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Adolfo Luxúria Canibal, dos Mão Morta

Rita Carmo

Adolfo Luxúria Canibal, dos Mão Morta: “Não tenho fé alguma na Cultura enquanto a ministra lá estiver. O país, para ela, é paisagem”

Em entrevista à BLITZ após a atuação dos Mão Morta na Festa do Avante, no passado sábado, Adolfo Luxúria Canibal deixou fortes críticas à política cultural do ministério de Graça Fonseca, que acusa de desconhecimento do setor em tempos de pandemia, e aproveitou para apontar o dedo ao que denomina de “campanha contra o Avante”. “As pessoas tiveram medo de vir aqui a pensar que seria uma selvajaria”

Poucos minutos depois de os Mão Morta terminaram a sua atuação na Festa do Avante, no passado sábado, o vocalista Adolfo Luxúria Canibal revelava à BLITZ os percalços de um concerto adaptado: quer pela pandemia, que obrigou o peso da banda bracarense a chegar a uma plateia sentada e dispersa, quer por uma baixa de última hora entre os membros da banda, o baterista Miguel Pedro.

“[O concerto] correu bem. Tivemos de fazer um concerto um bocado improvisado porque o Miguel Pedro [baterista] foi internado a semana passada, teve um pequeno AVC… Obrigou-nos a adaptar-nos a tocar sem ele. O Ruca [guitarrista] passou para a bateria, as três guitarras ficaram duas… Houve uma data de adaptações, [mas] há sempre uma tensão de fazer um concerto assim, sobretudo depois de uma paragem de não sei quantos meses”, explicou o vocalista dos Mão Morta. O tempo de preparação às novas circunstâncias é elucidativo: um fim-de-semana, dois ensaios, “era o que já estava marcado”.

Lamentando ter visto "pouca gente" no recinto ao longo de sábado, Adolfo fala em "campanha contra o Avante": "Surtiu efeito, as pessoas tiveram medo de vir aqui a pensar que seria uma selvajaria, e de facto não é selvajaria nenhuma. Se forem à Feira do Livro de Lisboa é bem pior, se estiverem no concerto do Campo Pequeno como o Presidente da República, a seguir ao confinamento, foi bem pior… O 15 de agosto em Fátima, conta quem lá esteve que foi bem pior".

Os “problemas estruturais” do setor da cultura

O tema era incontornável, dada a atual situação pandémica e as consequências que esta teve na cultura em Portugal. Para Luxúria Canibal, os problemas do sector ficaram mais “expostos” graças à covid-19, mas são “estruturais” e estão há demasiado tempo sem resposta. “Não se percebe porque é que não há um estatuto profissional específico para os intermitentes do espectáculo. Não são só os músicos. São os técnicos, cineastas, atores de teatro…”.

O artista aponta o dedo à máquina burocrática do Estado. “Como é que alguém que passa temporadas sem trabalhar, e portanto sem rendimentos, tem de estar a pagar a contribuição fixa da Segurança Social, quando não tem sequer dinheiro para comer?”. Adolfo é claro: estes são “problemas técnicos de falta de estatuto”.

Subir o orçamento da Cultura é importante, mas mais importante, considera, é existir “organização” e capacidade para resolver as dificuldades das pessoas que trabalhem na área, acrescenta Luxúria Canibal. “Já passaram seis meses e ainda não fizeram rigorosamente nada. Não tenho fé nenhuma enquanto a ministra [Graça Fonseca] lá estiver. Não percebe nada do sector e o país, para ela, é paisagem, [acredita que] não há agentes culturais fora de Lisboa, não há nada. Enquanto ela não sair, não estou a ver nada de substancial a ser alterado”, conclui.