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Festa do Avante, Amora, Selxal

Rita Carmo

Festa do Avante na hora da despedida. “Cada qual no seu canto mas cá estamos nós outra vez”

A edição mais polémica em muitos anos da Festa do Avante terminou com um dia de música em cheio. Na hora de dizer adeus ao evento do PCP, todas as cadeiras foram precisas. As despesas estiveram por conta de Xutos & Pontapés, Stereossauro e a Orquestra Hot Clube de Portugal, com “mais malta idosa do que jovem”

O vento só chegou à Quinta da Atalaia no último dia, mas chegou a tempo. São 18h e as bandeiras comunistas agitam-se por cima das cadeiras brancas do Palco 25 de Abril. O ponto alto político da Festa do Avante! está prestes a começar, mas a pontualidade comunista ressente-se: é preciso cumprir as normas de segurança, há apelos para que os camaradas não ocupem a estrada, o comício tarda em arrancar.

Longe da multidão militante, na privacidade das traseiras de uma barraca com a mensagem "Capitalismo não é verde", um jovem não resiste ao cansaço e deixa cair a cabeça sobre a mesa branca do jardim, mas recupera do sono profundo quando Jerónimo de Sousa, o líder, toma a palavra.

Joana e Felícia também ouvem o secretário geral do PCP ao longe. Têm 25 anos e estão satisfeitas. “Depois de tudo o que aconteceu, foi uma possibilidade fixe de os artistas poderem apresentar a sua arte de forma segura”, diz Felícia, cantora e musicoterapeuta. “Há imenso espaço”, concorda Joana, estudante de mestrado de Ciência Política e empregada num café. “Mas vi muita mais malta idosa do que jovem, e isso é pena…”, acrescenta. Felícia discorda na parte da pena, mas ambas sublinham: “O que está no ar não é o vírus, é o medo”, referindo-se a toda a polémica que cercou o evento. As duas amigas não apanharam o início do concerto da Orquestra Hot Clube de Portugal, no Auditório 1º de Maio, mas gostaram muito do que viram.

O que viram foi um grupo de jovens talentosos num desfile de jazz, irreverente, desconcertante mas sintonizado. A plateia está despida, mas entusiasmada. A colina de relva mostra um distanciamento social de excelência: há poucos espectadores sentados e são sobretudo jovens que de forma ritmada vão oferecendo fumo ao ar da noite. A meio da atuação, o som profundo do contrabaixo desacelera o concerto pela primeira vez em largos minutos. À relva do 1º de Maio chega uma voz penetrante, vinda de outro palco. As pessoas estão distanciadas, a música nem por isso. O problema é resolvido com a entrada em força de toda a orquestra, e a voz longínqua sucumbe ao som pesado da secção de metais do Hot Clube. A seguir, o solo de saxofone também não dá hipótese a quaisquer interferências.

A “interferência” é o concerto de Stereossauro no Palco 25 de Abril. O artista português começou a dar música a uma plateia magra, desaparecida depois do comício, mas que foi crescendo devagar com o decorrer das músicas. Entre dois temas, o artista português anuncia que os temas com samples "da nossa Amália Rodrigues" vão prosseguir, e a plateia com uma média de idades avançada reage bem ao cruzamento entre a saudade do fado e a modernidade da eletrónica. Carlão e Marisa Liz foram alguns dos convidados.

A festa pode estar na fase final, mas os funcionários não descomprimem. Um casal de namorados aproxima as cadeiras e imediatamente são abordados por um camarada que não vira costas até os assentos voltaram para o lugar devido.

Mais do que as samples, a verdadeira protagonista do concerto é a guitarra portuguesa. As músicas pertencem ao álbum “Bairro da Ponte”, editado no ano passado, e além de Amália pedem emprestado nomes como Carlos Paredes. “[O disco] foi-se transformando em coisas, foi-se agigantando, espero que estejam a gostar”, diz Stereossauro. O público está. O tema seguinte intitula-se “Vento” - que por esta altura continua a fazer-se sentir no Avante! - e conta com a voz da fadista Gisela João (que, contudo, não esteve presente): "Vivemos os dois num conto de fadas, deixa para depois as tristezas e as mágoas". Quando a música termina, a noite já aterrou sobre a Atalaia.

O fim está próximo e o início da despedida é aguardado com expectativa. "Eu acredito no trabalho e na dedicação" são as primeiras palavras que se ouvem do concerto dos Xutos & Pontapés, ainda Tim e companhia não entraram no palco. “Cada qual no seu canto mas cá estamos nós outra vez. Obrigado pela força que deram a toda a gente”, agradece Tim a uma plateia completa: este ano, as cadeiras do Avante! eram imensas. Mas durante o último concerto da festa não estiveram vazias.