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B Fachada nas sessões de gravação de “Rapazes e Raposas”

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B Fachada quebrou o silêncio e fundou um país à porrada

Desde 2014 que não dava notícias, mas esta semana, sem aviso prévio, B Fachada ofereceu-nos “Rapazes e Raposas”, um extraordinário álbum gravado entre março e maio em Mértola. Fachada fundou um país de canções e fechou-se lá dentro. Felizmente deixou as fronteiras abertas para que possamos entrar

De que se faz a História? De grandes fluxos ou de pequenos episódios? Faz-se de heróis, de gigantes que transformam, ou de massas anónimas que agarram o tempo e não o deixam fugir? A História faz-se de grandes livros escritos por grande gente ou de páginas em branco que ninguém se atreveu a preencher? Faz-se de homens e mulheres que cantam ou de outros homens e mulheres que são cantados? Se calhar faz-se disso tudo. Uma certeza: a História deste tempo faz-se de rapazes e raposas. Dos rapazes que correm à frente das raposas, das raposas que se escondem no meio dos rapazes. A História deste tempo faz-se, também, das canções que B Fachada nos entrega, perfeitas e redondas, reações a quente a este tempo que nos enche de anseios, mas também tranquilas reflexões sobre o devir que nos trouxe até aqui. Sem sequer nos pedir licença.

A música popular é esse terreno maravilhoso onde a História vai acontecendo de outra maneira, um lodaçal onde certos artistas se afundam e onde outros florescem. E não há murro no estômago que não se cure com uma palmada nas costas. Se no ano passado o anúncio de fim de carreira por parte de Allen Halloween deixou uma parte da Canção-que-canta-a-nossa-História órfã dessa necessária visão realista que falava de rapazes e dos lobos que os sufocam de joelho no pescoço, eis que este ano nos revelou Tristany, o artista de “Meia Riba Kalxa” que parece, afinal de contas, uma espécie de filho legítimo do pai do Dread de 16 anos e do gajo que já fez Festas na Moradia. E agora cá está ele, o B Fachada. Quando este torpor pandémico em que todos andamos mergulhados nos tinha desviado a atenção do essencial, eis que ele nos relembra que a História é o que acontece quando ninguém está a olhar.

A capa de “Rapazes e Raposas”, de B Fachada

A capa de “Rapazes e Raposas”, de B Fachada

Em 2014, em conversa publicada nas páginas da BLITZ, Bernardo Cruz Fachada explicava que trabalhava sozinho por necessidade e admitia que num mundo ideal talvez estivesse a trabalhar com outros músicos: “Sim, talvez”, concedia então. “Há um lado da música que não se atinge sozinho precisamente porque tem a ver com tocar com outras pessoas. Mas eu não acho que a necessidade seja uma coisa má na música pop. Afinal de contas, a pop fez-se sempre da necessidade de se fazer música para certos espaços, para certas ocasiões, para certas horas, usando os instrumentos possíveis e os companheiros possíveis. Na verdade, durante o meu ano sabático ainda tentei fazer uma banda, mas essa tentativa falhou. Ainda assim, as músicas deste disco [o terceiro homónimo] ainda foram feitas com a ajuda de um amigo, que não toca, mas que me ajudou a encontrar as canções, a ouvir bem os samples”.

A banda, justificava ainda o solitário cantautor, tinha falhado porque a História, lá está, correu noutra direcção: “Porque se calhar já é um pouco tarde para mim. Não fiz o percurso normal de começar pelas bandas na adolescência e por isso talvez não tenha feitio para bandas... Tenho pouco tacto. Sou pouco diplomático. A democracia funciona na vida real, mas o rock faz-se de unanimidades, por isso é que as bandas começam normalmente por grupos de amigos que trabalham positivamente na mesma direção”.

E que fez Fachada então, (auto)forçado a avançar sozinho contra o tempo? Olhou para as revoluções do passado para ensaiar a sua própria e tão privada revolução: “Este disco é muito centrado no 25 de Abril, na herança da revolução, no que está bem e mal resolvido”, assegurava ele em 2014. “E, claro, interessa-me mais o lado cultural dessa questão. No fundo, trata-se de fazer uma pergunta simples: tivemos ou não uma revolução cultural? A resposta, obviamente, é ‘não’. Tivemos uma mudança de regime, mas não tivemos uma revolução cultural. Continuamos a usar, como o Zeca dizia, a mesma língua para falar das mesmas coisas. Continuamos a falar do Camões como se falava no tempo do Estado Novo e continuamos a não falar do Aquilino como também não se falava no tempo do Estado Novo... O Salazar matou o Aquilino até hoje. O próprio Zeca disse em entrevista que uma revolução cultural não era ele poder ir tocar a mais sítios. Revolução cultural seria ele chegar a esses sítios e encontrar música de lá, desses sítios. E, portanto, este disco tem um narrador que em parte sou eu, herdeiro dessa revolução quer queira ou não...” Um continuador involuntário e ainda assim corajoso dessa História. Ou, como lhe sugeria há meia dúzia de anos o autor destas linhas, “uma espécie de Rambo, o tipo que não aceita que a guerra acabou e que vai para os montes lutar sozinho contra o resto do mundo”: “Sim, isso é um bocadinho o que eu faço”, admitia. “Faço a guerra sozinho e conformei-me um bocado com ser esse o meu papel. Fiz o meu percurso e acabei por ir dar a um sítio onde não estava mais ninguém. Um gajo sozinho não faz uma revolução cultural, portanto esta é uma guerra perdida... Porque é que falamos em Música Popular Brasileira? Porque eram muitos a fazer a mesma coisa. Se fosse só um ou dois tipos não se usava essa designação coletiva. E o que temos aqui? Um gajo, uma língua, uma pronúncia. Ou seja, como refere, um Rambo, um maluco que anda para ali sozinho aos tiros para o ar...”​​​​​​​

Bendito maluco. Desta vez foi dar a Mértola, onde não há mais ninguém. Só ele, o seu modular ADDAC, a braguesa de sempre, um baixo e mais uns quantos teclados, o seu microfone que soa como se estivesse embrulhado num lenço como o dos vendedores de cobertores e atoalhados das feiras, o Eduardo “Pónei Dourado” Vinhas que é o cúmplice que para nossa felicidade tem guardado para o futuro os “tiros para o ar” que Fachada tem, em boas horas, disparado. E mais os seus rapazes, aqueles que adornam a capa e que provavelmente são seus filhos, aqueles para quem, na verdade, Bernardo canta a sua História. Estes rapazes e raposas são afinal o futuro a quem Fachada está a fazer o favor de guardar a História deste tempo.

E são lindíssimas as iluminuras com que B Fachada tem decorado o seu Grande Livro de Canções. Ele mete tudo aqui dentro: a memória da nossa música popular que aprendeu nos discos do Fausto e do Zeca e que aprofundou a ver O Povo Que Ainda Canta” de Tiago Pereira; a África dos discos que os cabo-verdianos gravaram em Lisboa nos anos 80 e 90 com pouco mais do que uma guitarra, um sintetizador e um poço sem fundo de saudades; alguma folk psicadélica para um tempero mais erudito; e um bocadinho de Luís Cília, talvez aprendido nas inusitadas voltas d’“A Regra do Fogo. E, além de tudo isso, há que contabilizar também a mordacidade escatológica própria de quem esmiuçou “O Discurso Sobre o Filho-da-Puta, a elevada amoralidade que se construiu a custo de muito ler e de muito pensar (em 2018, quando nos cruzámos a propósito de uma entrevista para um documentário, Fachada trazia consigo, em jeito de “preciso-de-qualquer-coisa-para-ler-ali-na-tasca”, a Bíblia traduzida criticamente por Frederico Lourenço...), a capacidade de trocar as voltas à língua com a elegância de quem parece estar apenas a tropeçar numa ideia feita, como Sérgio Godinho ensinou.

O que Fachada acrescenta a esse refogado que tem vindo a cozinhar em fogo lento desde 2007, no entanto, é só dele. Ele oferece-nos uma chave no agudo autorretrato que é a incrível “O Anti-Fado”, que em termos musicais, muito graças à proeminência do sintetizador, parece ser a síntese perfeita entre o Fausto e os Boards of Canada. Canta Bernardo:

Perante as grandes verdades
Sou anti-cumplicidades
Rejeito as pontas e o meio
Sou do tipo anti-feio
Sou anti-crime e anti-leis
Anti-história e anti-reis
Todo o saber um dia parte-se
Sou anti-Freud, sou anti-Marx
Não há truque semiótico
Eu sou anti-patriótico
Faço o direito em cepa torta
Sou anti-basta e anti-corta
Anti-sol e quebra gelos
Sou do anti-anti-pelo
Sirvo a água menos pura
Sou anti-vida e anti-cura

E, como qualquer ser dotado de capacidade autocrítica, ou capaz de ver defeitos sempre que enfrenta um espelho, o mesmo Bernardo não se poupa, derrubando a sua própria fachada:

'Tás estúpido ou quê?
O teu cinismo nunca foi tão démodé
Eloquência para quê?
O pessimismo nunca foi tão démodé

A segunda volta de versos carrega na soda cáustica e Bernardo põe ainda mais Pimenta (Alberto) no seu discurso sobre o filho da mãe que ele mesmo consegue ser:

O sexo é simples e é efémero
Eu sou do anti-género
Não sou pragmático, nem estético
Sou imoral e anti-ético
Não tenho margem, nem verba
Não tenho cu para festas de merda
Faço a farra no meu ermitério
Anti-cómico e anti-sério
Ortografia não é literatura, mas endireita a criança mais dura
A matemática sou eu que faço
Anti-Deus e anti-espaço
Não acredito em mentiras
Eu nunca vi maravilhas
Quando morrer e for queimado
Ainda vou ser o anti-fado

Já é. Na verdade, B Fachada já é o anti-fado. Anti-fado no sentido de ser o tipo que recusa a tradição embalsamada, que recusa a História fechada dentro da redoma. O B Fachada pode até ser o anti-Cristo, tamanha a sua determinação em recusar o próprio destino. Não há fatalidade em ser-se português, diz-nos este “anti-patriótico” que também é “anti-géneros”. Ao ser contra tanta coisa, pode custar um bocadinho a perceber, afinal, a favor de quê é que o Bernardo é? Há outra canção que sugere uma resposta, “Memórias de Paco Forcado #2” (a primeira parte surgiu no alinhamento de “Há Festa na Moradia”), em que Fachada nos explica que, mesmo não possuindo “a graça do Camilo” ou até “as barbas do Antero”, mesmo não estando equipado com “a honra dos antigos”, sem ter do seu lado “Jesus nem Ganimedes”, ainda lhe restam forças para “fundar um país à porrada”: “ainda posso fundar um país e fechar-me lá dentro”.

Este foi criado no confinamento, ali para os lados de Mértola, nas margens de um rio onde ainda podem correr rapazes e raposas, libertos da História que nos esmaga, livres para se fecharem dentro de um país que foi fundado à porrada, mas onde, ainda assim, ainda há espaço para o amor. Diz ele à sua “Namorada”: “cais-me em cima do nada e aí é que eu me rebolo / Antes uma das tuas do que vinte ou trinta a solo”, assegura, antes de nos dar o único refrão em que se usa a palavra “mamocas” que alguma vez precisaremos de memorizar – “que isto da vida não é só de pipis ou de pipocas”. De facto.

Este país fundado por B Fachada à porrada pode ser um corpo de canções, um conjunto de palavras, de melodias e de refrões (ao menos que nesse país tenhamos a liberdade de poder não escrever refrães, certo?) que nós escolhemos habitar para nos colocarmos do lado certo da História, aquele que é feito pelos que cantam o seu tempo alheios a tudo menos à sua própria consciência, alheios a tudo menos ao futuro que conseguem adivinhar nos rapazes e nas raposas. Só eles e elas é que importam.