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Morphine em 1994: Billy Conway, Mark Sandman, Dana Colley

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Rebobinanços #7: “Yes”, dos Morphine (1995)

Eram diferentes de tudo o que veio antes. Foi uma revolução musical. Mark Sandman, Dana Colley e Jerome Deupree (depois, Billy Conway) derrubaram todos os muros e convenções do seu tempo e atalharam para um som totalmente novo. Foi um salto sem paraquedas. Uma banda rara e incomparável. Os Morphine no sétimo 'rebobinanço', um olhar sobre álbuns que deixaram a sua marca

David Alves

David Alves

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Mark Sandman (voz e baixo) juntou-se inicialmente a Dana Colley (saxofone) em 1989 para formar os Morphine. Pouco depois entra Jerome Deupree (bateria), o elemento que fecharia a formação. Mais tarde, Deupree seria substituído por Billy Conway devido a problemas de saúde. (Conway tinha sido colega de Sandman numa outra formação que ambos tiveram, os Treat Her Right, curta aventura começada em 1984, ainda assim com três álbuns de blues rock muito agradável)

O álbum de que hoje falamos é o terceiro da discografia da banda. "Yes" foi lançado em 1995 já com o grupo a possuir um estatuto bastante elevado entre os fãs por todo o mundo. Só o segundo disco, "Cure For Pain" (1993), vendeu mais de 300.000 cópias, prova da força musical que a banda adquiriu com mérito.

'Radar', o primeiro tema, fala de como é fácil penetrar numa armadura por melhor que esta seja. Mesmo com os alarmes mais modernos e avançados, é falível a proteção. Tem uma letra bastante introspectiva e acredito que tenha um significado muito mais profundo do que aquele que é mostrado. Há muito mais nas entrelinhas do que se vê à primeira vista.

Sandman escreveu todos os temas do disco, bastante irónicos. Era um letrista exímio, mas não era apenas por isso que se afirmava como o músico único: era também um vocalista e baixista fabuloso. Era virtuoso? Não. Mas o groove era a sua grande arma. O saber encaixar nos espaços vazios com sensibilidade. Espelho disso é 'Whisper', tremendamente tensa na sua composição rítmica. Imensamente sensual. Há todo um jogo de sedução. Há olhares distantes. Há beleza divinal num vestido azul: "o que aqui importa realmente é que me sussurres o teu número para acabarmos isto num outro lugar qualquer".

Ainda na senda da tensão musical temos um dos grandes temas do disco: 'Super Sex', também com uma atmosfera misteriosa. Uma cadência lírica perfeitíssima. Tudo encaixa no seu perfeito lugar. Táxis, hotéis, whisky, cigarros, discotecas, rock and roll e, mais importante, tu: "You are a super ultra maxi mega super funkie love baby". Maravilhoso.

'Scratch' foca-se na temática eterna de começar de novo. É o seu grande mote: "um dia já estive no topo do mundo, mas agora estou só a pagar pelo meu passado. Perdi tudo o que tinha. A vida continua. A dura realidade". Enquanto se recomeça e não se recomeça, Colley encaixa um solo absolutamente vital no pulsar do tema.

Falando em constantes recomeços, Sandman, ele próprio, o fez várias vezes. Foi taxista, trabalhou numa embarcação de pesca no Alasca. No fim, tudo acabou por influenciar as suas letras e o seu som.

Há neste álbum dois temas mais experimentais. 'The Jury' e 'Sharks'. Tanto na letra como na música, representam o explorar de novos territórios para a banda. A mensagem é muito abstrata e o som muito desconstruído. São temas arrojados, nesse sentido. Aqui os Morphine arriscaram. Funcionou bem.

Apresentarem-se sem guitarra foi um ato de coragem. Desafiador. Muito mais para quem fundia jazz, blues, funk, punk... Os Morphine estavam à frente do seu tempo, apesar de estarmos sem eles há vinte anos.

'Free Love' conduz-nos a uma velha questão. "O que é o amor livre?", pergunta Sandman no início do tema. É arrastado. Sofrido. Pesado. Depressivo. É um verdadeiro ensaio acerca do que são relações sem compromisso. "Não apostes nisso", ouve-se. O amor é caro. Tanto mais quando se é deixado por outro amor livre.

Esta temática leva-nos diretamente ao tema mais bonito e sentido de todo o disco, 'Gone For Good'. É também aquele que se demarca de todo o restante álbum. É apenas voz e guitarra (sim, uma exceção), apenas de Mark Sandman. É melódico e melancólico. As separações são duras e neste caso é duríssima. É um baixar totalmente os braços. Perder totalmente a esperança e desistir, uma das sensações mais angustiantes que se pode experienciar. O autor é obrigado a conformar-se com a solidão. Nunca mais irá ver a pessoa amada. Nunca mais irá ver a sua fotografia. Nunca mais estarão juntos. Os momentos que viveram acabaram para sempre. E para sempre é muito tempo. "Life is very short, you don't love me anymore (...) You're gone for good". Sandman oferece-nos aqui uma letra lindíssima sobre uma realidade muito cruel. É uma canção muito bem escrita e sublimemente tocada.

O tema que dá nome ao álbum fala de incertezas e indecisões. A firmeza no que se quer e como se quer é imperativo. Não há espaço na vida para hesitações. As discussões fazem naturalmente parte da vida e os casais discutem: isso mesmo é descrito em 'All Your Way'. O objetivo é que tudo seja ultrapassado, mas também na ficção desta letra a realidade é bem espelhada nos pensamentos de Sandman: a ironia que é a mulher que consegue levar sempre a dela avante, sempre do jeito que ela quer. É uma letra muito refinada, muito perfumada. O autor mais uma vez a expor as suas vivências.

Outro dos pontos altos é 'I Had My Chance'. Balada arrepiante. A combinação entre a voz e o baixo de Sandman é perfeita. Colley brinda-nos com uma linha de saxofone macia, aveludada, mas ao mesmo tempo maliciosa e provocadora. É vital referir que Sandman tocava com um baixo de duas cordas: na verdade, "tudo o que você precisa é de uma corda. Ter duas é só uma extravagância minha". Colley, precisamente neste disco, fundiu dois saxofones num só. Agarrou num barítono e num tenor e soldou-os apenas com um bocal. É desse facto que vem este som pesado e rasgado do disco. Para fechar, a bateria de Conway que lança ainda mais combustível no tema - embora de forma cavalheiresca, pautada pela simplicidade - para o tango apimentado dos restantes elementos. Liricamente, fala-se de oportunidades que se perdem na vida, com a convicção de que se outras oportunidades surgirem não irão ser desperdiçadas de novo. Na verdade, a banda não perdeu aqui uma oportunidade de fazer um grande disco - não há contudo um único dos cinco lançados que possa dizer que não gosto; cada um, à sua maneira, trouxe elementos sempre novos ao som da banda.

De forma trágica, Mark Sandman faleceu no dia 3 de Julho de 1999 em plena actuação num festival em Palestrina, perto de Roma em Itália. Sofreu um ataque cardíaco. Tinha 46 anos

De forma trágica, Mark Sandman faleceu no dia 3 de Julho de 1999 em plena actuação num festival em Palestrina, perto de Roma em Itália. Sofreu um ataque cardíaco. Tinha 46 anos

Chegamos a 'Honey White', o ponto mais alto de "Yes". O tema que imortalizou os Morphine. Tem tudo o que se quer na definição de uma grande música. Um saxofone frenético, uma letra que não dá descanso, um baterista com uma batida agressiva. É terrivelmente sublime. Vejo o tema como um protesto anti-drogas: somos colocados na posição de quem é apresentado a um retrato realista do que é ser drogado, do que é ser dealer, de todos os podres que essa vida nos assalta. De tudo o que nos tira. Do precipício em que nos lança, onde muitas vezes não há regresso. Há sempre aquele pensamento meio ingénuo de que se deixa quando se quer, mas é sabido que não é assim. Retrato fiel da triste realidade.

Os Morphine eram a banda que agradava aos fãs de vários géneros. Mesmos os mais distantes do rock alternativo que o grupo tocava. A música deles tinha esse mérito. Tinham extremo bom gosto. Ponto final.

O nome da banda advém, não do fármaco analgésico, mas sim de Morfeu. Era o Deus grego dos sonhos. Ainda hoje há muita gente a sonhar com aquele som que tomou de assalto os anos 90 e que nunca mais se foi embora. Assim eram os Morphine.

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