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David Bruno

Renato Cruz Santos

De Gaia à Raia. David Bruno não deixa pedra sobre pedra em Portugal, “um país de pessoas carismáticas e muito engraçadas”

Em pouco mais de dois anos, cunhou um estilo inconfundível. Depois de dois discos dedicados a Gaia, onde nasceu, David Bruno ruma ao interior para cantar, em “Raiashopping”, as histórias da terra da sua família. “Nos primeiros concertos havia imensas pessoas a pensar que iam ver o Zé Cabra ou o Herman José, que era um espetáculo de rir. Até posso ter alguma ironia, mas as músicas têm um sentimento muito profundo. Não é uma piadola”

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Em pouco mais de dois anos, David Bruno cunhou um estilo inconfundível. Inspirado nas personagens e particularidades da sua localidade de Vila Nova de Gaia, o músico nortenho deu ao mundo "O Último Tango em Mafamude" (2018) e "Miramar Confidencial" (2019), discos marcados por um sentido de humor apurado e uma capacidade de observação à prova de bala. Numa altura em que pensa já num quarto álbum, o membro do Conjunto Corona (também com disco prometido para breve) fala-nos de "Raiashopping", uma homenagem à zona da Beira Alta, da qual é natural a sua família. Sempre com humor, mas sobretudo com amor: "As músicas podem ser engraçadas, mas têm um sentimento profundo", garante.

Menos de um ano depois de "Miramar Confidencial", o seu segundo álbum, chega "Raiashopping". O confinamento da pandemia deu-lhe mais tempo para procurar inspiração?
Inspiração e não só. Nos meus trabalhos, a inspiração geralmente vem de coisas muito simples. Neste disco, o que me inspirou a fazê-lo foi a pesquisa que fiz das [cassetes] VHS da minha família, que digitalizei. Tive hipótese de ver aqueles momentos todos. Já há muito tempo que tinha pensado fazer um disco não sobre Gaia, que foi a saga até agora, mas sobre as raízes da minha família. Digitalizei VHS e vi aquelas horas todas... Essa altura dos anos 90 em que foram gravados os VHS, pelo menos os meus, foi a altura em que os chefes de família tiveram acesso às câmaras e ficavam muito deslumbrados, então gravavam tudo. E há ali momentos que são nostálgicos e valiosos, pérolas autênticas que nos lembram como era a vida naquele tempo. Isso foi uma coisa que só tive possibilidade de fazer por causa da pandemia.

Como conseguiu ver as cassetes VHS? Ainda tem um gravador vídeo?
Tenho vídeo e um compressor digital e foi isso que andei a fazer, antes de começar a construir este álbum. À medida que ia vendo, havia momentos que me lembravam de certas histórias. Daí vêm as letras.

Nalgumas das imagens que podemos ver no "video album", o menino de roupinha da comunhão é um jovem David Bruno?
A roupinha da comunhão, um fato de treino todo às cores, um chapéu de ciclista: sou eu!

Primeira ou segunda comunhão?
Era o casamento de um primo. (risos) Com o lanche ajantarado e o bolo assombrado. (risos)

E para recordar essas histórias, teve de perguntar coisas aos seus pais, por exemplo?
Não precisei de fazer perguntas, porque embora eu tenha nascido no Porto, e eles é que sejam naturais de Figueira de Castelo Rodrigo, eu tenho uma ligação muito grande [à aldeia]. Os meus avós maternos estavam emigrados em França, outros estavam na aldeia. Como eu não tinha família para tomar conta de mim quando era criança, ia sempre para o pé dos meus avós e dos meus tios. Passei muitos anos da minha vida na aldeia. E até há pouco tempo, antes de a música começar a consumir-me os fins de semana, ia todos os meses à aldeia dos meus pais. Tenho muitas ligações lá: já fui organizador - como se costuma dizer para aqueles lados, já fui mordomo - da festa um ano, já fundei uma associação... e gosto muito! Eu sou um apaixonado pela riqueza não só de Gaia, mas a de lá, que é igualmente pura. Gostava muito de ir para lá e passar tardes no café e nos restaurantes, só a ouvir aquela cultura da zona. Um diamante bruto. Nas cidades é um pouco mais polido, o diamante.

Para uma criança, trocar a cidade de Gaia por uma pequena vila da Beira Alta devia ser como ir para um planeta diferente...
E é! (risos) Ainda hoje sinto isso. Ainda mais distante é. Duas horas e meia de carro... às vezes digo aos meus avós - e eles ficam surpreendidos - que até há uns meses era mais fácil e mais barato ir a Londres ou Paris do que ir a Figueira de Castelo Rodrigo. Sempre tive essa sensação, mas gosto muito da pureza e do estado selvagem daquela zona.

O seu processo criativo passa muito pelo digging de sons e pelo sampling. Quando começou a dedicar-se a essa arte? Antes ainda do Conjunto Corona?
Sim, claro. Foi a primeira coisa que fiz na música, desde 2010. Sempre gostei muito e é o que me dá mais prazer: descobrir um sample. Geralmente não é porque sim, é porque estou à procura de samples para construir um disco. Por exemplo, quando andei à procura de um sample para uma música de homenagem ao Graciano Saga, a 'Doucement'. Começo a percorrer bibliotecas [de áudio] e aparece aquela que eu samplei: dá-me aquela sensação de “ah, está aqui! É isto mesmo! Isto é que me vai ajudar a contar a história que eu quero!”. É o que mais gosto e faço-o desde sempre - também graças ao meu pai, que é um grande colecionador de música. Ele ouvia muita black music dos anos 70, Motown, etc, que devia ser a coisa mais samplada no hip-hop dos anos 90. Então quando eu era pequenito, ouvia essas músicas e depois ouvia muito hip-hop e nem ficava muito fascinado pelo estilo de música, mas sim por descobrir os samples! “Ah, eu conheço a música que estes gajos estão a usar!”. É a coisa que faço há mais tempo e continua a ser o que me dá mais prazer.

Até deve acordar com essas músicas todas na cabeça, não?
Com músicas, mas sobretudo com os temas dos discos. É sempre assim: n' “O Último Tango em Mafamude”, tinha estado a ver o “Último Tango em Paris”. Acordei no dia seguinte e pensei: "já sei!" Com este foi a mesma coisa. Acordei uma manhã com esta coisa do GaiaShopping e o símbolo da Kodak, que é a imagem deste disco, na cabeça. A mistura perfeita de universos é: Gaia, de onde eu sou, a Raia e aquela zona fronteiriça de Vilar Formoso, de contrabando e compras, shopping. É uma mistura de conceitos perfeita para o que eu quero fazer. Isto tudo com o lettering e o símbolo da Kodak, para fazer um disco com a edição física, que é o photo album. Mas é a coisa que me ocorre mais inconscientemente, porque não me lembro de nada! Fico a ver coisas a que não presto atenção e depois acordo de manhã e as coisas já estão todas coladas. Os neurónios à noite devem trabalhar na minha cabeça e fazem essa mistura. (risos)

No 'video album' de "Raiashopping" há imagens fascinantes, como a do mestre chocolateiro que compara os chocolates aos seios de senhoras... Como descobre essas imagens antigas?
São imagens de arquivo que eu procuro na internet. Perco muitas horas a ver isso. É como o digging que eu faço com os samples da música: para chegar ali, é preciso ver muita coisa. Mas quando apanhas essas pequenas pérolas, não importa se passaste uma, duas, três, cinco horas sem ver nada de jeito. Compensa todos esses esforços! Essas são imagens de arquivo da RTP de um mestre chocolateiro francês para quem o chocolate é sensualidade! (gargalhada) Foi das coisas que me deu mais prazer descobrir. Ele fazia sempre chocolates enormes, inspirados em formas de mulher! Depois está com as mãos a fazer as formas da mulher, é a parte mais perturbadora.

Ao longo destes três discos vem construindo uma certa mitologia. Será que já deu vontade aos seus fãs de visitarem locais como o restaurante Carpa ou o horto Flor do Norte [poisos referidos nos dois primeiros álbuns]?
Nos discos anteriores, soube de pessoas que vieram de férias à zona do Porto e numa tarde decidiram ir ao Flor do Norte ou ao Aparthotel Céu Azul, dar uma volta para ver. E neste último disco, fico ainda mais satisfeito, porque Gaia graças a Deus já tem muitos visitantes... mas recebi muitas mensagens de pessoas a dizer que, depois de ouvirem o "Raiashopping", ficaram com muita vontade de ir visitar a aldeia dos seus avós. Muitos é aquele caso típico: já não têm lá ninguém, só uma casa vazia, mas vão lá voltar por terem ouvido o disco. Essa parte é uma vitória, porque a coisa mais bonita da música, para mim, é a partilha. Eu fico contente a fazer um disco, as pessoas ficam contentes a ouvi-lo, e ainda têm vontade de ir aos sítios de que eu falo. As pessoas dos sítios que recebem lá [visitantes] por causa da música também ficam contentes... acho que é muito melhor do que ser eu a fazer a música, as pessoas a baterem palmas e ficar só eu contente!

Apesar de todo o humor e ironia, leva claramente o seu trabalho a sério. Chateia-o quando pensam que não?
Não, não me chateia. Porque também é bom essa parte de a música ficar aberta... mas cada vez sinto menos isso. A música tem humor, mas eu levo-me a sério. Até posso estar dizer uma coisa que eu sei que é engraçada, e que quando a escrevi até me deu vontade de rir, mas não me estou ali a rir como se fosse um palhaço ou um stand up comedian a contar uma piada. Deixo aquilo aberto à interpretação das pessoas: digo-o de uma forma séria, quem quiser levar a sério, leva, quem não quiser e quiser rir, tudo bem. Nos primeiros concertos havia imensas pessoas que me iam ver, a pensar que iam ver o Zé Cabra ou o Herman José, que era um espetáculo de rir. Mas quando chegavam aos concertos, percebiam claramente, ao final de duas ou três músicas, que não era esse o caso. Até posso ter alguma ironia, mas aquelas músicas têm um sentimento muito profundo. Não é uma piadola. Mas se acharem que a música é uma piada e lhes der vontade de rir, não levo nada a mal, também!

Num dos "momentos" do seu "video album", surge um "entrevistador" improvisado que fala como a personagem Bruno Aleixo, facto de resto referido pelos comentadores do YouTube...
O Bruno Aleixo é da Mealhada e este senhor do vídeo é transmontano. Aquela pronúncia é 100% transmontana, da zona de Mogadouro. Mas a forma de falar de facto é muito engraçada. Aquilo para mim é um lugar comum destas gravações dos anos 90, que é: alguém tem uma câmara e diz "agora vou ser jornalista". E passava o dia todo com a câmara a fazer perguntas às pessoas. Se fores a ver, aquilo é quase um monólogo, a única coisa que o miúdo diz é que quer ser camionista, e quando ele lhe dá aqueles conselhos todos, ele só diz: "pois...". (risos)

Há um certo paralelismo entre o seu humor e a sua portugalidade e o universo do Bruno Aleixo [personagem de humor]?
Acho que sim. Uma coisa que sempre apreciei muito no Bruno Aleixo e que consigo identificar também na minha obra é que é português e é de facto engraçado. Mas é zero por cento forçado. Não há ali a construção de nenhuma piada especial... Não, são coisas muito simples, que conseguimos ouvir em todo o lado. O humor aí é Portugal, que é um país de pessoas muito carismáticas e engraçadas. Não é a construção da piada em si. Revejo-me bastante no trabalho do João Moreira, do Bruno Aleixo, nesse aspeto.

Uma das suas grandes inspirações é observar e ouvir as conversas das pessoas. O distanciamento social veio dificultar esta atividade?
É muito difícil! Há um alto spot onde eu ia buscar muita inspiração: aqueles pequenos restaurantes e snack bars, especialmente aqueles em que as pessoas comem ao balcão, umas ao lado das outras. Com o distanciamento social, essa cultura de proximidade e de conversa, nos cafés, foi gravemente abalada. Espero que um dia possamos voltar ao que era antes, para eu continuar a arranjar inspiração a esse nível.

Também se inspira no noticiário local de jornais do Correio da Manhã, geralmente muito fortes ao nível do pormenor...
Inspiro-me bastante! Aquele rapper que morreu, o Mota Jr: diziam que ele aparecia nos vídeos a ostentar dinheiro. E há uma reportagem do Correio da Manhã a contar as notas todas: "Mota Jr tem 2350 euros, 10 notas de 20 euros, uma nota de..." É de facto muito forte [nos pormenores].

É verdade que foi companheiro de turma do cantor Marante, de quem é fã, num curso de prevenção de excesso de velocidade?
É verdade. Foi na altura em que fui apanhado em excesso de velocidade e fui fazer umas aulas para não ficar sem carta. Tive como colega de carteira o Marante. Já foi há muito tempo, na altura ainda não tinha aquela música dedicada a ele ['Amor Anónimo', do álbum "O Último Tango em Mafamude"]. Mas fiquei com o telemóvel dele. Se não tiver trocado, ainda hoje tenho o número dele. Quem sabe um dia...

David Bruno atua a 5 de setembro na Casa do Capitão, em Lisboa; no dia 12 no Hard Club, no Porto, e no dia 18 no Theatro Circo, em Braga.