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Festa do Avante, Amora, Seixal

Rita Carmo

Festa do Avante. Cantar, aplaudir, desinfetar

O dia inicial da Festa do Avante foi dominado, musicalmente, pelo fado: Aldina Duarte elevou o público à altura ideal para se ouvirem versos de Fernando Pessoa sentidos por Camané e Mário Laginha, fadista e pianista em completa sintonia. Há boa disposição, mas também rituais que há poucos meses pareceriam alienígenas

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

O calor da tarde já ficou para trás quando Aldina Duarte sobe ao palco do Auditório 1º de Maio, o mais próximo do rio. O concerto avança com ritmo e cumplicidade entre a fadista e os espectadores: Aldina não fez preencher todas as cadeiras disponíveis, mas a plateia está “bem composta”. A avaliação é de Jorge Cordeiro, membro do Comité Central do partido, que aproveita a vista panorâmica do Espaço Central, onde se estão a realizar debates acesos sobre novas realidades da pandemia como o teletrabalho.

Aldina vai cantando com vontade, o som é forte, o público corresponde com palmas. O concerto termina e a transição para a atualidade é imediata: os altifalantes relembram o público para cumprir as normas de segurança necessárias, e deixam depois uma mensagem antirracismo. O público cresce e acomoda-se em preparação para o concerto seguinte: o fadista Camané e o pianista Mário Laginha surgem no palco alguns minutos depois.

À primeira canção o público sente a química entre os dois artistas, mas também pressente todas as horas de treino ali em exposição. A técnica é valiosa e acarinhada, a precisão é muita, a relva vai ficando cada vez mais pintada de grupos de amigos, casais, famílias. No espaço da plateia sentada, os funcionários do evento não deixam entrar ninguém sem que as mãos sejam desinfetadas. Não fica nenhuma cadeira vazia à vista.

Festa do Avante, Amora, Seixal

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Rita Carmo

Camané anuncia antes do segundo tema que irá cantar “umas quadras de Fernando Pessoa”: o poema escolhido é “Presságio”, e os primeiros versos - “O amor, quando se revela / Não se sabe revelar” mostram que irá cumprir a tarefa com brilhantismo. No final, um senhor deitado na relva grita um conselho bem disposto ao cantor: "Oh Mané, bebe um fino, Mané!".

Nas canções que se seguem, o piano de Mário Laginha continua a suportar com delicadeza a emoção de Camané. Surge uma interpretação de um tema do fadista José Júlio Paiva, (talvez) escrito em 1918 e imortalizado em disco em 1925: é o próprio Camané que dá conta dos detalhes antes de começar a cantar, aquela música diz-lhe muito, José Júlio Paiva era seu bisavô. A homenagem começa com estas palavras: “Aqui está sossegado, longe do mundo e da vida". Quando termina, o senhor da cerveja está rendido: "Lindo, lindo! Lindoooo!".

E eis que Camané cede os holofotes a Mário Laginha. O solo virtuoso do pianista é perturbado pela passagem da polícia, já fora do recinto, mas os carros e as notas de luzes azuis desaparecem estrada fora em poucos segundos. Ao mesmo tempo, uma família de seis junta-se nas escadas para combater os primeiros sinais do frio, e a polícia regressa, insensível à rapidez e definição das notas de Laginha. Algumas pessoas agarram o difícil ritmo final com palmas, que persistem quando a música termina.

Enquanto Camané se despede do público com um agradecimento, a Quinta da Atalaia continua viva noite dentro. As pessoas percorrem o espaço em ritmo de passeio, preferindo a tranquilidade à euforia. No palco 25 de Abril, onde horas antes tinha atuado a cantora cabo-verdiana Maria Alice sob o lema “Sons e vozes de África contra o racismo”, funcionários desinfetam com disciplina as cadeiras agora vazias. O Avante deixa o primeiro dia para trás e prepara agora a festa deste sábado.