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João Villaret

101 canções que marcaram Portugal #37: 'Fado Falado', por João Villaret (1947)

O Fado falado é uma canção dita e não cantada. Dependeu só de si para se tornar imortal. Um fado que falava de um meio que não frequentava, mas que permitiu a João Villaret tornar-se mainstream e, após esse escopo, passar a dedicar-se com mais dedicação à arte que o fez maior: a poesia. Esta é a 37ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Fado Falado', de João Villaret
(1947)

João Villaret extraía o máximo das suas capacidades e potenciava-as. Superava-se. Tem valor redobrado por isso e pela herança que deixou à cultura em Portugal – na televisão, na poesia e no teatro.

Passou por grandes companhias teatrais. Encheu teatros. Integrou o elenco de filmes de sucesso. Brilhou na rádio. Foi precursor de programas de televisão na promoção de autores portugueses. Escreveu textos de sucesso. Pouco para quem supostamente tem um talento limitado, como lhe diziam no Conservatório? João Villaret não era grande, era maior. Era inquieto. Sedutor. Queria viver e dar a viver muito no tempo que não dispunha sem o saber. Amava o palco, as luzes, o público e as artes. Era um homem bom, enfim. E se tivesse de escolher uma arte, escolheria a sua arte maior, a da poesia. Adotou um estilo único de a dizer: a ronronar, com a cadência certa, com gestos e entoação de felino. N’O Mostrengo começa ao de leve, como se o tivesse vivido ou escrito, e acaba rouco, cavo, violento, que Fernando Pessoa não está para dizeres brandos (exclua-se Alberto Caeiro). Assim recitava, assim dizia poesia – como falava, como representava, como vivia – num turbilhão de emoções que eram a vida que eram dele ou outras que tomava como dele. Gostava do mundo, de sugar a existência avidamente.

Era homossexual, gordo e com trejeitos efeminados. Tudo ao inverso das convenções. Mas nem por isso deixa, em 2020, de se falar de João Villaret. Mas nem por isso se deixa, sobretudo por isso, de falar de João Villaret – porque foi um talento improvável. Cedo começou na televisão; não tinha tempo para muito porque a RTP só começou em 1957 e queria deixar marca antes de 1961, ano da sua morte. Apresentou programas de poesia: um amante de poetas num país de poetas e gostadores de poesia. Começou aquele primeiro programa de 1959 devagar, gentil, e guardou o Cântico Negro de José Régio como contrapeso. Era o seu poema: inquieto, inconformado, colérico. Aquele ‘Eu amo o longe e a miragem/amo os abismos, as torrentes, os desertos’ era como se tivesse encomendado o seu próprio retrato a um pintor de palavras. E ninguém lhe ficava indiferente. Como podia?

Em 1947, resolveu cantar um fado. Mas não o sabia. Nem fado nem outra coisa qualquer – que os seus lamentos eram outros: os da aristocracia das palavras, das personagens e de si mesmo. Solução: um fado falado. Um fado que não exigia oitavas nem entoações. Um fado que dependesse apenas da sua emoção e da sua cadência. Como 'La Valse à Mille-temps', de Jacques Brel. Um fado que dependesse só de si para se tornar imortal. Um fado que falasse de um meio que não conhecia (mas um ator é isso mesmo). Um fado das vielas, das prostitutas, da Lisboa do bas-fond, das guitarras e das madrugadas, de amores não correspondidos, de marialvas. De corações sofredores. De povo. De tudo aquilo que Villaret pouco ou nada frequentava. Não sendo o seu fado, não sendo o seu poema, assim o disse magistralmente - em Portugal, em Angola, em Moçambique. O Fado falado tornar-se-ia o seu grande hit. Tocaria nas rádios e faria de Villaret uma faixa a ombrear na rádio com fados de Amália, Hermínia Silva ou Marceneiro. Porque é preciso desbloquear o sucesso. E Villaret viu o desbloqueio no 'Fado Falado'. O povo manda.

São inúteis os exercícios de ‘como é possível naquele tempo...’. A verdade é que a RTP tinha programas de poesia e João Villaret enchia de povo teatros para ouvir poesia. Programas na RTP de Villaret, de David Mourão-Ferreira ou de Mário Viegas são lembrados com saudade, tempos em que Fernando Pessoa, Pedro Homem de Melo ou Mário Henrique-Leiria tinham voz no prime da estação pública.

João Villaret teve seguidores mas foi ele o primeiro – e esse facto dá-lhe legitimidade para guardarmos dele o melhor. E também porque não se limitava a ser um bom comunicador. Era intenso. Tinha outros interesses. E público para o que quer que fizesse (que a cultura nunca teve dinheiro para ser arte de nichos). Não era lente na área da literatura. Era ator. Teve de escolher, já doente (maldita diabetes) uma arte maior. E escolheu levar a ‘sua’ poesia a todos os que conseguisse. E disse Camões, Pessoa, Régio, Cesário Verde, António Nobre ou o seu ‘irmão’ António Botto – que lutou, em época anterior, pelo seu direito a ser diferente e mesmo assim a ser imortal. E teria dito, com fulgor, se estes tivessem escrito a tempo, Ary dos Santos, Sophia, Natália Correia ou Fernando Assis Pacheco.

Se o fado se canta e chora
Também se pode falar

Ouvir também: 'Essa Nega Fulô', de Jorge de Lima. Villaret imprime um sotaque brasileiro ao dizer o texto do poeta carioca – que versa a rotina de uma criada de uma roça. Fulô é acusada de roubar e o seu patrão manda-a despir-se para a punir com uma vergasta. Quando Fulô se despe, o patrão deixa esvair a raiva que sentia, passando a sentir desejo pela criada negra. Make me good but not yet...

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    Adriano Correia de Oliveira era um homem doce e subversivo. De consciência política apurada, viveu num tempo com razões de sobra para a inquietação. A letra de Manuel Alegre resume em dois versos a génese de um tempo pelo qual valia a pena criar: há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não. Esta é a 32ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

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    A Sétima Legião foi uma das bandas mais elegantes da pop em Portugal. Agregavam consenso entre pistas de dança, imprensa e crítica. Nasceram na Fundação Atlântica, de Miguel Esteves Cardoso, mas queriam ser mais que uns Joy Division à portuguesa e transversalizar a sua arte. Se um dia formalizarem o seu fim, é certo que já terão inscrito com tinta permanente clássicos da nossa pop de maior qualidade