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Erick Morillo com João Miguel André no clube Amnesia, em Ibiza, em 2019

Arquivo pessoal de João Miguel André

Erick Morillo vinha a Portugal “todos os anos”. “Artistas venerados acabam por ser pessoas muito sós”

Palavras de João Miguel André, amigo do DJ Erick Morillo, falecido esta segunda-feira aos 49 anos. As vindas frequentes a Portugal e o lado humano de alguém que “queria a cabine de DJ cheia de gente”

“Deve ter sido em 1999. Acho que fez no ano passado 20 anos que nos conhecemos numa atuação que ele fez no Estado Novo, um clube em Matosinhos do qual eu era Relações Públicas". João Miguel André, que até 2015 integrou a equipa da empresa de agenciamento WDB Management, que representava Erick Morillo em Portugal, recorda, em declarações à BLITZ, a amizade de mais de 20 anos com o DJ norte-americano, encontrado morto, aos 49 anos, esta segunda-feira na sua casa em Miami Beach. "Criámos uma ligação pessoal a partir daí e ele passou a vir todos os anos a Portugal. Eu sempre o acompanhei, um pouco por todo o país".

1999, o ano em que Morillo editou um dos seus grandes sucessos, 'Believe', sob o nome Ministers De-La-Funk, "com a grande voz da Jocelyn Brown", foi também o ano em que João Miguel André se deslocou pela primeira vez à Winter Music Conference, evento que junta, anualmente, desde 1985, a indústria da música de dança e eletrónica, durante uma semana, precisamente em Miami Beach. "Todos os anos nos encontrávamos na Winter Music Conference, na terceira semana de março em Miami", recorda André que, curiosamente, partilhava o aniversário - 26 de março - com o DJ e produtor.

Erick Morillo no Pacha Ofir

Erick Morillo no Pacha Ofir

Arquivo pessoal João Miguel André

“A nível humano, o que posso dizer é que ele era aquilo que víamos na cabine. Independentemente dos gostos pessoais, aquela alegria e energia que transmitia contagiava o público, mesmo quem não era fã dele. Adorava receber as pessoas na cabine. Há DJs que não gostam de ser perturbados porque estão a trabalhar, mas o Erick era exatamente o oposto. Queria a cabine cheia de gente. Era esse o espírito. Estar na pista ou estar na cabine com ele era uma coisa muito semelhante. Ele adorava vir tocar a Portugal e adorava o público português porque nestes países mais latinos as pessoas soltam-se mais do que, se calhar, num país nórdico. Não estarei a exagerar se disser que nas últimas duas décadas o DJ que mais festas e mais gente mobilizou em eventos em Portugal foi o DJ Erick Morillo. Falo com algum conhecimento de causa. Vinha praticamente todos os anos e houve anos em que andámos muito próximo de fazer oito ou dez datas".

André recorda também o apadrinhamento de Morillo ao clube portuense SoundPlanet, do qual foi sócio, inaugurado no ano 2000. "Foi o primeiro grande clube no Porto que só passava house music. A curiosidade é que o Erick acabou por ser o padrinho, porque veio tocar no verão à Póvoa de Varzim, ao antigo Hit Club, e visitou o SoundPlanet antes de ele abrir, em outubro. Foi ele que disse onde queria a cabine de som, que material queria na cabine de som, que não queria que fosse muito alta. Tinha uma pista à frente, mas circulava-se em volta dela. Demonstrava bem o que ele queria: estar no meio do público. Construímos uma cabine exatamente como ele nos pediu e depois ele fez-nos o favor de vir abrir o clube, por onde passaram muitos nomes”. Morillo chegaria a gravar duas das suas tradicionais compilações "Subliminal Sessions" no SoundPlanet, sendo o clube português um dos muitos poucos onde o fez (também chegou a gravar no mítico Ministry of Sound de Londres). "É uma coisa que fica cá para sempre, na história".

Erick Morillo no clube SoundPlanet, no Porto

Erick Morillo no clube SoundPlanet, no Porto

Arquivo pessoal de João Miguel André

“Nada indicaria o que se passou. Não tenho informação privilegiada, neste momento, do que se passou, a não ser a declaração da própria polícia de Miami, que diz que encontraram o corpo e que não foi nenhum tipo de crime… O que posso dizer, da minha experiência de agenciamento artístico, é que às vezes os artistas que são venerados e adorados pelas pessoas também acabam por ser pessoas muito sós. Deixou-me um bocadinho abalado, porque é daquelas pessoas com quem me encontrava todos os anos. Não precisávamos de falar todos os meses... Posso dizer que foi através do Erick e da ligação que tive com ele que conheci muitos daqueles que são hoje alguns dos meus melhores amigos. No dia de ontem tive imensas pessoas do Brasil e tour managers dele, da Austrália, a ligarem-me. Correram o mundo com ele e quando chegavam a Portugal cá estava eu para os acompanhar. Hoje, fiquei muito contente ao acordar e ver das pessoas mais anónimas às pessoas mais conhecidas, em Portugal, a dizer que se divertiram muito a ouvir a música do Erick. O legado será esse: divertirmo-nos a continuar a ouvir a música dele, que era aquilo que lhe dava prazer”.

A causa de morte de Erick Morillo ainda está por determinar, não tendo a polícia encontrado evidências de crime. O artista norte-americano, com ascendência colombiana, tornou-se mais conhecido do grande público quando, em 1993, o seu projeto Reel 2 Real editou o êxito 'I Like to Move It', deixando o seu nome inscrito na história da música house com largas dezenas de singles que gravou, ao longo do tempo, e entre os quais se encontram colaborações com P. Diddy, Jocelyn Brown, Alexandra Burke ou Harry Romero. O DJ nova-iorquino tinha sido detido há um mês por alegada violação numa festa privada em Miami, em dezembro de 2019. Depois de uma análise de ADN que o identificou, o artista entregou-se às autoridades, estando à hora da morte a aguardar o desenvolvimento da ação judicial que lhe fora interposta - a próxima audiência deveria acontecer esta sexta-feira.