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Fugido ao nazismo e estabelecido no Brasil, o francês Jean Manzon fotografou Amália a cantar nas ruas velhas de Lisboa nos anos 1940

Jean Manzon/CEPAR Cultural, São Paulo; cortesia do Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira

100 anos de Amália. As histórias que ficaram por contar

No centenário de Amália Rodrigues, o retrato impressionista da voz e do génio da mulher que se vestia de preto para cantar e que marcou o século XX português

Jorge Calado

Vi e ouvi Amália pela primeira vez ao vivo em 1946 pela mão da minha avó, quando me levou ao velho Teatro Apolo, na Rua da Palma, para assistir à opereta “A Mouraria”. Era miúdo, tinha acabado de entrar para a escola, e só me lembro de uma senhora a cantar com um espampanante vestido preto rodado. No ano seguinte vi-a outra vez, agora numa revista do Parque Mayer, “Se Aquilo Que a Gente Sente”. O título era o verso inicial de uma quadra popular de Augusto Gil que eu sabia de cor: “Se aquilo que a gente sente/ cá dentro, tivesse voz,/ muita gente, toda a gente/ teria pena de nós.” Amália Rodrigues ainda não era AMÁLIA, mas já dava voz àquilo que Portugal sentia mas não era capaz de exprimir.

Amália emergiu num tempo em que havia música e animação pelas ruas de Lisboa. Vai não vai, apareciam miúdas e graúdas a cantarolar os fados e canções da moda, acompanhadas por músicos ambulantes tocando concertina, guitarra ou até violino. Era uma forma de vida honesta, como qualquer outra. (Ocasionalmente ainda encontro vestígios dessa vivência caritativa no subway nova-iorquino.) Ajudava à comiseração os músicos serem frequentemente ceguinhos; quanto a elas, empunhavam as letras impressas das canções que cantavam e distribuíam-nas a troco de uma gratificação. Para aumentar o rendimento tocavam às campainhas das portas — havia sempre gente em casa — na esperança de angariar novos clientes, em geral as sopeiras (o nome popularucho das empregadas domésticas). A expansão da rádio nos anos 1940 alimentou e alimentou-se desta tradição, tal como o nacional-cançonetismo seria um produto da televisão, inaugurada em Portugal em 1957. O fado al fresco era complementado com o das ‘casas típicas’, regulamentado pela profissionalização à Estado Novo. O Governo odiava as conotações vadias e libertárias da canção popular, mas aproveitava as benesses de um turismo incipiente. O fado juntava-se aos campinos da lezíria e à Nazaré como os chamarizes de Portugal. Em 1938, Monsanto recebera o Galo de Prata como a ‘Aldeia mais portuguesa de Portugal’.

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