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Rebobinanços #5: “Rum Sodomy & the Lash”, dos Pogues (1985)

Deixa-se um bom bocado de tragédia a marinar de véspera. Tempera-se o tabuleiro com uma pitada de Churchill. Cobre-se bem com cultura celta. Barra-se com punk q.b. e junta-se Elvis Costello, Shane MacGowan e o resto da malta. Mais um fio de má vida. Rega-se com alguma prostituição e passados mal resolvidos. Aquece-se previamente o forno com alguns fora da lei. Salpica-se com muitas noites boémias. Adicionam-se canais, pontes e outros sítios absolutamente fedorentos. Por fim, acompanha-se com cerveja, rum e muito, muito uísque. A receita do quinto 'rebobinanço', um olhar sobre álbuns que deixaram a sua marca

David Alves

David Alves

Editor de imagem

Tudo começou numa casa de banho no Roundhouse em 1977, a mítica sala de espetáculos londrina. Shane MacGowan e Peter "Spider" Stacy, o homem do apito, conheceram-se aí num concerto de Ramones. Decidiram, então, formar uma banda de seu nome Pogue Mahone. O problema é que traduzido do gaélico irlandês queria dizer "kiss my arse". Não é necessária tradução. Mudaram o nome devido à pressão que a BBC lhes fez após receber várias queixas de ouvintes escoceses. Outros tempos.

Saltemos para 1985. “Run Sodomy & the Lash” é um disco extremamente sólido. Há um enorme salto qualitativo nas letras comparativamente ao seu antecessor, "Red Roses For Me", de 1984. Há algo transversal em todo o disco. O assunto anda sempre à volta de bebida. Muita bebida, morte ou outro tipo qualquer de tragédia. "The Sick Bed of Cuchulainn" é um bom exemplo disso. O narrador desta história combateu em Espanha contra os fascistas de Franco, os "fucking blackshirt", em plena guerra civil. Depois da guerra, o mesmo torna-se alcoólico. Deixou as suas sequelas.

MacGowan, enquanto jovem, passou muito tempo num pub que o tio geria. Confessou que se inspirou em muitos falhados que por lá passaram para depois contar as suas estórias nas letras que escrevia. A vida do narrador deste tema é comparada à do herói mitológico irlandês Cuchulainn pela bravura. Este, no fim do seu tempo, já enfraquecido, amarra-se a uma rocha para morrer de pé. Foi decapitado já após a morte. Mas, nesta música, volta a colocar a cabeça no lugar e grita "Vamos a mais uma rodada".

Uma das melhores facetas da escrita de Shane é a mescla genial de realidade com ficção e fatalismo. A desventuras de um rapaz de 16 anos são cruelmente dilaceradas em "The Old Main Drag". Chega a Londres em busca de uma vida melhor, mas acaba a prostituir-se na antiga rua principal. Tal como tantos outros, homens e mulheres, termina a aventura neste triste fim. São os velhos com dinheiro que o procuram. Nada mais decadente. Prostitui-se por meia dúzia de tostões. Há muita miséria. Bebe-se muito para esquecer. Faz-se tudo por dinheiro. Certo dia, o jovem rapaz é apanhado pela polícia. É violentamente espancado. Sente-se violado e a morrer. Na verdade, ele só queria algum dinheiro para deixar aquela vida. Todos os ingredientes para uma grande música punk.

O único instrumental do álbum é o enorme "Wild Cats of Kilkenny". Mas até aqui o mote é a morte, como frisou Peter Stacy, certo dia, numa entrevista de promoção do "Rum, Sodomy and the Lash".

Contra-corrente é "I'm a Man You Don't Meet Every Day". Não é negativo. Não é pessimista. É até bastante leve e com uma mensagem bastante inspiradora. Jack Stewart é um homem de fácil trato. Generoso. Abastado. Tem hectares de terra. Muitos funcionários. Ele só quer companhia para beber conhaque e vinho. Só pede que quem o quiser fazer com ele o faça livremente, já que ele é um homem invulgar que não se encontra com facilidade. De referir a maravilhosa linha de baixo que Cait O'Riordan imprime nesta música. É ela também que empresta a sua belíssima voz a este tema tradicional. Acabaria por casar com Elvis Costello em 1986, um ano após o lançamento deste disco.

Costello foi o produtor deste trabalho. Na verdade, era o segundo disco que produzia. O primeiro foi a estreia dos Specials, o homónimo de 1979. De acordo com Shane MacGowan, foi uma simbiose perfeita entre todos. Respeitavam-se muito e discutiam com muita elevação as ideias uns dos outros Saiu uma obra-prima.

Ewan MacColl escrevera em 1949 "Dirty Old Town". A canção iria ganhar todo um novo peso e um novo impulso com os Pogues. O autor confessou que não tinha gostado do cover feito por estes rapazes, mas rendeu-se. Ainda mais quando a filha Kirsty gravou o tema "Fairytale of New York" com a banda. Tornou-se uma das mais marcantes da carreira dos Pogues, lançada que foi em 1988 em "If I Should Fall From Grace With God". A título de curiosidade, a versão dos Pogues tornou-se o hino do clube de futebol inglês Saltford City FC, ouvido sempre que a equipa entra em campo.

Já fora de campo, na área dos fora da lei, temos o lendário Jesse James. Também é lembrado neste disco, precisamente no tema com o mesmo nome. Este bandido americano foi traído por Robert Ford. O mesmo era membro do gangue de James. Matou-o covardemente pelas costas. Tudo pela recompensa. Uns vivem a vida toda de joelhos, outros morrem de pé. Será sempre assim.

O título do álbum foi parcialmente retirado da frase de Winston Churchill "Don't talk to me about naval tradition. It's nothing but rum, sodomy, and the lash". A própria capa foi também ela uma reinvenção, tendo por base a "Balsa das Medusas" de Jean-Louis-André-Théodore Géricault. de 1819. A banda retirou alguns rostos pintados no original e substituiu-os pelos seus próprios retratos. Genial. É uma ideia simples? É. Mas de um sentido de humor apuradíssimo.

A classe operária. Os verdadeiros trabalhadores não foram esquecidos neste disco. O tema "Navigator" é um hino a todos aqueles que davam o seu esforço, o seu suor e muitas vezes a própria vida para construir as pontes, os canais e os caminhos de ferro que fariam avançar as economias das nações.

Quantas vezes não ouviu já a história batida do rapaz que engravida a moça e depois diz que não é nada com ele? Pois é. É precisamente isso que é relatado no tema "The Gentleman Soldier". Apenas por diversão acaba por engravidar uma rapariga. Ela apaixona-se, pergunta-lhe se ele casa com ela. Ele, que só queria passar uns bons momentos, nega-lhe o pedido. Diz-lhe que já é casado e que tem três filhos. Ela passa pela vergonha de ser mãe solteira muito pela pressão dos pais e da própria sociedade. Ele parte para a guerra.

A guerra é, como o caro leitor já se apercebeu, um tema bastante presente neste álbum. Talvez por isso, a festa de lançamento do "Rum, Sodomy and the Lash", tenha sido feita no HMS Belfast, emblemático navio que combateu durante a II Grande Guerra. Hoje, é um navio museu da marinha real britânica, em Londres desde 1 de março de 1978. Reza a história que não foi boa ideia a realização de tal evento neste navio. Houve um enorme excesso de bebida e o comportamento dos convidados e músicos presentes não foi o mais adequado para o local. E quem tivesse acabado a tomar banho no Tamisa, entre outras perversidades.

Continuando com o tema bélico, temos "Billy's Bones" e a "And The Band Played Waltzing Matilda". Na primeira, Billy parte para a guerra numa missão de paz. Por lá morre, como tantos outros. Nasce numa segunda-feira. Casa na terça. Embebeda-se na quarta. Cura a ressaca na quinta. Sexta-Feira adoece. Morre no sábado e é enterrado no domingo. É simples a vida de Billy. Na segunda, é relatada a história de um soldado que se vê privado das suas pernas durante a I Grande Guerra. O sentimento de impotência que este sente à medida que os anos passam é enorme. A revolta que sente pelo facto de as gerações mais novas não quererem saber do passado destes veteranos é desoladora. Recorda este soldado que o povo se aglomerava para ver partir os combatentes com vivas, lenços e bandeiras. Mas, quando regressavam, muitos gravemente feridos, já ninguém queria saber deles. O povo desviava o olhar e virava-lhe as costas.

O primeiro single deste trabalho é a letra mais apurada de todo o alinhamento. "A Pair of Brown Eyes" conta que, numa certa noite de Verão, um jovem altamente alcoolizado estava num bar onde um velho lhe debitava a história da sua vida - ouvia-se Jonnhy Cash na jukebox. No meio do turbilhão ébrio em que se encontra, percebe que há um par de olhos castanhos a olhar para ele. Há um velho que não esquece o passado e há um jovem que lida muito mal com o presente. O jovem diz que não precisa do inferno de mais ninguém quando se cansa de ouvir o idoso. Este, por sua vez, diz ao rapaz quando este se lamenta dos desgostos de amor: "O que raio sabes tu sobre a dor?". No fim, o jovem, sai do bar em busca do tal par de olhos castanhos.

Por fim, a minha canção de Pogues preferida. A rainha de todas as rainhas celtas. A brilhante "Sally MacLennane". Para não criar já grande ilusão deixe-me que lhe diga que esta música não é sobre qualquer donzela prendada, mas sim, sobre um tipo de cerveja. É verdade: "Sally MacLennane" é uma cerveja.

Conta a história de Jimmy, um jovem que se cansa da vida boémia que levava no sítio onde vivia e decide partir para outras paragens maiores. Os amigos vão despedir-se dele à estação. Vão animados. Eles sabem que um dia ele volta para junto deles. E, na verdade, ele quer voltar pelos amigos e pela Sally. Os anos vão passando e as coisas vão esmorecendo. O velho grupo vai-se afastando. Agora, o grupo já não vai à estação acompanhar quem quer que seja. Vai, ao invés, ao cemitério com os que vão morrendo. Jimmy volta, mas já todos partiram. Deprimido, bebe até morrer. A verdade é que, apesar de o tema ser sobre separações e morte, ostenta uma mensagem fortíssima. É sobre o poder da amizade e da união. No fim, todos irão reencontrar-se seja onde for.

Disse um dia Tom Waits acerca dos Pogues: "A música deles é como o conhaque dos condenados (...) E eles partem sempre no comboio das 2h10 sem bilhete".

Bons rebobinanços.

Quem não se lembra de ir com o walkman para todo o lado? E da desilusão que sentia quando acabavam as pilhas e era preciso ir à loja comprar novas? Pior era quando a fita da cassete ficava presa. Safava a velhinha Bic...

É sobre a música desses tempos, feita sem os meios tecnológicos dos dias de hoje, que se escreverá por aqui. Tempos em que as bandas iam para estúdio e os músicos gravavam todos juntos e, numa semana apenas, tinham o disco feito. Em que os engenheiros de som se reinventavam a cada disco, em que tudo era novidade.

Semanalmente, vamos ao baú buscar os álbuns que o demonstram. Já a sentir a nostalgia? Então vamos lá rebobinar.