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Aos 54 anos, Sonic Boom descobriu em Sintra o caminho para o paraíso. Não é a direito

Produtor atarefado, músico ultimamente bissexto, Peter Kember voltou a gravar um álbum como Sonic Boom, 30 anos depois. Quase sem guitarras — por convicção e pirraça. Fê-lo em Sintra, onde vive

Tenhamos cuidado com a expressão, não vá o cosmos querer vingar-se: há ao longo de “All Things Being Equal”, primeiro longa-duração de Sonic Boom (Peter Kember, Rubgy, Inglaterra, 1965) em 30 anos, algo que poderíamos levianamente designar de new age. Lançado em vigência pandémica, o segundo disco de Kember (ex-Spacemen 3, aditivada eletricidade psych nascida em meados dos anos 80, com o conterrâneo Jason Pierce, futuro Spiritualized, ao seu lado) é planante, minimal, holístico, amigo de mantras. Se Nick Cave conseguiu passar incólume ao pecado (“Ghosteen”, 2019), porque não conceder a benesse a quem já nos ofereceu bordões viciantes, space rock intoxicado e o que, muito acertadamente, Jesse Doris descreve na “Pitchfork” como “a mesma canção ao longo de quase 40 anos, feita como a arrogância dos blues, mas desacelerada até se tornar ondular”. Há algo que nos diz que isto vai correr bem.

Kember não andou desligado. Como artista a solo gravou sob designação Spectrum (pedida emprestada ao título do primeiro álbum enquanto Sonic Boom, de 1990) e E.A.R. (iniciais de “Experimental Audio Research”); enquanto produtor esteve neste século ligado a “Congratulations”, o álbum deliciosamente retro (mas incompreendido) dos MGMT, aos penúltimo e antepenúltimo álbuns de Panda Bear, dos Animal Collective, e aos mais recentes discos de Beach House, em sede dream pop, e dos Moon Duo, em regime garageiro psicadélico. Kember não andou desligado, mas precisou de se reconectar, como afirma ao Expresso. Fê-lo em Galamares, freguesia de Sintra, onde vive há alguns anos.