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Lauryn Hill

Victor Boyko/Getty

Lauryn Hill reage a relatos de maus tratos da filha. “Se sou culpada de alguma coisa, é de disciplinar pela força, não de disciplinar”

Lauryn Hill escreveu longa resposta ao relato que a sua filha mais velha fez recentemente, dando conta da violência com que a mãe a tratou na infância. “Por vezes a fama e o dinheiro amplificam as qualidades mais negras, cruéis e egoístas dos humanos”, diz a cantora

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Lauryn Hill escreveu uma longa publicação no Facebook, respondendo às acusações feitas pela sua filha mais velha, Selah, que recentemente partilhou que a mãe lhe batia na infância.

“A Selah tem todo o direito a expressar-se. Mas recebeu a disciplina que as crianças negras recebem, porque somos avaliados por um padrão diferente. Essa disciplina foi vista pela lente de uma criança que não conseguia conciliar os meus papéis como mãe e grande figura pública. Demorei algum tempo a perceber que os meus filhos e provavelmente toda a gente que me conhecia olhavam para mim nesta dualidade. Para mim, eu sou apenas eu. Se sou culpada de alguma coisa é de disciplinar pela força, não de disciplinar”, defende a cantora.

“O veneno tóxico que ingeri por me manter fiel aos meus princípios e confrontar o racismo sistémico muito antes de isso ser comum - as pessoas que me chamavam maluca e ainda não me pediram desculpa. Claro que isso se infiltrou em minha casa, tinha de infiltrar. [Fui vítima] de toda uma operação para quebrar uma artista que tinha voz e conhecimento de si mesma - muito à frente do seu tempo. Fui afetada por isso, tal como a minha família e os meus filhos”, reconhece.

“Quando eu percebi que a pressão de que era alvo era tão hipócrita e injusta, até criminosa, que nem os meus filhos podiam ser crianças, afastei-me. Não fui afastada, afastei-me”, escreve Lauryn Hill. “Basta vender uns milhões de cópias de um disco para aparecerem logo os lobos e os tubarões. O perigo era real! E eu enfrentei-o sozinha, sem apoio e abandonada pelas mesmas pessoas que poucos anos antes tinham construído uma fortuna com base nos talentos que mais tarde tentaram negar e depois copiaram”.

“Toda a vida tenho protegido os meus filhos de todo o tipo de perigo e isso só é possível quando nos protegemos a nós, também”, garante Lauryn Hill, acrescentando que a filha mais velha está “a tentar contextualizar a sua infância e tem direito a fazê-lo. Nós conversámos com frequência e ela sabe que estamos ambas a tentar resolver os nossos problemas - a exploração, o abandono, os maus-tratos e o silenciamento dos nossos talentos e da nossa inteligência, para torná-las mais confortáveis para os outros, o que é um grande erro e só pode levar à implosão ou à explosão”.

“Todos odiamos abusos e exploração, mas por vezes podemos tornar-nos no abusador ou explorador”, admite Lauryn Hill. “Se acreditam que o dinheiro simplifica a vida e resolve todos os problemas, olhem para os exemplos de Amy Winehouse, Whitney Houston e Bobbi Kristina Brown, Prince, Michael Jackson, Sam Cooke, Kurt Cobain, Marvin Gaye, Biggie Smalls, Tupac Shakur, Lil Peep...”, argumenta.

“Por vezes a fama e o dinheiro amplificam os problemas e as qualidades mais negras, cruéis e egoístas dos humanos. Ganância, ciúme, inveja, cobiça, violência, medo”, diz ainda Lauryn Hill.