Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

Dexys Midnight Runners em 1980

Getty Images

Rebobinanços #2: “Searching for the Young Soul Rebels”, dos Dexys Midnight Runners (1980)

Soul? Punk rock? É. E é isso tudo e muito mais. Bem vindo a Birmingham... Este é o segundo 'rebobinanço', um olhar sobre álbuns que deixaram a sua marca

David Alves

David Alves

Editor de imagem

Efectivamente há formas originais de se começar um disco e este confirma isso mesmo. Um rádio a ser sintonizado. Escuta-se Deep Purple, Sex Pistols e os Specials. É precisamente com uma referência aos Specials que começamos o nosso rebobinanço desta semana. Os Dexys Midnight Runners lançaram-se em 1978, dois anos antes de se decidirem fechar em estúdio e gravar o álbum de estreia de que falamos.

Pois bem, os Dexys começaram justamente por fazer as primeiras partes dos concertos dos Specials. E ficaram conhecidos, naquela altura, por ter prestações muito acima da média para uma banda que tinha tão pouca experiência de palco e também pelo aspecto que adoptaram. A inspiração veio dos fatinhos aprumados que os Specials usavam. O co-fundador e vocalista dos Dexys, Kevin Rowland, decidiu adoptar um look que fazia lembrar os estivadores de Nova Iorque, influenciado pelo filme "On the Waterfront" com Marlon Brando. Para ele tudo na banda teria de fazer sentido. A música, a roupa, a atitude...

The Specials em 1979

The Specials em 1979

DR

Destacaram-se tanto que o primeiro manager que tiveram era o mesmo dos Clash, Bernard Rhodes. Correu mal porque o mesmo também quis ser produtor. Ao que parece era muito bom manager, mas como produtor...

A formação original era composta por 8 músicos de excelência. À parte de Rowland e Kevin "Al" Archer (guitarra) que fundaram o grupo (ambos estiveram juntos numa banda punk em 1976 de seu nome The Killjoys), é fundamental também referir o trio da secção de metais absolutamente crucial para a sonoridade que iria definir o som deste disco que ficou para a história. "Big" Jim Paterson (trombone), Geoff "JB" Blythe e Steve "Babyface" Spooner (ambos saxofone).

"Burn it Down", a primeira faixa é um intencional grito de revolta perante o que era entendido como um profundo desconhecimento generalizado em relação ao povo irlandês (os pais de Rowland era irlandeses) e à sua importância. São referidos escritores como Samuel Beckett ou Oscar Wilde entre outros para demonstrar que na Irlanda existia cultura e de muita qualidade.

Segue-se uma das músicas que melhor caracteriza este trabalho. Uma mistura explosiva entre a soul e a agressividade do punk rock. A letra de "Tell me When my Lights Turns to Green" é bastante profunda. A vida está uma confusão e aqui há um apelo a uma entidade superior para que as más escolhas sejam superadas e não repetidas.

O álbum foi gravado em apenas 12 dias e a exigência era extrema. Tocava-se muitas vezes por mais de nove horas e era totalmente proibido o consumo de álcool nas gravações e também antes dos próprios concertos.

Temos neste disco dois temas mais calmos, mais downbeat. "I'm Just Looking" debruça-se sobre os perigos da fama e como esta pode ser bastante perigosa e decadente, e "I Coulnd't Help It if I Tried", que tragicamente conta uma história de amor que não acaba bem. De referir aqui o enorme trabalho da secção de metais: absolutamente soberbo.

Conta-se também um tema instrumental que tem um crescendo muito bem conseguido. "The Teams That Meet in Caffs" é também um dos pontos altos deste trabalho e foi escrita para relembrar os tempos em que a banda passava no Apollonia, um pub em Birmingham, longos dias antes de a fama aparecer.

Até que chegamos ao momento crucial deste disco. "Geno". Para mim, a canção mais brilhante de todo o alinhamento. É feroz, apaixonada, tem ritmo. Tem a atitude certa. Conta a história do fascínio que Rowland tinha por um músico de rhythm'n'blues de seu nome Geno Washington.

"Searching for the Young Soul Rebels", dos Dexys Midnight Runners

"Searching for the Young Soul Rebels", dos Dexys Midnight Runners

A letra idealiza um concerto que Rowland teria imaginado de Geno em 1968 e que o teria influenciado no seu percurso musical. Inspiração espelhada em parte da letra. "After a week of flunkin' and bunkin' school. With the lowest head in the crowd that night. Just practicin' steps and keepin' outta the fights". Ou seja, sou um miúdo oprimido na escola e a minha vida não é fácil, mas tu, Geno, fazes-me dançar e manter-me longe de problemas... Mas também refere a letra que "Academic inspiration. You gave me none. But you were Michael the lover. The fighter that won". Faz alusão a um dos grandes hits de Geno Washington and the Ram Jam Band, "Michael, the Lover", de 1966. Na verdade, inspiração académica não me deste, mas na música foste, para mim, o maior.

Para adensar um pouco mais este fascínio, o saxofonista dos Dexys, Geoff "JB" Blythe, tocou, a certa altura, nos Ram Jam Band.

Tudo começa com: "Geno! Geno! Geno!". O público chama pelo seu ídolo.

Durante as gravações do álbum houve alguns momentos de tensão entre a banda e a editora. Basicamente, o grupo recebia apenas 6% de royalties enquanto outras bandas recebiam o dobro. Os Dexys ameaçaram roubar as gravações, o que não foi encarado com muita seriedade pela editora. No último dia, enquanto o produtor tomava um café, agarraram em todas as maquetes e fugiram, com estilo, num Mini..... Quase destruíram o trabalho. A editora acabou por ceder.

"Seven Days Too Long" é ao contrário de "I Coulnd't Help It if I Tried", uma história de amor que acaba bem. É o tema mais animado do disco. Após um arrufo de namorados, como todos têm, há que fazer as pazes. Afinal de contas sete dias sem ti é muito tempo. Especialmente para quem está tão apaixonado.

Desvario lírico encontramos em "Thankfully Not Living in Yorkshire It Doesn't Apply" e "Love Part One". Se por um lado a mensagem é totalmente desconexa e apenas se retém "Lord have mercy on me, keep me away from Leeds" (lá terão as suas razões para não gostar de Leeds), por outro temos uma letra declamada apenas com um som ambiente de saxofone a acompanhar. Este tema não estava previsto entrar no álbum; era inicialmente a letra para "Keep It", mas o produtor não gostou e Rowland pediu ao saxofonista Geoff Blythe para a reescrever. Saiu-se com um dos melhores temas do disco.

"Keep it" tem possivelmente a letra mais complexa e mais bem conseguida de todo o álbum. Fala da importância de manter uma vida confortável, mas sem medo de arriscar, por outro lado. Bons conselhos são sempre bem vindos.

O disco fecha com "There, There, My Dear". É uma carta aberta de desagrado pela desonestidade que o grupo encontrava no panorama musical à época. Uma crítica explícita aos músicos que se focam na aparência em vez de se concentrarem no que realmente importa: a música. A interrogação "I'm just searching for the young soul rebels,(...) and I can't find them anywhere. Where have you hidden them?". Falta chama, falta rebeldia, falta soul..... Mas não aos Dexys Midnight Runners, isso é certo.

A capa do álbum mostra um rapaz de treze anos, irlandês de Belfast, após ter sido despejado da casa onde vivia durante os despejos de 1971. As questões politicas não foram esquecidas.

O maior êxito, porém, iria surgir no trabalho seguinte. Após a digressão do "Searching...", a banda separou-se quase na sua totalidade devido ao autoritarismo e teimosia persistente de Rowland. Restaram este e o homem do trombone, "Big" Jim Paterson. Os dois ficaram conhecidos como os "Celtic Soul Brothers". Tudo mudou. A música mudou. O estilo mudou.

Lançaram "Too-Rye-Ay" em 1982. Bastante interessante mas, a meu ver, longe do disco que hoje é aqui falado. Seria difícil igualar este trabalho magistral. "Come On Eileen" marcaria a banda daí para a frente. Introdução de violino, acordeão, flauta, banjo.... Estes eram os novos Dexys.

Como alguém um dia me disse: "Depois de ouvir este disco só me apetece dançar..."

Bons rebobinanços.