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101 canções que marcaram Portugal #38: 'Chamem a Polícia', por Trabalhadores do Comércio (1981)

Herdeiros do rock cantado em inglês dos anos 70 – com os Psico e os Arte e Ofício – quiseram satirizar a moda tornada popular por Rui Veloso, os UHF ou os Táxi e acabaram por se tornar parte desse movimento fulgurante e fugaz. O ‘chamem a polícia’, apesar de zombeteira, é uma canção de uma aprumada seriedade musical. Uma história que cruza António Garcês, um integrante da banda com 7 anos e a vitória num festival da canção

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Chamem a Polícia', dos Trabalhadores do Comércio (1981)

Em 1986, os Trabalhadores do Comércio participaram num festival da canção peculiar. Fátima Padinha despojava-se das Doce e da imagem lúbrica que arrebatara Portugal na primeira metade da década. Rui Veloso planeava levar uma canção que seria, ao invés, cantada por Né Ladeiras (‘Jura’, na época com um título mais extenso) – por uma agrura de saúde inesperada. E foi um festival peculiar porque a génese dos Trabalhadores não era o Festival RTP; mesmo o tom lunático da letra e da coreografia de ‘Os Tigres de Bengala’ fugiam à formalidade do certame. Facto é que nesse atípico festival os Trabalhadores ficaram em primeiro lugar. Imponderável. Em primeiro lugar ex-aequo com a enérgica e graciosa Dora – desempatados pelo júri, que deu a vitória à estreante cantora.

A história de Sérgio Castro, vocalista dos Trabalhadores do Comércio, cruzara-se anos antes com a de António Garcês, considerado o maior vocalista em Portugal dos anos 70. Encarnava a essência do rock&roll: provocador, agressivo, contundente. Pisara dois Vilar de Mouros (no primeiro, em 1971, como vocalista dos Pentágono, não valorou partilhar palco com Elton John – afinal, excluindo o alcance e êxito mundial, eram parceiros de ofício). No de 1982, já com os Roxigénio, pouco conseguiu cantar. Como havia dificuldade em conseguir tabaco, Garcês comprou uns maços e atirou-os para a plateia, que invadiu o palco, obrigando Garcês a zarpar – tendo tocado apenas música e meia. A maior façanha de Garcês deu-se em Coimbra. Em pleno boom do rock português, o público não gostou de o ouvir cantar em inglês e gritou-lhe ofensas e provocações. António Garcês, acostumado a reagir a contradições, resolveu despir as calças e mostrar ostensivamente os seus genitais – tendo o episódio sido registado e disseminado na imprensa. Confirmava-se aí a alegoria do que simbolizava no rock feito em Portugal. Mas a história de Sérgio Castro, dizia-se, cruzara-se com a de Garcês nos Psico e nos Arte e Ofício, consideradas grandes bandas rock dos anos 70 – que despontaram numa época de canções adocicadas e de intervenção, com pouco espaço para o inglês ser mainstream.

A pressão editorial para uma nova vaga de rock cantado em português levou Sérgio Castro a fundar os Trabalhadores do Comércio. Atreito a provocar, queria satirizar a moda tornada popular por Rui Veloso, os UHF ou os Táxi. Queria, como sempre fora o seu paradigma, fazer diferente. E fez um rock à moda do Porto, a sua cidade, com pronúncia tripeira, divertido e vibrante. Desconstruindo debochadamente a língua portuguesa. O ‘Chamem a polícia’ é uma canção zombeteira – não se esgotando todavia nessa limitação. É uma canção muito bem feita – porque se as letras dos Trabalhadores troçavam do que se lembrassem, a sua música era de uma aprumada seriedade. A integração do sobrinho de Sérgio Castro na banda, de apenas 7 anos, confirmava outrossim a bitola de provocação. O puto João Médicis assistira a muitos ensaios das bandas que o tio integrou e os Trabalhadores do Comércio não chegaram cedo de mais na sua vida. Foram-lhe sim passaporte para experimentar episódios exclusivos. Calcorreou o país como um crescido, como um integrante da banda – e não como apenas adereço. Mas foi o tónico para os Trabalhadores chamarem a atenção mais acutilante do público – pela estranheza, pelo inusitado, pelo sentido de humor, pela ironia. João Médicis era o elemento que faltava ao ‘algoritmo’ do sucesso dos Trabalhadores do Comércio. A provocação não se findou e a banda foi censurada na Rádio Renascença porque não era apropriado uma criança assumir que estava farto de ir à missa e rezar o pai-nosso no ‘Táquetinho ou lebas no fucinho’. O objetivo estava cumprido: o do sucesso e o de fazer música de qualidade – ainda que escarnecendo os bons costumes e o status quo.

2006 foi um ano de dupla comemoração. Júlio Isidro assinalou os 25 anos do seu ‘Febre de Sábado de manhã’ com uma gala nostálgica e vigorosa e João Médicis recuou até 1981 – quando se lembra de ter ficado em pânico antes de subir ao palco do cinema Nimas – de onde a ‘Febre’ era transmitida – e que era o seu tirocínio enquanto músico de uma era fugaz e intensa.

O rock português teria dois anos de fulgor e retomá-lo-ia anos mais tarde em fogachos já não tão expressivos. Os Trabalhadores do Comércio foram decisivos para essa vaga de um novo rock. Será porventura por isso que, ao invés de termos saudades, a eles voltamos como se a sua música não tivesse data.

Bebi o brande todo dum trago,
Berrei pró homem num pago, num pago;
O gaijo bronco chamou o gerente,
Saltei pa trás, saquei, saiu o pente...

Ouvir também: ‘Táquetinho ou lebas no fucinho’ (1982). Do álbum Nabraza, com um sucesso menos vigoroso do que o primeiro álbum; ainda assim, com um naipe de boas canções – reinventadas no seu comeback em 2005.