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Creedence Clearwater Revival

Getty Images

Rebobinanços #3: “Willy and the Poor Boys”, dos Creedence Clearwater Revival (1969)

Quem não se lembra do Lebowski? Perdão, o Grande Lebowski que, após o roubo do seu carro (um maquinão!) estava mais preocupado com a cassete que estava no auto-rádio do que propriamente com o carro? Pois é. Era dos Creedence. Bem-vindo à era do (anti) Vietname no terceiro 'rebobinanço', um olhar sobre álbuns que deixaram a sua marca

David Alves

David Alves

Editor de imagem

Foram os maiores do seu tempo. Em apenas cinco anos, os Creedence Clearwater Revival conquistaram o mundo com sete álbuns. Conquistaram de tal forma que ainda hoje falamos deles como os maiores... 48 anos depois.

Tinham uma ligação forte estes rapazes. A verdade é que começaram a tocar juntos nove anos antes, primeiro como Blue Velvets, depois como Golliwogs. A visibilidade trouxe-lhes uma editora e a necessidade de mudar de nome e rumo musical.

O nome da banda é a soma de três elementos. Creedence era o nome de um amigo de John Fogerty. Clearwater veio de um anúncio televisivo da cerveja Olympia que era feita com água artesiana. Revival porque os membros, como já tocavam há tantos anos juntos, encararam esta nova fase como um renascimento. Um novo começo.

A música falava por si. Não foi só o facto de serem excelentes executantes que os levou até ao topo. Acima de tudo, foi a atitude absolutamente revolucionária que tinham perante a vida e a forma como as suas letras os tornavam tão versáteis. Tanto falavam de campos de algodão, de ovnis, como depois malhavam forte e feio no governo. Eram tempos diferentes aqueles. Nixon era o presidente. A América lutava no Vietname. Uma guerra que durou vinte anos e que, como tantas outras, se provou ser inútil.

Era também o tempo da paz e amor que tantos jovens apregoavam. "Make love, not war". Será sempre tão actual este lema. Chegou também o Woodstock que foi o culminar de toda esta exaltação. Foram três dias de música, trinta e duas bandas. Os Creedence estavam lá....

Woodstock 1969

Woodstock 1969

Rhino/Warner

E é precisamente após a actuação no festival que este álbum é lançado. 1969 foi a total loucura para a banda. Três discos lançados num sempre em tournée. Não é para todos, mas estes aguentaram-se, e aguentaram-se como verdadeiros rockeiros que eram.

A entrada do disco é logo em força. "Down on the Corner" conta a história de uma banda fictícia de seu nome "Willy and the Poor Boys". Exacto. É o nome do disco. John Fogerty disse que este nome surgiu porque Winnie the Pooh era a sua personagem de banda desenhada preferida. Disse que o som era semelhante. Os "Willy" tocam nas esquinas para animar as pessoas, ganharem uns trocos, mas acima de tudo divertirem-se com a música. É um espelho dos próprios Creedence quando muitos anos antes, como Blue Velvet, tocavam com cachês muito baixos e era quase só por amor à camisola que se mantinham firmes. Muitas vezes recebiam em cerveja.

Para mim, a letra de "It Came Out of The Sky" é absolutamente deliciosa. É a letra mais satírica e divertida de todo o disco. Fala do dono de uma quinta que assiste à queda de um objecto não identificado nas suas terras. Cai do tractor assustado, mas depressa corre para a povoação mais próxima para dar a nova.

Capa de “Willy and the Poor Boys”

Capa de “Willy and the Poor Boys”

A partir daqui tudo se desenrola. Aqui sim, embora de forma cómica, tudo se torna muito real. Há todo um aproveitamento da situação. O vice presidente dos EUA quis logo implementar impostos em Marte. O governador da Califórnia acusou os comunistas de conspiração. O Vaticano veio reivindicar o objecto para Roma. Hollywood lançou de imediato um filme épico sobre o sucedido. Os media, obviamente também não quiseram ficar para trás, e fizeram do agricultor um herói nacional. Até a Casa Branca quis a sua parte, mas no fim, no fim, foi o simples camponês quem levou a melhor. “Isto é meu, mas quem quiser é só pagar 17 milhões”. No fim é tudo igual. Cada um com o seu interesse.

Os Creedence nunca se viram como verdadeiros artistas. Viam-se como trabalhadores que amavam o que faziam. E isso faz toda a diferença. A pureza e a facilidade com que criavam e tocavam era impressionante. A banda era composta por 2 irmãos: Tom Fogerty (guitarra ritmo) e John Fogerty (voz e guitarra solo). O quarteto ficava completo com Stu Cock (baixo) e Doug Clifford (bateria).

Os temas "Cotton Fields" e "Midnight Special" são dois covers magistralmente adaptados pela banda. O primeiro é uma tema de Leadbelly muito folk que retrata a vida nos campos de algodão que vestiam as paisagens do Lousiana. O segundo muito mais blues rock, tema tradicional que conta a história do mítico comboio, o "Midnight Special" que ligava Houston a Nova Orleães. Partia sempre um pouco antes da meia-noite.

O jornal Melody Maker considerou os Creedence, a certa altura do seu percurso, como a melhor banda do mundo. Como afirmou John Fogerty numa entrevista em 1997, "isso foi depois dos Beatles se separarem...". Sentido de humor não faltava a Fogerty.

Há dois temas instrumentais neste disco. Tão diferentes, mas complementam-se na perfeição. Enquanto "Side O' The Road" é um daqueles blues modernos rasgadinhos. Como é tocado a duas guitarras, deixa o baixo mais solto, o que o torna mais criativo "Poorboy Shuffle" é um daqueles casos em que a raiz do folk-blues é redescoberta. E é redescoberta até com instrumentos já há muito esquecidos do panorama musical. É tocada com uma harmónica, uma guitarra acústica e... uma tábua de lavar ('washboard') e o chamado baixo de banheira ('washtub bass'). Estes dois instrumentos podem ser vistos, precisamente, na capa deste disco.

Creedence Clearwater Revival em 1969

Creedence Clearwater Revival em 1969

Getty Images

Eram os instrumentos que os "Wiily and the Poor Boys" tocavam nas esquinas. É um som muito puro e cru. Muito bem conseguida, a música faz a passagem na perfeição para o tema "Feelin' Blue" cuja letra é bastante negativa. O ritmo, porém, é possivelmente o mais cool de todo o disco.

Um dos pontos fortes dos Creedence era a forma como conseguiam conjugar diferentes estilos musicais. E faziam-no como poucos naquele tempo. Misturavam rock, folk, southern, country e blues. Foram pioneiros do roots rock que combinava isto tudo. Era explosiva a combinação. E foi a mistura de blues com southern que fez sair um dos melhores temas do álbum. "Effigy". É uma ode ao rock, tão bem construída musicalmente e com uma mensagem tão subliminar na sua letra. É verdadeiramente bonita. Fala da forma como Nixon sempre desvalorizou as manifestações anti Vietname. Certo dia terá mesmo afirmado que nada do que se passasse ali o iria incomodar e que iria continuar a assistir um jogo de futebol americano que estava a ver na TV.

Fortemente politizada é também "Don't Look Now". É um hino à classe trabalhadora. Faz uma forte crítica a todos aqueles que nada fazem. Toda a letra assenta em interrogações. "Who will take the coal from the mine?", "Who will make the shoes for you feet?" ou "Who will make the clothes that you wear?" são disso bom exemplo.

"Fortunate Son"? Não só é a melhor faixa do disco como é, para mim, uma das melhores músicas rock de sempre. É mais uma a bater forte na guerra do Vietname e em Nixon. Obviamente. Este tema tem tudo o que a perfeição exige: riffs fortíssimos de guitarra, um baixo absolutamente esmagador, a bateria a completar a secção rítmica de forma absolutamente irrepreensível. A letra? A letra diz que aqui não há filhos de senadores, não há filhos de milionários nem filhos de militares. Não há afortunados. É a velha história: os homens ricos criam as guerras e os pobres é que as combatem. Foi usada posteriormente em jogos de vídeo como "Call of Duty". Em anúncios televisivos. No cinema, quem não se lembra do Forrest Gump? Esta foi a música escolhida para a chegada do Sr. Gump ao Vietname num helicóptero do exército. Melhor escolha não podia haver.

Este é, sem dúvida, um dos melhores discos dos anos 60. Uma verdadeira homenagem ao rock and roll.

Bons rebobinanços.

Quem não se lembra de ir com o walkman para todo o lado? E da desilusão que sentia quando acabavam as pilhas e era preciso ir à loja comprar novas? Pior era quando a fita da cassete ficava presa. Safava a velhinha Bic...

É sobre a música desses tempos, feita sem os meios tecnológicos dos dias de hoje, que se escreverá por aqui. Tempos em que as bandas iam para estúdio e os músicos gravavam todos juntos e, numa semana apenas, tinham o disco feito. Em que os engenheiros de som se reinventavam a cada disco, em que tudo era novidade.

Semanalmente, vamos ao baú buscar os álbuns que o demonstram. Já a sentir a nostalgia? Então vamos lá rebobinar.