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Uma parceria com o jornal EXPRESSO

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Miguel Pedro (bateria), Joaquim Pinto (baixo), Carlos Fortes (guitarra), Adolfo Luxúria Canibal (voz) e Zé dos Eclipses (guitarra)

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Rebobinanços #8: “Mão Morta”, dos Mão Morta (1988)

Braga. Terra dos arcebispos. Aqui nasceu uma das mais irreverentes bandas portuguesas de sempre. Uma das mais aventureiras e desafiadoras. Sem dúvida, uma das mais geniais da nossa música. O disco de estreia dos Mão Morta no oitavo 'rebobinanço', um olhar sobre álbuns que deixaram a sua marca

David Alves

David Alves

Editor de imagem

Quando os Mão Morta surgiram não vieram enganados nem vieram tão pouco enganar ninguém. Mostraram logo ao que vinham e como vinham. Banda com uma ferocidade tremenda. Agressiva nas suas composições. Chegaram com muita fome de mostrar o seu rock and roll. Porém, antes de avançarmos há um facto fundamental que tem de ser referido: muito possivelmente não haveria Mão Morta sem os norte-americanos Swans. Pois é. Decorria o ano de 1984 e Joaquim Pinto viajava por Berlim quando, depois de um concerto da referida banda, o baixista da altura da mesma, Harry Crosby, lhe diz: "Tu tens cara de baixista". Um mês depois, já em Portugal, Pinto compra um baixo e funda os Mão Morta com Adolfo Luxúria Canibal na voz e Miguel Pedro na guitarra. Posteriormente entram para a banda Zé dos Eclipses na guitarra (fez com que Miguel Pedro passasse para a bateria até hoje). O quinteto inicial ficaria completo com Carlos Fortes na outra guitarra. Foi esta a formação que seguiu para estúdio para gravar o primeiro álbum, de que aqui se fala.

O arranque é a todo o gás. Tema poderoso. É daquelas músicas que orgulham o rock. As guitarras rasgadas com aquela postura de total despique. Toma lá, dá cá. Não ficas sem resposta. A secção rítmica é seguríssima. Um baixo e uma bateria que se entendem às mil maravilhas. Fabuloso. Tem por base a suposição do "E Se Depois". As interrogações giram em torno de: "o sangue ainda correr"; "o fogo te perseguir"; "o desejo partir". As soluções apresentadas são básicas. "Corre atrás dele"; "aquece-te nele"; "consome-te nele". É simples a letra, mas é extremamente bem construída. É a única composição escrita por Zé dos Eclipses em todo o álbum. Tudo encaixa na perfeição. Começa aqui a escalada de Luxúria Canibal, que escreveu todas as restantes letras, como uma das grandes figuras do panorama musical português. Quase quarenta anos de estrada provam isso mesmo. É para muitos, ainda hoje, o vocalista mais extravagante e, ao mesmo tempo, refinado da música moderna portuguesa.

Por falar em refinado. "Até Cair" é isso mesmo. Refinada. Letra à imagem de Adolfo Luxúria Canibal. Altamente psicadélica e com notórias alusões sexuais tão próprias do autor. Refere "incertezas, especulações sem sentido (...) A lascívia sem fim deste carrossel atroz". Um verdadeiro poeta do rock.

Os Mão Morta vinham de uma cidade historicamente conservadora onde o peso do clero imperava. Talvez por isso a banda tenha decidido pelo nome "Mão Morta". Era um termo jurídico medieval. Os bens de mão morta eram bens que, não sendo reclamados por herdeiros, ficariam para a igreja. Não havendo sucessão era a igreja a natural beneficiária. Lembrando que era a própria igreja quem detinha os registos de nascimento, facilmente fazia desaparecer sucessores legítimos quando os bens lhes interessavam. Terrenos, propriedades e afins. Foi claramente um nome de protesto. Um combate ao poder eclesiástico.

Agressivo e com uma letra feroz é o tema "Sitiados". É mecânico. É industrial. Fala de sucata, buzinas, dejetos, gritos, punhais, e tudo está cercado. Tensão extrema ao longo de toda a música. Uma cadência metódica e sistemática enquanto a letra vagueia por delírios metafóricos claramente padronizados pelo modernismo do sentido de ser citadino.

"Mão Morta" foi lançado em 1988 pela mão da editora Ama Romanta, a editora independente de João Peste (vocalista dos Pop Dell'Arte). A banda ganhou visibilidade após vencer o prémio de originalidade do III Concurso do Rock Rendez Vous em 1986. As portas abriram-se.

"Oub'lá" continua obviamente na senda rock.Tema partido em duas partes líricas distintas. Na primeira há um apelo ao roubo. Tanto faz se é a quem te quer bem ou mal. A identidade perde-se pelos meandros da cidade. O que interessa é ter "guita p'ra ir buscar pó!". Na segunda, o discurso já é mais calmo. Há já aqui uma consternação. Um aceitar da realidade. "Adormeceu em mim o canto (...) Como se faz noite dentro de mim!". Há aqui um esmorecimento pesado.

Segue-se mais um tema de cariz altamente sexual. "Carícias Malícias". A letra é movida pelo desejo. A vontade é determinada. "Saudades eu tenho de tuas carícias malícias". As conjugações fonéticas que Adolfo Luxúria Canibal consegue com esta letra são impressionantes. Entra no ouvido e lá fica sem dificuldade.

A faixa que encerra o disco dá pelo nome de "Aum". É uma espécie de roteiro pela cidade. "Quem vem pelo cemitério", a partir daí é atravessar tudo até chegar à maternidade. É um andar ao contrário na lógica da vida. Aqui começa-se pelo fim. Mas não esquecer a referência final que nos lembra que "O tempo não espera por mim!". Não espera por ninguém na verdade. É um tema arrastado. Os Mão Morta a pisar terreno doom.

Após quatro anos da estreia em estúdio e já com três discos na bagagem, a banda lança aquele que será o seu álbum mais bem sucedido. "Mutantes S.21", de 1992. Com este veio o tema mais rodado da banda. Dava pelo nome de "Budapeste" e falava do óbvio para estes rapazes: rock and roll. Simples e fácil.

Os Mão Morta sempre foram uma banda à margem do mainstream. Longe do mediatismo. Longe das televisões e das rádios, mas com uma verdadeira legião de fãs. Sempre no fio da navalha.

Bons rebobinanços.

  • Rebobinanços #7: “Yes”, dos Morphine (1995)

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    Eram diferentes de tudo o que veio antes. Foi uma revolução musical. Mark Sandman, Dana Colley e Jerome Deupree (depois, Billy Conway) derrubaram todos os muros e convenções do seu tempo e atalharam para um som totalmente novo. Foi um salto sem paraquedas. Uma banda rara e incomparável. Os Morphine no sétimo 'rebobinanço', um olhar sobre álbuns que deixaram a sua marca

  • Rebobinanços #6: “Idlewild South” (1970), dos Allman Brothers

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    Era rock de barba rija. Era rock do sul. Era contra o preconceito. Era dos tempos em que os horizontes eram largos, não havia barreiras nem fronteiras. Os Allman Brothers não conquistaram o mundo, foi o mundo a conquistá-los. Misturaram habilmente géneros que para muitos eram como água e azeite - para eles não. Os gigantes do 'southern' no sexto 'rebobinanço', um olhar sobre álbuns que deixaram a sua marca

  • Rebobinanços #5: “Rum Sodomy & the Lash”, dos Pogues (1985)

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    Deixa-se um bom bocado de tragédia a marinar de véspera. Tempera-se o tabuleiro com uma pitada de Churchill. Cobre-se bem com cultura celta. Barra-se com punk q.b. e junta-se Elvis Costello, Shane MacGowan e o resto da malta. Mais um fio de má vida. Rega-se com alguma prostituição e passados mal resolvidos. Aquece-se previamente o forno com alguns fora da lei. Salpica-se com muitas noites boémias. Adicionam-se canais, pontes e outros sítios absolutamente fedorentos. Por fim, acompanha-se com cerveja, rum e muito, muito uísque. A receita do quinto 'rebobinanço', um olhar sobre álbuns que deixaram a sua marca

  • Rebobinanços #4: “Horses”, de Patti Smith (1975)

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    Isto não é rock de saltos altos. Isto é rock com os pés bem assentes no chão. É duro, é cru. É a mensagem que se eleva acima de toda a estética convencional. É o não ter medo de ir mais além. Bem-vindos ao mundo de Patti Smith no quarto 'rebobinanço', um olhar sobre álbuns que deixaram a sua marca