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Nick Cave: “O politicamente correto tornou-se a religião mais infeliz do mundo”

Para Nick Cave, o que começou como uma tentativa válida de tornar o mundo mais justo acabou por descambar. Um texto sobre 'cancel culture' e misericórdia

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Nick Cave criticou a ideia de “politicamente correto”, comparando-a aos piores aspetos de uma religião.

Respondendo a duas perguntas de fãs - “O que é a misericórdia para si?” e “O que pensa da cancel culture?” -, o australiano articula a comparação.

“A misericórdia é um valor que devia estar no cerne de qualquer sociedade funcional e tolerante. A misericórdia reconhece que somos todos imperfeitos e, ao fazê-lo, permite-nos respirar e sentir-nos protegidos. Sem misericórdia, uma sociedade perde a sua alma e devora-se a si mesma”.

“Contudo, a misericórdia não é um dado adquirido. É um valor que temos de alimentar e procurar”, afirma, defendendo a importância de “cometer erros, corrigi-los, ousar duvidar e, pelo caminho, descobrir ideias novas e mais avançadas. Sem misericórdia, a sociedade torna-se inflexível, medrosa, vingativa e sem sentido de humor”.

Sobre a “cancel culture”, ou seja, a negação da validade da obra de um artista reprovado pelos seus atos ou opiniões, Nick Cave acredita que é “a antítese da misericórdia. O politicamente correto tornou-se a religião mais infeliz do mundo. Em tempos uma tentativa meritória de reimaginar a nossa sociedade de forma mais justa, agora apresenta todos os piores aspetos que a religião tem para oferecer, e nenhuma da sua beleza - [cheia de] certezas morais e de uma arrogância acima de qualquer capacidade de redenção. Tornou-se numa má religião fora de controlo”.

“A recusa da cancel culture em lidar com ideias desconfortáveis tem um efeito asfixiante na alma criativa de uma sociedade. A compaixão é a experiência primária da qual emergem o génio e a generosidade da imaginação. A criatividade é um ato de amor que pode chocar com as nossas crenças mais importantes, assim gerando novas formas de ver o mundo. Essa é a função e a glória das artes e das ideias. Uma força que encontra o seu significado no cancelamento dessas ideias difíceis trava o espírito criativo da sociedade”.

“No entanto, cá estamos, numa cultura de transição - e é possível que estejamos a caminho de uma sociedade mais equalitária - não sei. Mas de que valores essenciais abriremos mão nesse processo?”.

Pode ler a resposta completa de Nick Cave aqui.