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Sérgio Godinho

António Pedro Ferreira

Sérgio Godinho aos 75 anos. “Olho para mim e acho que tenho 300 anos à frente. Só tenho 200”

Acontece esta terça-feira, no teatro Maria Matos, em Lisboa, o terceiro de quatro concertos especiais de Sérgio Godinho. Em tempos que lhe inspiraram uma canção, 'O Novo Normal', Sérgio Godinho falou à BLITZ da saudade dos palcos, dos livros que tem escrito e dos amigos que já partiram

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Encontramos Sérgio Godinho numa tarde de verão, na sua casa no centro de Lisboa. Ao longo de quase uma hora, um dos mais venerados autores de canções de Portugal abriu o livro sobre os 50 anos de carreira que se encontra prestes a completar, os vários projetos que tem na manga e os tempos de pandemia e confinamento. "Penso na minha mãe, que era muito atenta às notícias e ia ficar atónita com o que está a acontecer".

Como têm sido para si estes últimos cinco meses, marcados pela pandemia e pelo confinamento?
Que balanço! Foram tempos primeiro curiosos, porque estive na Argentina - em Buenos Aires e na Patagónia - e ao regressar, ainda no aeroporto, soube que tinha havido o primeiro caso em Portugal. No dia seguinte houve o primeiro caso na Argentina. Uma semana depois, eles fecharam as fronteiras. Podia ter ficado lá. A partir de 16 de março, começou o confinamento aqui. Eu não estava em Lisboa, estava numa casa com um jardim, o que é uma vantagem. Acho que os primeiros tempos, em que aquilo se aproximou de nós, em que aquela onda nos submergiu, são de uma perplexidade que nos faz saber mais notícias e estar obcecados por aquela que ainda nem seria a nova normalidade. Além de ter acabado uma obra de poesia com imagens minhas, que estava para sair este ano e por razões óbvias não saiu, devendo sair no princípio do próximo ano, também fui avançando num terceiro romance. E isso ajudou-me muito, porque há uma continuidade de trabalho na ficção narrativa que ajuda a manter uma certa rotina, criativa e estimulante. Às vezes avança-se um bocadinho, às vezes não se avança nada, mas vai-se avançando. Nesse aspeto, o trabalho salva. (risos)

E escreveu também uma canção, de título 'O Novo Normal'...
Há uns anos o Caetano [Veloso] disse: "Visto de perto, ninguém é normal". Eu lembrei-me disso nestes tempos tão estranhos. Com a insistência dessa terminologia, apeteceu-me voltar à música e comecei a fazer uma canção que, na altura, tinha só letra e música minha. A letra continua a ser toda minha, a música é repartida entre mim, o Nuno Rafael e o Samuel Úria. Esta canção é um pequeno fresco desta nova situação. E foi isto que foi acontecendo nestes meses, aparte alguns encontros e até entrevistas por Zoom, que é um meio de comunicação – esse ou outro com outro nome – que veio para durar, sobretudo quando se está à distância física e não é possível a proximidade. O que aconteceu também é que eu tinha um mês de abril recheado de concertos, porque três deles eram à volta do 25 de Abril - no dia 24 iria e irei, para o ano, à Avenida dos Aliados, cantar à minha terra [Porto]! Foi tudo ou cancelado ou adiado e esta situação afeta-me a mim mas também aos meus músicos, nos quais eu penso muito. Porque é um grupo muito coeso, os Assessores, que me acompanham desde o princípio deste século. É evidente que foi um rombo muito grande, mas acontece-nos a nós como acontece a todos os trabalhadores precários. No fim de contas somos todos trabalhadores precários, porque se não houver concertos, não há trabalho. É verdade que eu tenho direitos de autor, mas não estamos num país rico.

Sentiu a necessidade de imortalizar este momento tão estranho numa canção?
É curioso, porque poucas vezes fiz canções sobre o momento, no momento. Não sou repórter. Mas este era um acontecimento tão overwhelming, tão invasor, que senti que tinha de o pôr em palavras. E pôr em palavras não era bem falar de máscaras, embora a letra tenha uma parte que é muito factual: "mantenha as distâncias, respeite os espaços, controle essas ânsias de beijos e abraços, respeite os espaços"- dadas as circunstâncias", porque são as circunstâncias desta peste que determinam tudo isto. Esta peste que nos invadiu e não se sabe onde está, aliás eu começo por dizer isso: "invisíveis poeiras". E no meio da canção há um momento em que te perguntas: e se eu acordasse e não tivesse acontecido nada? Será que isto não passou de um "pesadelo fugaz"? A história do "medo largado ao ouvido em segredo". Sabemos que está a acontecer, mas está a acontecer mesmo? Parece tão irreal. Quando começou na China achámos que era uma coisa muito longínqua, nem conhecíamos o nome da cidade, e de repente foi-se aproximando. Como dizia a Maria Manuel Mota [diretora do Instituto de Medicina Molecular], a gripe espanhola foi mais agressiva, só que viajava-se menos. Hoje em dia as viagens são, ou eram, omnipresentes.

"Não vai ficar tudo bem! Esperemos que um dia, havendo um vacina, isto volte a uma certa normalidade real, mas há algo que mudou para sempre"

Embora tenha uma cadência alegre, a canção tem uma letra algo sombria. "No novo normal nunca nada vai ser nunca igual". Acredita que não há volta a dar aos comportamentos e receios que entretanto adquirimos?
Desde o início que achei um bocadinho pateta o slogan "vai ficar tudo bem". Não vai ficar tudo bem! Esperemos que um dia, havendo um vacina, isto volte a uma certa normalidade real, mas há algo que mudou para sempre. Temos dificuldade em projetar o futuro, porque está sempre a acontecer algo de insólito e anómalo. Mas as pessoas têm muita tendência a esquecer. Sabemos lá como vai ser o futuro destes próximos anos. Para já, há uma coisa que tem de adquirir uma certa normalidade, que são os concertos ao vivo. Estamos muito condicionados por não se poderem vender todos os bilhetes numa sala, tal como no cinema ou no teatro. Só se pode vender mais ou menos metade dos lugares. Mas a atividade ao vivo, sempre disse, é aquilo que eu prefiro. É nesse risco, nesse pertencer, nesse fazer sentir que o palco é nossa casa. É nesse pisar dos palcos que conheço há muitos anos e conheci antes, quando estive no musical "Hair", em Paris durante dois anos - todas as noites pisávamos um palco, a representar e a cantar, e isso tornou-se a minha casa, os camarins. Mesmo que seja efémero.

Acontece-me uma coisa engraçada: já andei muito por Portugal, e não só, e há teatros onde volto mais do que uma vez. E muitas vezes há muito tempo que não ia lá e há ali uma espécie de um reconhecimento; ficou ali um print qualquer da tua passagem, nem que seja para ti próprio. Conheces aqueles camarins, os dois andares que tens de subir para ir até ao palco, tudo é terreno familiar. Quando no fim as pessoas se levantam, batem palmas e pedem bis, quanto disso é efémero? Quando uma hora depois deixo o teatro e olho para o palco e para a plateia, vazia, e digo: "isto já passou". As pessoas foram com energia para casa, nós também temos a nossa energia, foi bom e foi emocionante para nós também. E depois acabou-se. E é preciso saber lidar com essa efemeridade. Não achar que aquele odor ainda lá está.

"Os discos são um objeto em vias de desaparecimento, acho que foi um bocadinho rápido. Troquei de carro há dois anos e já não tem entrada para CD"

Nada é para sempre...
Nada é para sempre, mas há lembranças que ficam por muito tempo. Mas o charme do espetáculo ao vivo, da performance, seja no teatro ou na música, é esse grau de risco, de se entrar e sentir que, a menos que aconteça alguma coisa de muito mau, temos de levar aquele barco até bom porto. Isso empenha a tua energia, o teu corpo. Podes um dia não cantar tão bem, podem as condições não ser tão favoráveis - isso acontece em espetáculos de exterior, em que as condições atmosféricas [são adversas] ou o grau de atenção do público pode não ser tão grande - mas era esse risco que nos estava a fazer falta. Eu faço 75 anos a 31 de agosto e queria fazer uma festarola. Porém, não há condições para isso: infetar-nos todos uns aos outros, ou uma pessoa infetar toda a comunidade, não seria a coisa mais agradável. A ideia que surgiu foi fazer um concerto ao vivo nesse dia, e escolhemos o Maria Matos, que é um pequeno teatro [em Lisboa], onde só se pode vender metade da lotação, pelo que serão 200 e tal pessoas. Felizmente já abrimos uma segunda data, que também já esgotou. [Desde então já foram anunciadas mais duas datas]. Para cumprir de outra maneira estes 75 anos. Não é que eu seja um fanático dos aniversários, mas se fiz uma festa aos 70, achei que devia fazer uma festa aos 75, então chamei [ao espetáculo] "75 no Maria Matos", uma vez que já tinha um disco ao vivo chamado "9 e Meia no Maria Matos", da altura do "Ligação Directa". É uma maneira de voltarmos ao palco, de mudarmos um bocadinho o repertório, de cantarmos coisas que há muito não cantávamos e cantarmos outras em formatos diferentes. Vamos ter canções só com um ou dois músicos, refrescar o material e cantar 'O Novo Normal'. É uma canção um bocado fora do baralho: não faz parte de nenhuma coleção de canções, chamemos-lhe disco. Já não sabemos o que lhes havemos de chamar. Os discos são um objeto em vias de desaparecimento, acho que foi um bocadinho rápido. Troquei de carro há dois anos e já não tem entrada para CD.

Quando entrevistámos os Clã, para quem escreveu recentemente duas canções, a Manuela Azevedo disse que consigo já comunicam por telepatia.
(risos) Parecendo que não, já fiz várias canções para eles. 'O Sopro do Coração' é talvez o emblema. Para este disco escrevi duas, a 'Tudo no Amor' é muito bonita. E, ao princípio, a canção não brilhava por si só, como por exemplo 'O Sopro do Coração'. Tem outro tipo de cadência, e eu fiquei um bocadinho hesitante, embora tenha gostado... Mas o Hélder [Gonçalves] disse-me: "acho que devias insistir". E de repente abriu-se ali um caminho [lírico]: a cegueira... É possível que a cante nos concertos do Maria Matos.

Tem também um concerto no evento Noites F, associado ao Festival F, em Faro, e dois espetáculos d' Os Fadinhos do Godinho, no festival Soam as Guitarras. Do que se trata?
Às Noites F vou com a minha banda. Curiosamente, há dois anos tinha estado no Festival F no dia do meu aniversário. Agora não será exatamente no dia do aniversário, mas é quase. O Fadinhos do Godinho é o seguinte: há muito tempo que escrevi muitos fados, para vários fadistas; foram quase sempre encomendas. Agora estou a começar a escrever um fado para o Camané, que terá um novo disco. Mas eu não sou fadista. A canção 'Emboscadas', que eu também sugeri ao Camané, está no meu disco "Na Vida Real" [1986], mas eu não a cantei como fado. Ela foi composta como fado, porque era para um filme que acabou por não acontecer, e depois eu não a cantei como fado, porque não sou fadista e estar a mimar a voz de um fadista seria patético. Mas são canções, que podem ser interpretadas de outra maneira.

Fiz fados para o Camané, para a Mísia, Cristina Branco, Carlos do Carmo, para o filme "Kilas, o Mau da Fita", para a Lia [Gama] cantar... E agora achei que seria interessante cantá-las com o Filipe Raposo e um guitarrista de fado, não como fados, mas como canções que também são. Há muito tempo, com a Amália e outros, o fado foi também uma canção. Até havia uma designação usada pejorativamente: fado-canção. Então resolvi preparar um concerto chamado Os Fadinhos do Godinho. Teremos dois concertos, um em Carnaxide e outro no Cine Teatro Garrett, na Póvoa de Varzim, onde estive muitas vezes, por causa [do festival literário] Correntes de Escritas. Não sei se haverá um registo gravado; antes desse ainda sairá outro disco, com a Metropolitana no Teatro São Luiz. Isso está gravado, estivemos quatro dias lá. Penso que sairá ainda este ano. Até porque depois, para o ano e a seguir, são os meus 50 anos de canções. Eu fiz o meu primeiro disco em 1971. São só comemorações! (risos)

O que pensa quando se lembra que já faz 50 anos de canções?
Não faço muito balanço disso. A única coisa que penso é que a voz aguentou-se e isso é muito positivo. Ainda me sinto com energia para cantar, continuo a gostar de estar no palco e de criar. Agora crio menos, desde que comecei com a ficção narrativa. Estou a seguir o terceiro romance, a persegui-lo e a escrevê-lo. A ficção narrativa foi uma descoberta para mim: o livro de contos, "A Vida Dupla", e os dois romances, "Coração Mais que Perfeito" e "Estocolmo", foram para mim o abrir de outro horizonte criativo. Sobtretudo o lado da continuidade, de continuar a laborar dia após após dia. As canções são um ofício muito fracionado, porque mexem com dois meios, as palavras e a música, e aqui há uma continuidade que eu não conhecia e que me deu uma grande vontade de trabalhar.

Vai-se sentindo cada vez mais confortável nesse registo?
Eu só comecei quando me sentia confortável. Já tinha experimentado coisas... há um momento em que sentes que estás pronto. Depois vais aprendendo com a prática. O meu primeiro disco, "Os Sobreviventes", foi feito com 26 anos e as 12 canções que lá estão têm uma maturidade grande, não são aquela coisa de: "o rapazinho até tem jeito, pode ser que um dia até vá lá". Sem falsas modéstias, penso que há maturidade, e há canções em que eu voltei a pegar, como 'Que Força É Essa?', 'Maré Alta'... 'O Charlatão' está lá, com essa colaboração emblemática com o José Mário Branco, que já não está cá para ver isto...

Pensa nisso? No que diriam as pessoas que já partiram sobre este momento?
Penso, claro que penso. Penso nas pessoas que já se foram, sobretudo aquelas mais queridas. Penso sobretudo na minha mãe, que era muito atenta às notícias e ia ficar completamente atónita com o que está a acontecer. O José Mário foi das últimas pessoas a ir-se e foi-se embora em novembro, depois disso já morreram um ou dois amigos meus. Mas nesta longa vida há pessoas que vão indo. É o curso da vida. Eu próprio olho para mim e acho que tenho 300 anos à minha frente e não tenho, só tenho 200. (risos)

Mas sente-se bem? Tem estado muito produtivo...
Sinto-me bem! Eu gostaria de ser mais produtivo, a sério. Mas também não sou um obsessivo-compulsivo. Gasto tempo a fazer nada. A falar com os amigos, a ler, a ouvir música ou seja o que for. Mas às vezes sinto que devia ser mais persistente, mais organizado. Foi por isso que a ficção narrativa me ajudou: deu-me uma certa continuidade de trabalho, porque sou muito disperso. Sou um bocado insatisfeito. Não fico contentinho comigo mesmo. Não tenho esse vírus!

Há uns anos o seu primeiro álbum, "Os Sobreviventes", foi 'revisto' por B Fachada, Francisca Cortesão e João Correia. Há muitos músicos jovens que adoram a sua música. Alguma vez lhe acontece ouvir um artista novo e pensar que ele andou a ouvir os seus discos?
Eu reconheço influências, assim como eu tive influências de outros. É inevitável. Depois cada qual tem a sua marca própria. O exemplo do Zeca Afonso, para mim: eu nunca imitei o Zeca. Os nossos estilos são muito diferentes, no entanto cada vez que saía um disco dele parecia que isso me estimulava para fazer as minhas próprias coisas. Repito: o universo do Zeca é muito diferente do meu, até musicalmente. O Zeca nunca usou um piano, dizia que era um instrumento nobre e que ele não queria usar instrumentos nobres. (risos) Aquela maneira como ele elucubrava... (risos)

Em entrevista ao jornal Contacto, em 2019, disse que um dia haveria de escrever sobre as duas vezes em que foi preso, no Brasil. Já começou?
Tenho isso presente, está na agenda a médio prazo. Eu quero escrever sobre isso e ando a tentar organizar ideias sobre qual seria a melhor condução ficcional, embora falando da realidade. Uma coisa mais fragmentada, mais una, mais cronológica. Ando à volta disso, mas com tempo.

"[Criar] é o ato de solidão por excelência. Mas é uma solidão acompanhada por mim mesmo. Ou seja, não me quero perder de vista"

Tendo vivido tempos turbulentos, antes e depois do 25 de Abril, faz com que olhe com otimismo ou pessimismo para o surgimento de figuras como André Ventura?
Algo como o André Ventura tinha de acontecer na sociedade portuguesa. O facto é que não sabes quem são as outras pessoas do Chega. Há aquele suposto ideólogo, mas o certo é que o homem se impôs de uma maneira que é até surpreendente. É evidente que ele veio preencher um qualquer vazio político e claro que é preocupante. Ainda agora na reação que ele teve a estas ameaças que houve a três deputadas e ao [líder] do SOS Racismo, aquela intimação para saírem de Portugal... claro que é uma fanfarronice, mas é uma coisa que vai ficando. E a maneira como ele reagiu é completamente parva. Não tenho muito mais a dizer, porque acho que ele de facto veio preencher qualquer coisa, mas que se se falar demasiado dele, se está a valorizá-lo.

E ao jornal Notícias do Nordeste, em 2008, disse que a criação era um ato solitário. Continua a ser assim, ainda que colabore com outras pessoas?
Completamente solitária. Nem às pessoas mais próximas eu falo logo, tem de ser uma coisa de mim, comigo mesmo. Sou o meu próprio juiz. Vou fazendo a necessária filtragem, engano-me, no dia seguinte vou ver... demoro tempo, não sou imediatista e tem de ser mesmo assim, porque [criar] é o ato de solidão por excelência. Mas é uma solidão acompanhada por mim mesmo. Ou seja, não me quero perder de vista. Às vezes há pequenas epifanias, mas de modo geral é também trabalho.

Sérgio Godinho
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Rita Carmo

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Numa carreira tão longa e tão rica, sente que tem algum álbum ou tema subvalorizados?
Eu peguei em certas canções que quase que não tinha cantado e pensava que iam funcionar - e não funcionaram. Não é por acaso que, n' "O Irmão do Meio", eu peguei numa canção chamada 'Antes o Poço da Morte' e convidei os Xutos para cantarem aquilo - achei que era uma coisa que podia calhar bem aos Xutos. Eu nunca tinha cantado aquela canção ao vivo, nem tornei a cantar. Há sempre aquela coisa do lado B.

Já tendo escrito em tantos registos, não pensa escrever as suas memórias?
A minha editora quer que eu escreva. Mas eu não sei se o faria de maneira fragmentada, ou extensiva. Tenho aqui este 'livrão' [a biografia de Woody Allen, em cima da sua mesa], chama-se "Apropos of Nothing", a propósito de nada!. Acho que só uma coisa fragmentada é que me interessaria. E eventualmente desenvolver a história das duas prisões, que será também autobiográfica, mas não sei se autonomamente. Francamente não sei. Vamos por partes.

Para terminar: cinco autores sem os quais a sua vida teria sido diferente.
A minha vida não sei se seria diferente, mas a minha criatividade foi estimulada por gente como Bob Dylan, Jacques Brel, Georges Brassen, Tom Jobim, João Gilberto e depois Caetano Veloso e Chico Buarque. Sempre ouvi muita música. A minha mãe tinha o curso superior de piano e sempre ouvi muita música clássica, chamemos-lhe assim. O meu pai era um melómano amador, trazendo imensos discos do estrangeiro. Sempre fui muito estimulado pela música e sempre gostei da comédia musical, ou do musical. Lembro-me de o meu pai ir muitas vezes a Londres, onde tinha negócios nos têxteis, e de ter visto lá o "My Fair Lady" em teatro, antes de o filme ser feito. Trouxe o disco, muito entusiasmado com aquilo - ele era um anglófono, sabia muito de inglês. E é uma banda-sonora extraordinária. O "West Side Story" também. São da mesma altura, quando era adolescente... e são coisas que me estimularam muito.

Sérgio Godinho atua no teatro Maria Matos, em Lisboa, a 31 de agosto, 1, 15 e 21 de setembro. Apresentará ainda o espetáculo Os Fadinhos do Godinho no festival Soam as Guitarras, em Carnaxide e Vila do Conde.