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António Calvário em meados da década de 60, numa foto publicada na compilação “Essencial”

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101 canções que marcaram Portugal #35: 'Oração', por António Calvário (1964)

Foi o primeiro vencedor do Festival RTP da Canção e perdura como um paradigma de um artista do seu tempo na canção ligeira. Todavia, a vida de António Calvário não se esgotou nas canções. Foi vedeta no teatro e no cinema. Viveu intensamente. Teve coragem de arriscar. Teve sucessos e fracassos. A liberdade prostrou-lhe a carreira gloriosa, mas continua hoje a ter público fiel, como uma memória viva do seu tempo. Esta é a 35ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Oração', de António Calvário
(1964)

Durante cerca de vinte anos, o Festival RTP da Canção foi o palco principal dos artistas e das cantigas. Excluindo algumas edições mais focadas em afirmar a liberdade recente ou em atingir a consagração na Europa, o Festival era sobretudo uma festa da canção, uma festa representada pelos melhores intérpretes, pelas melhores canções e pelos melhores compositores. Até 1974 era, por outro lado, um certame de liberdade, como uma incongruência da ditadura que se vivia. Senão, para ilustrar o cúmulo, o negro Eduardo Nascimento venceu em 1967 (com uma das melhores canções do Festival de sempre, diga-se). Ary dos Santos (cuja urna foi coberta por uma bandeira do P.C.P.) venceu três vezes em regime da União Nacional. Simone de Oliveira, ainda que em época de primavera marcelista, cantou quem faz um filho fá-lo por gosto. Sérgio Borges escolheu não ir à Eurovisão. E Fernando Tordo cantou que a censura queria acabar com as canções. Já para não nos estendermos a Paulo de Carvalho e José Niza - que anteviram o fim do regime (apesar de a letra pouco ter a ver com regimes, ditaduras ou democracias).

1964, a primeira edição, teria sido ganha por Simone de Oliveira, ou por Madalena Iglésias, ou por Artur Garcia, ou por António Calvário – os quatro arquirrivais (Simone-Madalena; Calvário-Garcia). Mas a primeira edição (que começou comedidamente; estávamos em plena ditadura de bons costumes) foi ganha por um António Calvário de mãos empunhadas ao céu, olhos fechados e clementes, como numa verdadeira oração. Meu deus, não te esqueças da minha oração / senhor, ó bondade infinita, dai-me o seu perdão (as desconcordâncias linguísticas são um detalhe de somenos). Venceu em 1964 como poderia ter vencido décadas antes – casou houvesse Festival. O filho que todas as sogras desejariam (bonito, distinto, sincero, bondoso e devoto) foi o primeiro a representar Portugal ‘lá fora’.

Começara nos Serões para Trabalhadores (promovidos pela FNAT – Federação Nacional para a Alegria no Trabalho, futuro INATEL), emitido pela Emissora Nacional, tendo vindo do CPAR – Centro de Preparação de Artistas para a Rádio. Num tempo em que a rádio, tendo a importância que terá porventura hoje, fazia-se com mais meios (orquestras, veja-se) – porque eram bem menos e a concorrência bem mais enérgica. António Calvário foi enfim um grande artista do seu tempo. Ao contrário de hoje, em que na maioria dos casos os artistas se especializam numa área só, os artistas de então embrenhavam-se em áreas como o teatro, a rádio, a televisão e o cinema. Era comum uma vedeta da rádio e da televisão apresentar-se duas vezes por dia no teatro em duas sessões diárias (folga à segunda-feira). E havia tempo ainda para frequentar à noite o Porão da Nau (do empresário de teatro Vasco Morgado e mais tarde de Ruy Castelar), o Stress, o Ad Lib ou o Pope (com o seu elegante bar Cyrose). E havia ainda tempo para digressões a Lourenço Marques, a Luanda e a Bissau.

Os anos 60 da ditadura foram os anos 90 da liberdade – tudo era possível, tudo parecia possível, como se se pudesse colher só a boa ceifa. Daí que António Calvário, como se tudo parecesse possível, se aventurasse numa longa metragem em produção própria, O diabo era outro. Era um homem de coragem e de fé, como na sua Oração. Hermínia Silva, Milú, Nicolau Breyner e António Calvário a encabeçar o elenco. Uma produção em grande. Desoladora. Desastrosa. A absorver as poupanças de uma vida artística, fazendo neste filme jus ao seu nome, um calvário. Faltavam apenas cinco anos para a revolução e o tempo urgia rápido. António Calvário mantinha a postura aprumada: cabelo alinhado, lenço na lapela e impecáveis fato e nó da gravata. E seguiram-se esses cinco anos de Calvário: de circos, boîtes e salas menores – para aliviar o prejuízo que fora a aventura no cinema em nome próprio. Cinco anos bastariam para saldar o passivo, mas não para perdurar como uma grande vedeta nos anos que se seguiram.

O rival de Artur Garcia na Plateia e Flama nos anos 60 e 70, conotado injustamente com um regime caduco e conservador, lutou para se manter à tona do establishment que foi o Portugal a partir de 1974. Tinha duas alternativas: ou se vergava ao status quo ou prosseguia o seu trilho de consenso daquilo que fora a sua matriz. E como António Calvário já provara que não era homem a quem corria água choca nas veias, optou por se manter fiel a si, ao seu público, ao seu repertório. Nos Estados Unidos, a sua carreira seria semelhante à de Neil Diamond ou de Kenny Rogers. Sentar-se-ia em aviões privados e em limusines. Em Portugal apenas enche salões, mas continua a ter público fiel. Continua a ser António Calvário, o grande artista português de uma época da qual o seu público ainda tem saudades e não se restabeleceu do seu fim.

Senhor,
Eu errei mas na vida encontrei a lição.
Senhor,
Eu te imploro, senhor, ó meu deus
Não te esqueças da minha oração!

Ouvir também: Mocidade, mocidade (1978), êxito de uma revista do ABC (já demolido), Põe-te na bicha, com Florbela Queirós, Octávio Matos, Vera Mónica e Herman José. 900.000 espectadores a reavivarem António Calvário, depois de um intervalo de três anos dos grandes palcos.

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