Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

Kanye West

Hey Mr. West, ainda temos motivos para gostar de si? 9 boas razões para não 'cancelarmos' Kanye

Fará sentido continuar a apreciar a arte, ainda que a pessoa por trás do artista seja intolerável? Ele é a estrela que todos gostam de odiar, uma espécie de piñata cultural - e muitas vezes, convenhamos, não ajuda. Mas há boas razões para tirarmos o chapéu a Kanye Omari West, 43 anos 'maiores que a vida' e um percurso inigualável na música (e não só...) das duas últimas décadas. Algumas não serão, inclusive, as mais óbvias

Se inscrevermos as palavras “Kanye West is Running for President” no nosso motor de busca preferido, iremos obter links para artigos da Forbes, CNN, New York Times, Sky, New Yorker, ABC, Billboard, BBC, Harpers Bazaar ou Fortune... E isso é sinal da dimensão do autoproclamado Yeezus, alguém maior do que a vida, que se impôs através da música, mas que há muito se afirmou como uma figura de relevância cultural muito mais ampla do que o estatuto de “estrela pop global” poderia justificar. Kanye habita solitariamente um universo paralelo, só dele, onde as leis que nos regem a nós comuns mortais – as que orientam a sociedade política, a moral, as leis que ditam as dinâmicas da cultura pop, na verdade até as leis que sustentam a física!! – não têm vigência.

Por tudo isso, Kanye tornou-se numa espécie de “piñata cultural” dos tempos modernos, o tipo que está suspenso sobre as nossas cabeças, em que batemos com um pau de olhos fechados até que ele se quebre e nos arrebate a todos com uma chuva de doces. E é tão fácil bater em Kanye West: quando ele insulta Taylor Swift, quando tem uma crise e ataca publicamente Jay-Z e Beyoncé e o resto do planeta, quando se revela o maior apoiante de Donald Trump e até o “Maga cap” adopta como acessório de moda... Quando, enfim, anuncia que está na corrida para a Casa Branca.

Como já deu para perceber, com o aparente desmoronamento público do casamento de Kanye West com Kim Kardashian a decorrer diante dos nossos olhos, em media de todas as cores (e não apenas cor de rosa...) e em tempo real, o rapper/candidato/homem de negócios/figura mediática tem sérios problemas mentais. De acordo com Kim, o seu marido sofre de transtorno bipolar, condição que lhe terá sido diagnosticada em 2016, portanto o caso não é propriamente matéria para piadas, antes um necessário caso de estudo, no limite, ou, pelo menos, um assunto que pede a nossa compreensão. Sobretudo a dos fãs, que se debatem com a eterna questão com que qualquer semi-Deus pop é confrontado quando expõe a sua mais terrível fraqueza (um pequeno detalhe chamado “a sua própria humanidade”): “fará sentido continuar a apreciar a arte ainda que a pessoa por trás do artista seja horrível?”

Como é óbvio, cada pessoa, cada fã, terá que encontrar a sua própria plataforma filosófica ou moral para lidar com estas complexas questões, mas, e atentando ao caso específico do homem que ainda recentemente nos deu uma poderosíssima “Wash Us In The Blood”, sacrificá-lo no altar da lógica, fazer uma fogueira com todos os seus CDs e arrancar os posters das paredes da nossa imaginação é capaz de ser precipitado.

Sem mais demoras, 9 razões para não cancelarmos já o senhor West.

1. Os Discos

Para nos recentrarmos no mais importante: depois de se estrear com The College Dropout, em 2004, Kanye lançou, na meia dúzia de anos seguinte, a extraordinária sequência Late Registration, Graduation, 808s & Heartbreak e My Beautiful Dark Twisted Fantasy. Depois uniu forças com Jay-Z em Watch The Throne (2011) e, ao longo da última década, aquela em que foi revelando crescentes problemas e desequilíbrios, ainda assinou Yeezus (2013), The Life of Pablo (2016), Ye (2018) e Jesus is King (2019) e tudo indica que há mais a caminho. Fez ainda o projecto Kids See Ghosts com Kid Cudi. E de todos os álbuns atrás listados extraiu mais de meia centena de singles em nome próprio, tendo colocado 4 deles no lugar cimeiro da tabela de vendas da Billboard. É aliás o oitavo artista com mais vendas digitais de singles da história. Feitos invejáveis que o atestam como incontornável figura pop dos nossos tempos, autor de inúmeros bangers que o afirmam também como voz de toda uma geração. Se calhar até de mais do que uma... E agora vem aí novo disco. A julgar pelo já mencionado “Wash us In The Blood” até poderá ser que Donda – poderá ser esse o título... – seja uma incrível surpresa, tendo em conta tudo o resto que se passa na sua vida.

2. As Produções

O currículo de produtor de Kanye West não tem paralelo: Jermaine Dupri e Nas, Beanie Siegel e Jay-Z, Scarface, Talib Kweli, Beyoncé, Alicia Keys, Dilated Peoples, Monica, Ludacris, DMX, Royce da 5’9”, John Legend, Mary J. Blige, Janet Jackson, Slum Village, Mos Def, Mobb Deep, Freddie Gibbs, J. Cole, Snoop Dogg, Common, The Game, Drake, 2Chainz, Pusha T, Big Sean, Rihanna, Travis Scott, Madonna, Vic Mensa, A$AP Rocky, The Weeknd, Sia, Chance The Rapper, Migos, Francis and The Lights... É impressionante a lista de gigantes que exigiu contar com o toque de Midas de Kanye, um criativo incansável que constantemente desbrava novos caminhos estéticos e se desafia a manter-se relevante de cada vez que a música experimenta novas ideias, novas ferramentas, novos sons. Um dia, o senhor West garantiu que não fazia hip hop, antes Pop Art. E é bem capaz de ter razão.

3. A Moda

Ambicioso, como todos os génios, Kanye West fez saber muito cedo que não iria quedar-se pela música. Para ele, a pop é um terreno imenso, com muitas facetas, e ele não vê razões para se limitar. E por isso mesmo a Moda tem sido um dos campos, para lá da música, em que se tem mostrado mais activo, e até com considerável sucesso, ao longo dos anos. Criou os icónicos e ultra-desejados Yeezys em colaboração com a Nike, primeiro, e com a Adidas, depois, afirmando uma linha de sapatilhas que causa suores frios nos mais obsessivos “sneakerheads” do planeta. Mas essa está longe de ser a única aventura de Kanye no mundo da moda, tendo ele já colaborado com marcas como a Louis Vuitton, Fendi, M/M Paris e outras do universo da alta costura.

4. Os Negócios

Logo nos alvores da sua carreira como artista em nome próprio, Kanye entendeu que não podia ser um actor passivo no agitado palco da indústria discográfica tendo logo aí estabelecido a sua própria companhia, a GOOD Music. O seu interesse em ter uma palavra a dizer nos destinos da indústria musical aprofundou-se quando se tornou num dos investidores na Tidal, o serviço de streaming que tem ao leme Jay-Z. Uma das suas lutas tem sido pela justa recompensa dos artistas, sendo uma das vozes críticas das práticas compensatórias de serviços como o Spotify. Em 2018, Kanye fez saber, em entrevista à Fader, que estava a pensar abrir uma fábrica de automóveis em Chicago, com criativos que tinham estado ligados à Tesla. Objectivo: criar carros voadores. Podem rir-se agora, mas daqui a uns poderão bem estar a pensar algo como “e não é que o tipo conseguiu mesmo tocar no céu”...

5. A Filantropia

Sim, Kanye ganha muito dinheiro. Mas também tem gasto generosamente, e não apenas consigo. Desde cedo envolvido em projectos comunitários na sua Chicago natal, nomeadamente através da Fundação que operou, como homenagem à sua mãe, até 2011, tendo dessa forma apoiado variados programas de literacia e educação. Ao longo dos anos, Kanye também cedeu o seu tempo, energia e talento tendo aparecido em inúmeros concertos beneficientes, por exemplo para angariar fundos para as vítimas do furacão Katrina, que arrasou Nova Orleães e que o levou famosamente a declarar, face à inépcia da ajuda governamental num primeiro momento, “Bush don’t care about black people”. Mais recentemente, Kanye doou 10 milhões de dólares para ajudar no projecto Roden Crater do artista James Turrell, e, no passado mês de Junho, doou 2 milhões às famílias de George Floyd, Ahmaud Arbery e Breonna Taylor com o intuito de os ajudar a cobrir custos judiciais nos seus processos anti-brutalidade policial e ainda para assegurar os fundos necessários para que a filha de George Floyd possa ingressar na universidade.

6. A Influência

Nos domínios da pop, a grandeza de algumas visões mede-se pela sua capacidade de criar descendência. E se há coisa que Kanye West pode reclamar é uma vasta prole: a sua música foi estudada, dissecada e apropriada por muitos dos artistas que hoje comandam os destinos da pop. Drake e Travis Scott são casos óbvios, mas ao longo dos anos gente tão diversa quanto James Blake, Justin Vernon, The Weeknd, Kevin Parker, Rosalía, MGMT, Christine and the Queens ou até os Arctic Monkeys confessaram a sua profunda admiração pela particular arte de Kanye West. O que não deixa de ser algo irónico, quando alguns dos maiores símbolos do universo “indie” não escondem, afinal de contas, o fascínio por um dos maiores artistas pop do planeta...

7. Os Problemas

Uma das formas mais benignas de olhar para os problemas de Kanye West será a que nos permita entender que os seus colapsos na esfera pública ajudam pelo menos a chamar a atenção para a tantas vezes silenciada questão das doenças do foro mental. O próprio Kanye não se desvia desses problemas na sua arte e em várias das suas canções abordou, por exemplo, as suas tendências suicidas de forma muito directa, como aconteceu em “I Thought About Killing You”, do álbum Ye. Há cerca de uma semana, a sua mulher, Kim Kardashian, através do Instagram, também colocou tudo em dramática perspectiva: “Como muitos de vocês sabem, Kanye sofre de transtorno bipolar. Quem tem isto ou tem alguma pessoa amada na sua vida que tenha, sabe o quão incrivelmente complicado e doloroso é para entender algo assim”.

8. Os Prémios

A lista de prémios que Kanye West acumulou ao longo da sua carreira é impressionante e justamente extensa, sendo condizente com os elevados patamares artísticos que alcançou em década e meia de carreira discográfica em nome próprio. Não há galardão significativo ligado ao complexo ecossistema da indústria musical que não lhe tenha sido agraciado, com instituições como a Billboard, a BET, a MTV, a NAACP, Soul Train, publicações como a People, Smash Hits, Q, Vibe, Glamour ou XXL a serem unânimes no reconhecimento do talento e da capacidade de desbravar terreno que Kanye demonstrou possuir ao longo dos anos. Só dos Grammys, Kanye há-de ter, espalhadas pelas suas diferentes casas, 21 estatuetas. É obra!

9. A Lista Telefónica

Kanye West tem uma incrível lista de contactos, é alguém que fala com as elites criativas e até políticas, de Mark Zuckerberg a Elon Musk, de Obama a... bem... Donald Trump, e se tal acontece é porque todos percebem que o rapper tem de facto algo a dizer. Em 2015, o patrão da Tesla, escreveu sobre West para a lista da Time das 100 pessoas mais influentes do planeta: “O Kanye seria a primeira pessoa a dizer que tem lugar numa lista assim. O tipo não acredita em falsas modéstias, e não devia. A crença de Kanye em si mesmo e a sua incrível tenacidade”, garantia então o empresário, “trouxe-o até onde se encontra hoje. E ele lutou pelo seu lugar no panteão cultural com um propósito”. O homem forte da SpaceX garante ainda: “Kanye pensa. Constantemente. Sobre tudo. E ele quer que todos façam o mesmo: que se liguem, questionem, forcem os limites. E agora que ele é um fenómeno da cultura pop, ele tem a plataforma para alcançar isso mesmo”.