueses aos Deftones sempre foi excelente, por isso sentimo-nos em casa».