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Disco 2020. O sábado à noite de Jarvis Cocker vem antes do fim do mundo

25 anos depois da bola de espelhos e dos contos de alcova dos Pulp de “Different Class”, Jarvis Cocker dança a desagregação do mundo com o escapismo de sábado à noite. “Beyond the Pale” é um álbum essencial

Foi o dandy, o voyeur e o bardo da britpop, parecendo sempre que foi o comboio que fez dele seu passageiro e não o contrário. Debaixo das luzes da cool Britannia de meados da década de 90, versou o efémero com o empenho de quem nele vê algo mais do que mera sobra do que é fecundo (e o que é fecundo, alguém saberá?), cristalizando situações, anseios e pulsões em trechos musicados de três ou quatro minutos — a transitoriedade tão familiar que se julgava ser corriqueira crónica de quotidiano mas que se transmutou, com o verdete que doura os anos, em banco de memórias. Com os Pulp, Jarvis Cocker substituiu matizes e impressões por canções, adornando com arabescos sentimentais a suposta vacuidade da literatura de cordel — pessoas reais em situações reais expostas em molduras em segunda mão ou “fancaria a fingir diamantes”, cortesia de outro rei(ninho) do diletantismo. Nascido num lar revolto e, durante demasiado tempo, à deriva, Cocker nunca se vestiu com a Union Jack, nunca deixou os óculos prescritos pelo NHS, nunca despiu realmente o fato que um embaixador falido rompeu em 1969 e que, com um remendo em couro em cada cotovelo, acabou a 5 libras numa charity shop em 1987.

Em “Different Class” (1995), transformou sintomas em diagnósticos, suspeitas em delito, fluidos em transe. O perfeito amor da infância visto pelo desencanto do adulto que viveu, desde então, “on that damp and lonely Thursday years ago”: eis ‘Disco 2000’. O desencontro de aspirações entre o universitário que não tem um tostão furado e a filha do diplomata grego que vê nessa penúria o charme a soldo da gente comum (“vamos brincar aos pobrezinhos?”): eis ‘Common People’. A canção sobre a canção, a perfeição meta, aquela esquina entre a ingenuidade do diário de colegial e a maturidade do epicurista (ou, nas palavras imortais de um satisfeito comentador no YouTube, “como se David Bowie e Roy Orbison tivessem um filho e o ensinassem a compor canções”): eis ‘Something Changed’. A vontade irreprimível ‘dele’ em vislumbrar o corpo ‘dela’ em roupa interior (‘Underwear’), aquele sítio no Soho onde a noite vai morrer e nós vamos voltar a viver (‘Bar Italia’), a vitória dos desalinhados sem armas ou bombas (‘Mis-Shapes’) — 52 minutos e 50 segundos galantemente ilustrados com uma foto de um casamento onde alguém (uma banda pop, porque não?) se intromete como fantasma do futuro.