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Patti Smith, “Horses”

Rebobinanços #4: “Horses”, de Patti Smith (1975)

Isto não é rock de saltos altos. Isto é rock com os pés bem assentes no chão. É duro, é cru. É a mensagem que se eleva acima de toda a estética convencional. É o não ter medo de ir mais além. Bem-vindos ao mundo de Patti Smith no quarto 'rebobinanço', um olhar sobre álbuns que deixaram a sua marca

David Alves

David Alves

Editor de imagem

“Horses” vem de um tempo em que Nova Iorque estava numa ebulição cultural tremenda. Disso é espelho Patti Smith. Cantora, compositora, poetisa, fotógrafa, pintora, atriz, cronista... De facto, é algo que pesa quando entramos no mundo deste colosso do rock. Tantos mundos quantos a imaginação permite. Na verdade, tudo cabe na imaginação de Patti Smith. Exemplo disso é este disco. Há de tudo. Há poesia, há garra, há revolta. Há muita vontade de mostrar ao mundo os seus diversos mundos. Uma verdadeira infusão de poesia com rock and roll.

Disco lançado em 1975 pela mão mestra de John Cale na difícil tarefa de produção. Foi considerado por muitos um dos melhores discos de estreia de sempre. Eu incluído. Este trabalho tornou-se rapidamente num dos mais influentes na cena punk. Foi, sem dúvida, um dos álbuns que marcou a história do género e de tudo o que daí veio.

Rotulada com a poetisa do rock, Patti Smith construiu este álbum de uma forma muito peculiar. Extrema preocupação com as letras. Muitas delas guardadas há anos à espera de uns acordes que lhes dessem outro perfume. Muitíssimo pesadas. Abordam temas de que normalmente não se fala em canções:ela não se encolhe e faz frente ao fatalismo com mais fatalismo ainda.

Tudo começa com uma versão dos Them (banda do eterno Van Morrison) que de cover apenas tem a melodia e o refrão. Smith decidiu reinventar todo o tema. Toda a letra foi alterada para se enquadrar melhor no movimento punk rock. Mais intensa que o original, muito mais corrosiva, mas também mais irónica. Com um elevado cariz sexual, típico de Patti Smith. O arranque lírico marca o tema, que é também o primeiro poema escrito pela cantora. Chama-se "Oath". Fica para a história "Jesus died Jesus for somebody's sins but not mine (...) People say 'beware!' But I don't care". Maravilhoso. Um dos melhores arranques de disco, 'Gloria'.

Patti Smith conheceu um percurso bastante duro até chegar a estúdio pela primeira vez. Toda a sua vida, até então, tinha sido pautada por muitos acontecimentos negativos. Mas nunca se desviou do objetivo e vingou, como hoje se sabe. Chegou a ser apontada como vocalista dos Blue Oyster Cult, onde foi co-autora de alguns grandes êxitos da banda de Long Island, como a mítica 'Career of Evil'.

'Redondo Beach' é uma canção reggae. Tem muito groove, mas tem uma mensagem pesada. Patti Smith chegou a dizer que escreveu esta letra depois de uma discussão com a irmã que, após o conflito familiar, andou desaparecida algum tempo. Esse acontecimento marcou a cantora para a vida. A letra fala de suicídio. Fala da forma como discussões e desentendimentos podem acabar em tragédia. Fala, também, de homossexualidade feminina. Como a autora disse um dia sobre este tema: "É uma praia onde as mulheres amam outras mulheres". Não é clara a ligação entre o suicídio e a homossexualidade nesta letra, mas Smith sempre elevou a fasquia poética dos seus temas.

Como retratar o desgosto de um filho quando se depara com a morte do seu pai? Com uma letra altamente filosófica e metafórica. O filho não se conforma e não quer deixar partir o espírito do pai. Não quer desistir, mas enquanto vê o carro funerário afastar-se, apenas os pássaros o escutam no seu grito mudo. Os mesmos pássaros que habitam numa quinta que herdou do pai. 'Birdland'. O sofrimento deste filho é atroz.

É um disco muito diferente relativamente aos demais do seu tempo. Muito revolucionário para a época. As letras refletiam muitas das influências que Patti Smith foi absorvendo ao longo de anos, nomeadamente na poesia. Nomes como William Blake ou Arthur Rimbaud foram disso exemplo. O extremo fascínio por este último valeu mesmo a Smith a distinção de Comendadora da Ordem das Artes e Letras atribuída pelo governo francês em 2005.

Mas, o verdadeiro artista, aquele que completou Patti Smith em todos os sentidos, foi Robert Mapplethorpe. Considerou-o "o artista da minha vida". Foi com ele que viveu a paixão mais intensa, embora platónica. Apesar de terem vivido juntos em Nova Iorque, onde ultrapassaram muitas dificuldades financeiras, é sabido que o fotógrafo sempre se debateu com a sua sexualidade. Creio que a admiração intelectual mútua foi o que os manteve juntos. Viveram tudo. Viveram imensamente, e intensamente, tudo. A capa deste disco tem, possivelmente, uma das fotos mais marcantes da história da música, tirada precisamente por Robert Mapplethorpe.

'Free Money' relata um sonho em que tudo gira à volta do dinheiro. Alguém ganha a lotaria e, a partir daí, é só notas a girar à volta da cama. Há dinheiro por todo o lado. Há dinheiro para comprar tudo. "Oh, baby, to buy you all the things you need for free". Há para comprar aviões. Há para comprar pérolas. É um tema divertido e, ao contrário do resto do disco, não é acerca de temáticas negativas. Grande balanço imprimido pelo guitarrista Lenny Kaye.

A música de Patti Smith influenciou muitos dos músicos que se seguiram. Um dos grandes nomes foi Michael Stipe, vocalista dos norte-americanos R.E.M. Stipe chegou mesmo a referir que decidiu ser músico depois de ouvir "Horses". Em boa altura isso aconteceu.

A cantora decidiu visitar de novo os seus fantasmas em 'Kimberley'. Foi mãe muito nova, mas devido a graves problemas financeiros teve de entregar o recém-nascido para adoção. A letra fala deste episódio infeliz. É das decisões mais duras que alguma mãe tem de tomar. O desespero é algo indescritível nestes momentos.

Passamos para o tema mais hard rock de toda a obra. Para não se afastar muito das letras do restante disco é, obviamente, pesado. Alguém assiste à morte de um jovem rapaz e esse mesmo alguém quer alcançar a sua alma que voa para longe. "Break it up, oh please take me with you". Vai-te deste mundo mas leva-me contigo. É assim 'Break It Up'.

Uma das grandes influências de Smith na música foi Bob Dylan. Talvez a maior de todas. "Agarrou-se" a ele em vários momentos da sua vida. Nos bons e nos maus. Tal como num casamento de anos e anos. Foi-lhe buscar forças nos momentos tristes e inspiração na forma de escrever. Foi, sem surpresa, que o representou em Estocolmo na entrega do prémio Nobel, em 2016. Tocou 'A Hard Rain’s A-Gonna Fall'.

'Elegie' é mais um dos temas sombrios que assaltam a mente de Patti Smith. Quando a noite chega todos os mundos se desmoronam na cabeça da autora. Não sabe o que fazer. Dói-lhe a cabeça e a alma. Os tormentos surgem todos quando as memórias aparecem na escuridão.

Foi a última artista (entre centenas que lá passaram) a tocar no mítico CBGB. Foi ela que, naquela noite de 15 de Outubro de 2006, o fechou de vez. Ali se encerrou um dos capítulos mais importantes da música moderna. Ali tocaram nomes como Ramones, Talking Heads, Blondie. Ali os Damned se tornaram a primeira banda inglesa punk de sempre a tocar em solo americano. Os Cramps, os Misfits. Até Sting e os seus Police lá passaram.

Patti Smith no encerramento do CBGB, em Nova Iorque, 2006

Patti Smith no encerramento do CBGB, em Nova Iorque, 2006

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Chegamos ao cume desta montanha majestosa. 'Land' é absolutamente genial. É imponente. É aqui que a banda se transforma numa perfeita engrenagem. Começa, tal como o tema de abertura do disco, com um poema de Smith. Um rapaz é perseguido e atacado numa ferocidade psicadélica por um tal de Johnny. São os cavalos que salvam o rapaz. Os tais "Horses" brancos, brilhantes com os seus focinhos em chamas. Mas, é aqui que, mais uma vez, é usado uma versão totalmente desconstruída: um clássico 1962 de Chris Kenner, 'Land Of 1000 Dances'. É o trabalho extraordinário que o baixo de Ivan Kral e o piano de Richard Sohl fazem para que a fusão entre estes dois elementos se faça da forma poderosa.

Johnny volta a atacar com o seu colete de cabedal. Há muita sexualidade. É invocado o mestre Rimbaud. A torre de Babel e as cobras. Há mar, há marinheiros, há terra a perder de vista. Há muita loucura, mas no fim há rock and roll: "In the sheets there was a man dancing around to the simple rock & roll song". É mesmo isto. É o simples rock and rolls que, na verdade, sempre foi e será a finalidade última de Patti Smith.

Bons rebobinanços

Quem não se lembra de ir com o walkman para todo o lado? E da desilusão que sentia quando acabavam as pilhas e era preciso ir à loja comprar novas? Pior era quando a fita da cassete ficava presa. Safava a velhinha Bic...

É sobre a música desses tempos, feita sem os meios tecnológicos dos dias de hoje, que se escreverá por aqui. Tempos em que as bandas iam para estúdio e os músicos gravavam todos juntos e, numa semana apenas, tinham o disco feito. Em que os engenheiros de som se reinventavam a cada disco, em que tudo era novidade.

Semanalmente, vamos ao baú buscar os álbuns que o demonstram. Já a sentir a nostalgia? Então vamos lá rebobinar.