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Amália Rodrigues

D.R.

100 anos de Amália. Quando a diva conquistou Paris, arrebatou corações e se atirou ao mundo

Celebram-se os 100 anos do nascimento daquela que muitos acreditam ter sido a maior voz portuguesa de todos os tempos. Foi, certamente, a primeira a conquistar os mais importantes palcos mundiais, aqueles que regularmente recebiam as estrelas de dimensão planetária, como o mítico Olympia, em Paris, cuja plateia por mais do que uma vez a ovacionou de pé. A pretexto da caixa de 5 CDs “Amália em Paris”, agora editada, voltamos a ouvi-la

Porque o estremecimento tem hora marcada: “à meia-noite e dez uma bomba explodiu no Olympia: a célebre cantora portuguesa Amália Rodrigues cantou, pela primeira vez na sua vida, em francês. E, ao mesmo tempo, o entusiasmo que tinha dominado durante todo o espectáculo multiplicou-se por dez. Só não partiram as cadeiras porque o público das estreias é bem-educado. Mas pouco faltou. Amália anunciou assim a sua bomba: ‘Je vais chanter um fado français que Charles Aznavour a ecrit pour moi.’” Corria já célere o mês de janeiro de 1957 quando se publicaram estas palavras no "L’Aurore", mas essa não era a primeira vez que a “bomba” Amália deflagrava na cidade das luzes.

Uns meses antes, a 18 de Abril de 1956, Paul Carrière sentenciava nas páginas do "Le Figaro": “Foi um momento extraordinário aquele que nos fez passar a cantora portuguesa Amália Rodrigues. De uma beleza soberana, mantém-se longe do microfone, quase imóvel, limitando-se a passar os dedos pelas franjas do xale. Mas os olhos profundos, os lábios e todo o rosto traduzem uma tal intensidade de sentimentos que se fica conquistado e não se lhe pede nada mais. A sua voz, tão à vontade no melancólico fado como na animada canção brasileira, é de uma pureza tão rara quanto a sua extensão”.

Vítor Pavão dos Santos, compilava assim em "Amália – Uma Biografia" (Editorial Presença, 2005) algumas das arrebatadas memórias que a imprensa francesa resguardou para documentar as diferentes passagens da diva portuguesa por Paris. Agora, mais de 60 anos após a sua estreia no mais importante palco da capital francesa, a Valentim de Carvalho publica "Amália em Paris", caixa que reúne em cinco CDs gravações registadas no Olympia em 1956, 1967 e 1975, bem como uma série de sessões de rádio que atestam no seu extremamente bem documentado conjunto o singular impacto que Amália da Piedade Rebordão Rodrigues, nascida na freguesia da Pena, em Lisboa, “no tempo das cerejas”, como lhe costumava dizer a avó, conseguiu ter em Paris.

Não se sabia ao certo o dia do seu nascimento – era até assunto de debate no seio familiar, como revelou a cantora ao seu biógrafo – e, por isso mesmo, a própria Amália elegeu o dia 1 de julho, seguindo a indicação da avó, como data de aniversário, embora os registos oficiais, que sempre respeitou, indicassem o dia 23 como sendo o do seu nascimento: “Resolvi guardar as duas datas”, explicava ela, “porque assim sempre podia fazer duas festas de anos, com um vinhito abafado e uns bolos secos”.

E da Rua Martim Vaz para o mundo foi um salto: Madrid, em 1943, quando Amália contava ainda e apenas 22 anos, Rio de Janeiro, no ano seguinte, depois São Paulo, Paris em 1949, na Casa de Portugal, e Londres, também no mesmo ano. Berlim, Roma, Trieste, Dublin e Berna, Moçambique, Congo-Belga, San Sebastian e Biarritz, marcaram as viagens de 1950 e 1951. Chegou a Nova Iorque em 1952, à Cidade do México um ano mais tarde. Acapulco e Hollywood seguiram-se nesse imparável périplo global num tempo em que o mundo era muito diferente. Quando pisou as tábuas do Olympia, mítica sala situada no Boulevard des Capucines, em abril de 1956, o mundo já não tinha segredos para Amália.

Amália em Paris, 1962

Amália em Paris, 1962

Charles Ichaï

Amália e o Olympia

Frederico Santiago, investigador que tem trabalhado intensamente nas reedições da obra de Amália Rodrigues no catálogo da Valentim de Carvalho e coordenador da edição da caixa "Amália Em Paris", explica as raízes do sucesso da cantora na capital francesa: “O Olympia, apesar de ter sido fundado ainda no século XIX, só se tornou na "Meca" do music-hall internacional depois de Bruno Coquatrix o ter reaberto em 1954. Nesse ano, Amália entrou num filme francês em que cantou o ‘Barco Negro’ e a canção foi um enorme êxito em França. A Piaf só cantou no Olympia em 1955. Em 1956 foi a vez da Amália, com tal êxito que em janeiro de 1957 era já cabeça de cartaz”.

Amália Rodrigues, que sempre gostou de explicações simples para coisas complexas, contava ao seu biógrafo como tudo tinha acontecido: “A minha carreira internacional deve-se a uma circunstância muito simples. Uns franceses vieram a Portugal fazer um filme e queriam uma pessoa que cantasse. Começaram a pegar em discos, a ouvir artistas e escolheram-me a mim. Antes disso, eles nem sabiam da minha existência. Foi assim que começou a minha carreira internacional. O filme deu-me o pontapé de saída para o mundo. Antes tinha havido a América, mas o que lá se passa não se sabe na Europa”.

Amália, ainda: “'Os Amantes do Tejo' não foi um filme de grande sucesso, mas correu em todo o mundo e toda a gente me pôde ver. Havia quem dissesse e escrevesse que valia a pena ver o filme para me ouvir cantar o 'Barco Negro'. O 'Barco Negro' é muito difícil de cantar, mas toca toda a gente. Quando eu dou aquele grito - "São loucas, são loucas" - às vezes arrepio-me toda, quase que chego a atingir a tragédia. Eu não me sei defender, tenho de me meter toda dentro das cantigas, não tenho falsetes, a minha voz é em pleno, vou buscá-la nem sei onde. Foi o 'Barco Negro' que me levou ao Olympia e me fez internacional”.

“O Coquatrix”, contou ainda Amália a Pavão dos Santos, “quis abrir uma casa de fados para mim, chamada La Maison du Fado. Até já tinha o sítio escolhido, era na Torre Eiffel. Isto dá uma ideia da força que eu tinha em Paris”. De facto, de acordo com Frederico Santiago, antes de Amália Rodrigues talvez só uma outra voz portuguesa possa ter registado idêntico impacto, embora fossem outros tempos: “Talvez a Luisa Todi, no século XVIII”, explica quando questionado sobre um possível paralelo. “Mas mesmo assim numa escala menor, pois cantou apenas em duas temporadas na capital francesa. O 'Mercure de France' considerou-a, a 15 de Dezembro de 1778, a melhor cantora estrangeira que tinha pisado um palco parisiense. Infelizmente nesse tempo não havia gravações. Já da Amália não faltam registos que testemunham e eternizam o êxito colossal que teve em Paris”.

“É um fenómeno absolutamente novo”, assegura igualmente Rui Vieira Nery nas páginas de "Pensar Amália" (Tugaland, 2009), referindo-se à projeção internacional da artista, “sem quaisquer precedentes comparáveis, como vimos, na história do fado. Mas reconheça-se que se trata acima de tudo de um triunfo pessoal do génio de Amália, mais do que diretamente de uma vitória do fado, por si mesmo”.

O acesso a todos esses registos tem sido, precisamente, um dos maiores obstáculos com que o investigador se tem deparado no decurso do seu trabalho, admitindo não conseguir chegar a “todos os arquivos espalhados pelo mundo” que sabe terem registos de Amália. O trabalho de Frederico Santiago de organização das diferentes obras de Amália e de pensamento sobre o seu arquivo fonográfico que se tem traduzido em novos títulos para a sua discografia – "No Chiado" ou "De Porto em Porto" são dois exemplos possíveis – tem referências no plano internacional.

“Existem muitas edições de referência no mundo discográfico internacional”, explica-nos. “Destaco algumas integrais de grandes artistas da música erudita, as edições da Ella Fitzgerald da Verve, ou a integral do Jacques Brel da Universal. Mas o legado da Amália, para além de ser mais extenso do que a maior parte desses artistas, é muito mais eclético do que qualquer outro que eu conheça. Ela tocou em géneros muito diferentes e, à primeira leitura, incompatíveis. O mesmo cantor conseguir, no mesmo recital, ou no mesmo disco, misturar cantigas quase brejeiras com fados harmonicamente elaborados e com alguma da poesia mais erudita de sempre foi uma coisa inédita no mundo da música popular. Por outro lado, fez discos dedicados a géneros específicos - o folclore, as marchas de Lisboa, a poesia medieval... Talvez por isso uma caixa com tudo o que nos deixou não faça tanto sentido como noutros artistas, sempre mais limitados ao género a que ‘pertencem’,” justifica.

“Pareceu-me mais acertado reunir a sua obra em partes, respeitando sempre o universo dos álbuns originais, e organizando-a pelo género; pelas sessões de gravação no caso dos discos em que foi a própria Amália a misturar os repertórios; ou ainda por países ou cidades, quando existe material de especial importância que justifique essa "arrumação" (como a Itália, ou agora Paris). A Amália era uma cantora genial, mas tinha um pensar de poeta. Isso nota-se em muitos discos de estúdio. Misturar esses mundos ou alterar alinhamentos tão naturais seria uma estupidez”.

“Amália em Paris”, uma edição da Valentim de Carvalho

“Amália em Paris”, uma edição da Valentim de Carvalho

Um património universal e intemporal

Também Sara Pereira, diretora do Museu do Fado, em Lisboa, defende a importância do legado da diva e a sua extensão pelo próximo futuro: “Em pleno século XXI o legado de Amália Rodrigues permanece profundamente moderno e intemporal e as comemorações do Centenário serão, seguramente, uma oportunidade única para que possamos ganhar uma consciência mais nítida da sua importância na cena cultural contemporânea. Todos esperamos vir a conhecer ainda melhor o seu legado – e esta edição coordenada por Frederico Santiago é um exemplo notável deste exercício de redescoberta – sem esquecer que quando falamos do legado de Amália falamos necessariamente de uma 'obra aberta' que continuará a encerrar múltiplos olhares, indagações e deslumbramentos futuros no contexto da sua receção”.

Pedro Félix, do Arquivo Nacional do Som, foi o responsável pela coordenação do tratamento técnico do material compilado em Amália em Paris. “Grande parte das fitas originais estavam em muito bom estado”, começa por nos assegurar. “Produzidas pela Rádio Francesa e guardadas num arquivo de referência (o Institut National de l’Audiovisuel) era natural esperar que assim fosse”.

“Desde a década de 80, no campo dos arquivos de som, a digitalização é o método essencial para preservação do conteúdo sonoro de um documento histórico, dispensando a sua reprodução e decorrente degradação”, explica Pedro Félix. “Não houve grande evolução nas estratégias: salvaguarda-se o conteúdo transferindo-o para outro suporte e contexto (neste caso, digital). Quanto ao restauro, este aplica-se sobretudo quando a intenção é a publicação e não poderá ir além de um determinado nível de intervenção a partir do qual afetaria as características sónicas do evento registado no suporte original, com as suas características e limitações técnicas. Por isso, há artefactos - aqueles que nos parecem “ruídos” - que não podem ser atenuados porque essa intervenção comportaria deturpação do sinal significativo. Faço notar que a intervenção de restauro só é feita ao nível do ficheiro digital… Até porque as fitas magnéticas estavam em bom estado físico e não precisavam de qualquer intervenção”.

O material organizado por Frederico Santiago nesta edição, sublinha Pedro Félix, possui “qualidade excelente, a diferentes níveis”: “Tem uma importância analítica pouco comum. Acusticamente, são todas captações muito boas. As diferenças existentes entre as várias fontes dão-nos pistas muito ricas e interessantes relativamente à tecnologia e prática de captação própria de cada época (pois as gravações são feitas em diferentes alturas)… além do assombroso material sonoro gravado, a assombrosa interpretação de uma assombrosa intérprete e artista, tem essa mais valia técnica que nos dá pistas muito interessantes sobre a realidade técnica de uma captação para transmissão radiofónica, uma captação de um evento enquanto registo, etc. Por isso, além do seu conteúdo musical, a informação sonora que nos fornece é muito interessante e merece ser explorada”, explica o especialista, sem poupar na descrição da qualidade não apenas da música, mas também do seu registo técnico.

A voz que a própria Amália não sabia bem de onde vinha tem, ela mesmo, características técnicas especiais e Pedro Félix, ainda que ressalve não ser musicólogo ou especialista em vozes, não esconde a sua admiração pelas suas amplamente reconhecidas qualidades: “O que me apraz dizer é que, de facto, a técnica de canto da intérprete, sem deixar de refletir toda a tradição interpretava do domínio mas não se confinando a ela, a sua inventividade melódica, a sua inteligência musical, e tudo isso associado a uma capacidade única de se apresentar em público, a entrega, e o facto de todas estas qualidades serem características reunidas numa mesma pessoa, fazem de Amália um caso único no mundo, um caso verdadeiramente extra-ordinário (e sublinho o hífen)”, afirma, perentório, Pedro Félix.

Quando chegam ao grande público, em edições tratadas e devidamente organizadas, muitas destas gravações deixam de fora algum material extra-musical – conversas com os técnicos, com os músicos ou com o público, por exemplo. Félix, ainda assim, considera tudo isso matéria preciosa: “Qualquer pequeno comentário que se ouve, um ruído ambiente, uma palavra trocada entre a cantora e os seus músicos, são fundamentais para compreender um pouco mais o âmbito e o contexto em que surgem estas gravações. Além, claro está, do fator colorido de nos ‘colocar na situação’, de nos mostrar ‘o outro lado’ normalmente oculto. Isto tudo é um manancial de informação que não nos podemos dar ao luxo de desprezar ou limitar ao seu efeito de curiosidade ou de pitoresco”.

O valor do sucesso

“A Amália tinha fama de ter cachets muito altos nas grandes salas onde actuava mas isso nunca impossibilitou, a partir dos anos 60, com a chegada dos emigrantes portugueses a França, de cantar, até de borla, em algumas festas que eles organizavam em teatros mais modestos”, conta-nos o investigador Frederico Santiago. De facto, Amália Rodrigues podia conviver com as mais altas esferas da sociedade, mas não se esquecia de onde vinha. Nas páginas da sua biografia, a cantora, que foi cortejada pelas elites, conta como o diplomata Porfirio Rubirosa a tentou seduzir: “Tinha sido casado com muitas mulheres ricas e meteu-se-lhe na cabeça também casar comigo. Quando ele andava atrás de mim por toda a parte, lá pelos casinos da Côte d’Azur, até lhe disse: ‘Então você, depois das pescadas americanas todas, também quer provar uma sardinha portuguesa?’”

Em 1990, em conversa com o autor destas linhas tida a propósito da edição de "Obsessão", Amália também referenciou o seu encontro com Frank Sinatra como sendo exemplificativo dessa admiração que as estrelas internacionais não escondiam ter por si: “Estive na América há 40 anos, quando o Frank Sinatra tinha aquelas meninas que desmaiavam. A mim disseram-me que aquilo era tudo a fingir, que elas eram pagas para desmaiar nos espetáculos. E eu achei tão ridículo que embirrei com ele e não lhe dei confiança nenhuma. Eu andava no grupo do Eddie Fischer, Perry Como, Sammy Davis Jr., Nat King Cole e do Sinatra também. E como eu não tinha gostado nada do que me tinham contado, nunca lhe liguei. Acho que ninguém é capaz de fazer as pessoas desmaiar e depois continuar a fazê-las desmaiar ao longo de tantos anos. Mas tenho pena de ter embirrado com ele porque gostava de me ter mantido em contacto com ele, até para lhe mandar discos e saber a sua opinião acerca da minha voz”.

A foto da capa da caixa “Amália em Paris”

A foto da capa da caixa “Amália em Paris”

Um mistério chamado Amália

A voz de Amália, preservada sobretudo no arquivo da Valentim de Carvalho, que Frederico Santiago acredita ter apenas paralelo no da RTP, permanece um mistério, embora, a cada ano que passa, um pouco mais desvendado. “Acho que se começa a conhecer um bocadinho mais”, admite Frederico Santiago, “mas falta muito para termos noção da sua verdadeira dimensão enquanto artista. É como o Pessoa: os contemporâneos ou não entendiam ou tinham inveja. Quanto a Amália, é preciso não chegar com preconceito e ouvir apenas. Depois de a ouvir a sério é impossível não perceber a sua dimensão artística. Mas, repito, ouvir sem preconceitos nenhuns. Ouvir!

"Amália em Paris", sublinha o investigador, contribui para o contínuo desvendar do enigma 'amaliano' de diferentes formas: “Tem tantas coisas... Repertório novo, mostra a maneira como era considerada em Paris, documenta a sua evolução e a genial adaptação da sua forma de actuar diante de públicos diferentes. Comprova a sua modernidade”, conclui.

Sobre o futuro imediato no que a novos lançamentos diz respeito, Santiago levanta o véu e revela os planos próximos: “Este ano sairá um disco com ensaios inéditos, em estúdio e em casa dela, gravados em 1970, todos à volta da música de Alain Oulman, que inaugurará uma parceria de restauro e catalogação com o Arquivo Nacional do Som. Ainda este ano, haverá também uma reedição de 'Busto', com a integral das sessões que lhe deram origem e também com algum material inédito. Para o ano, entre outras edições, deverá acontecer a publicação das primeiras gravações de Amália, recentemente descobertas, algumas anteriores a 1945, e aos seus primeiros discos comerciais gravados no Rio de Janeiro nesse ano”.

O Museu do Fado também tem planos. “A voz de Amália foi ponto de partida e de chegada de áreas artísticas como a música, a poesia, o teatro, o cinema, as artes plásticas ou a dança”, explica Sara Pereira. “Ao longo da sua extensa biografia artística, Amália Rodrigues dialogou abertamente com criadores de todas as artes: poetas, músicos, pintores, fotógrafos, escritores, cineastas ou encenadores. Também por essa razão, o programa do Centenário foi pensado numa perspetiva multidisciplinar, e o Museu do Fado tem preparado um vastíssimo conjunto de actividades, em regime de produções próprias ou coproduções, que passam por concertos, conferências, edições, programas educativos e exposições, sem esquecer um vasto plano de salvaguarda do acervo museológico de Amália Rodrigues, desenvolvido em parceria com outras instituições como o Museu Nacional do Teatro e da Dança, o Museu Nacional do Traje e a Fundação Amália Rodrigues. A exposição que inauguraremos em 2021, com comissariado de Frederico Santiago e José Manuel dos Santos, será uma excelente oportunidade para nos deixarmos surpreender e deslumbrar pelo legado de Amália Rodrigues, designadamente através de algumas peças e registos sonoros que serão apresentados ao público pela primeira vez”.

“O Museu do Fado”, prossegue a sua diretora, “possui colecções de fotografias, periódicos, discos e documentação impressa alusivos ao percurso de Amália Rodrigues. Um dos eixos estratégicos do programa do Centenário de Amália Rodrigues prende-se precisamente com a digitalização e sistematização de todo o acervo de Amália Rodrigues numa base de dados comum que ficará alojada no site do Museu do Fado e da Fundação Amália Rodrigues e se disponibilizará ao público durante o primeiro semestre de 2021, tornando o seu acervo documental e a sua iconografia, acessíveis remotamente, a partir de qualquer ponto”.

“Em pleno século XXI, o fado adquiriu uma visibilidade crescente e uma presença cultural marcante no conjunto da sociedade portuguesa, em geral, e também no contexto internacional. As primeiras décadas do século corresponderam a um período de intensa vitalidade e dinamismo do fado, com um aumento exponencial da oferta cultural, do consumo, da divulgação internacional deste género musical por uma geração de artistas e criadores de qualidade inequívoca. Naturalmente, Amália continua a ser a grande referência agregadora de toda a comunidade artística. Como a própria confessou ao seu biógrafo, Vítor Pavão dos Santos, ‘eu fiz os fados serem fados à medida que os fui cantando’”, adianta ainda Sara Pereira, que afiança que existirá espaço crescente para Amália, no futuro: “Espero que as gerações vindouras possam continuar a redescobrir, a partir do seu legado, este sentido profundo de humildade, autenticidade e liberdade, qualidades que nela coexistiram de forma tão singularmente equilibrada”.

Amália não se via assim, antes pelo contrário: “Eu não sou equilibrada”, garantia ela nas conversas com Vítor Pavão dos Santos, “mas arranjei uma resignação à minha maneira de ser. Aceitei-me. Sou muito natural, muito honesta, não me permito a mim mesma dizer uma mentira”. Já sobre o que o futuro lhe reservaria após a sua morte, tinha certas dúvidas: “Quando fizerem a minha história e eu já não for viva para dizer como foi, então é que se vão fartar de inventar. Mesmo falado por mim, muita gente dirá que não é verdade, que os boatos é que são verdade. Uma pessoa é dona de si própria. Se fosse essa a verdade não me importava que falassem. O que me irrita é a mentira. Mas sei que a minha história vai ser aquela que escolherem, aquela que é mais interessante, aquela que não é a minha”.

Amália em Paris escreveu a sua própria história. Pisou pela primeira vez o palco do Olympia em 1956 integrada num mais vasto cartaz, voltou menos de um ano depois como estrela absoluta, cabeça de cartaz de pleno direito. E Paris, tombou a seus pés: “Meu Deus, como esta mulher é bela!”, proclamava Henri Magnan em janeiro de 1957, no "Le Combat". “Tivesse ela vivido noutros tempos, Camões tê-la-ia cantado nos jardins de Sintra; Velásquez tê-la-ia pintado no seu Escurial e disputar-se-iam para decidir o que lançava mais brilho, se os seus grandes olhos em brasa ou únicos enfeites que hoje usa: dois discos de diamante, brincos inestimáveis sob a abundante e sombria cabeleira”.

Porque o estremecimento tem, de facto, hora marcada. E as horas de Amália continuam a ser estas, as de um presente que a aplaude, 100 anos depois de ter nascido no tempo das cerejas. Parabéns, Amália!