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101 canções que marcaram Portugal #31: 'Sete Mares', por Sétima Legião

A Sétima Legião foi uma das bandas mais elegantes da pop em Portugal. Agregavam consenso entre pistas de dança, imprensa e crítica. Nasceram na Fundação Atlântica, de Miguel Esteves Cardoso, mas queriam ser mais que uns Joy Division à portuguesa e transversalizar a sua arte. Se um dia formalizarem o seu fim, é certo que já terão inscrito com tinta permanente clássicos da nossa pop de maior qualidade

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Sete Mares', Sétima Legião
(1987)

Em Abril de 2019, silenciava-se a voz de um dos programas de rádio mais míticos de sempre. Francisco Amaral concebia poesia aos microfones. Conduzia o seu Íntima Fração na Radar há pouco mais de um ano, última morada de uma obra prima do éter que durava há 35 anos. Em 1984, Francisco Amaral escolheria 'Mar de Outubro', da Sétima Legião, para iniciar a magia que era a Íntima Fração. E não mais largaria os acordes de Rodrigo Leão, Francisco Camacho e Pedro Oliveira – um instrumental com sons da terra, ao osso, minimalista.

Esta canção, 'Mar de Outubro', estava inserida num álbum produzido por uma figura que trazia de Manchester o melhor que se fazia na música britânica. Não se limitava porém a dar música a um Portugal sedento de referências que justificassem o rock português; fazia dos seus textos um retrato cómico de Portugal, que o fazia, a Portugal, rir de si próprio. A "Escrítica Pop", publicada no Se7e e outros jornais, fariam de Miguel Esteves Cardoso o facho de que Portugal sentia falta. Queria engolir a vida de um gole só. Tinha interesses dispersos – que conjugava com a genialidade de para quem escrever era um ato tão comum como bocejar. Não falemos do MEC da "Causa das Coisas", do Independente. Do MEC de papillon na TV de língua solta a apregoar uma Europa monárquica. Do MEC barman. Do MEC das esplanadas da Praia das Maçãs a beber vinho branco enquanto observa o mundo. Do MEC desaparecido e tão presente. Falemos do MEC que sabia que era capaz de constituir obra para além da sua letra desenhada e barroca. Do MEC lunático que teve um sonho e que arrastou outros lunáticos para o seu sonho – que acharam que era possível editar e produzir música de qualidade (hoje alternativa) e fazer funcionar uma indústria poucochinha que precisava deles. Para nos lembrarmos que o Valor atual líquido, a Taxa interna de rendibilidade, o Excel ou os Planos de negócios nunca fizeram parte da génese deste povo sonhador, afoito e grandioso (Fausto Bordalo Dias defende que Portugal deveria cingir-se a fazer aquilo que mais bem sabe fazer, que é navegar, em vez de teimar em fazer coisas que não estão na sua génese).

E lá vai de constituir uma editora: a Fundação Atlântica. Pedro Ayres Magalhães e Francisco Camacho, músicos; Miguel Esteves Cardoso, carisma; Francisco Sande e Castro (sim, o dos rallies, que fez uma volta ao mundo de 7 anos), good vibe e loucura. E mais malta que se juntou – que o projeto era à séria. Tinha tudo, em resumo, para ser um desastre – e foi. Mas houve tempo para se editar um álbum de uns Xutos vedados aos discos, os primeiros singles dos Delfins, os Durutti Column – mas sobretudo os elegantes Sétima Legião, de Camacho, um dos ‘visionários’ sócios da Fundação Atlântica. O álbum haveria de chamar-se "A um Deus desconhecido", é o melhor álbum da Sétima Legião, e pouco se inscreveu na história da Sétima Legião. Assentava na voz encorpada de Pedro Oliveira, no baixo de Rodrigo Leão, na bateria de Nuno Cruz e numa banda que sabia requintar acordes, que sabia conjugar a música celta com o new wave e o pós-punk. Era uma grande banda. Se os Joy Division fossem portugueses, seriam a Sétima Legião.

Era uma banda elegante que soube trilhar o caminho, depois deste álbum desconhecido, para a playlist das rádios, do povo. Era a banda das pistas de dança, mas também dos namorados e dos que cantavam de mãos dadas num carro de vidros abertos. E também dos críticos elitistas e armados. Eram, são, uma banda do presente – do presente dos anos 80, dos anos 90, do sempre. Inscreveram com tinta permanente clássicos da pop de qualidade de há 30 anos, que poderiam ser de 30 anos antes ou de 30 anos depois. ‘Sete Mares’ é herdeira do álbum de estreia da Sétima Legião; trazia e haveria de trazer sempre muito do álbum de 1984 editado pela Fundação Atlântica. Mas a Sétima Legião de 1987 era já uma banda adulta, ouvida e aclamada. Os acordes iniciais e cadenciados, a par com a letra delicada a remeter para um tema consensual – os descobrimentos, fizeram de ‘Sete Mares’ o salvo-conduto da Sétima Legião em Portugal. Era uma grande música: sem pressas, profunda, intensa e poderosa. E percebia-se nos primeiros acordes a expertise de todos os seus integrantes.

Têm andado a fazer tudo certo, na vida e na música. Encheram até coliseus, em 2012, num comeback de auto-homenagem. Portugal não se havia esquecido deles e lembrou-se ainda mais deles. O público era agora mais transversal do que em meados dos anos 80: traziam agora filhos e netos. E todos entoaram as grandes canções da Sétima Legião – como entoariam se eles tivessem continuado a produzir pop elegante. Têm andado a fazer tudo certo, mas não têm andado a fazer Sétima Legião. Encolha-se os ombros. O que foi feito está bem feito. A Sétima Legião merece que se use a assinatura de Francisco Amaral do seu Íntima Fração: pouco para dizer, muito para escutar, tudo para sentir.

Foram tantas as tormentas
Que tivemos de enfrentar...
Chegarei amor na volta da maré
Ai, troquei-te por um mar
Ao sul

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