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Como a história do aventureiro Christopher McCandless comoveu o mundo, deu um filme inesquecível e marcou a carreira de Eddie Vedder

Em 1992, passou quatro meses no meio do nada, morou num autocarro abandonado que só 28 anos depois seria resgatado, morreu sem que ninguém respondesse ao seu SOS. A sua história deu um livro, um filme e um disco de Eddie Vedder

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

A sua história tornou-se popular graças a "Into the Wild" (em português, "O Lado Selvagem"), o filme de 2007 sobre um jovem que troca o conforto da vida em sociedade pelo desafio de desbravar a natureza. Mas Christopher Johnson McCandless, encarnado pelo ator Emile Hirsch, existiu mesmo - e a sua história invulgar deu origem não só ao filme realizado por Sean Penn, como a um livro publicado uma década antes, escrito por Jon Krakauer.

Quem era, então, Chris McCandless, jovem anónimo que se tornou em herói improvável para milhares de pessoas em todo o mundo, até aos dias de hoje?

Nascido em 1968 na Califórnia, no seio de uma família aparentemente feliz e pacífica, o norte-americano seguiu uma trajetória ortodoxa até ingressar na universidade, onde se licenciou com brilhantismo em Direito. Ao invés de encetar carreira como advogado, contudo, desapareceu sem informar os pais e a irmã e dedicou-se a viajar pelos Estados Unidos, obedecendo a uma filosofia de vida que desvalorizava os bens materiais e buscava um ideal de "liberdade total".

Chegar ao Alasca era o objetivo derradeiro da jornada que empreendeu, cruzando-se pelo caminho com várias personagens igualmente nómadas.

A sua aventura, tal como narrada no livro de Jon Krakauer e no filme realizado por Sean Penn, contempla muitas viagens à boleia de desconhecidos e uma determinação não só em chegar ao Alasca e viver de forma completamente despojada e livre, como em não ser localizado pela família, especialmente pelos pais. Anos antes, Chris McCandless descobrira que, quando nasceu, o pai ainda era casado com outra mulher, passando a olhar assim para os seus progenitores, que considerava hipócritas, com desdém.

Em 1992, o jovem de 24 anos chegou à sua meca, instalando-se num autocarro abandonado, nas margem do rio Sushana. Aí sobrevivia daquilo que a natureza lhe proporcionava, suspeitando-se que possa ter sido a ingestão de plantas venenosas a tirar-lhe a vida. Quando foi encontrado sem vida, em setembro de 1992, por um grupo de caçadores de alces, o seu corpo pesava apenas 30 quilos, apresentando sinais de extrema desnutrição.

Amante de literatura e de autores como Henry Thoureau, Chris McCandless foi documentando por escrito as suas descobertas e os seus pensamentos. Na última entrada no seu diário, correspondente ao dia número 107 do seu exílio, lia-se apenas "beautiful blue berries" [lindas bagas azuis].

Na porta do autocarro onde viveu e morreu foi encontrada uma nota manuscrita, numa página arrancada a um livro de Nikolai Gogol: "Aos possíveis visitantes. Preciso da vossa ajuda. Estou ferido, perto da morte e demasiado fraco para sair daqui a pé. Estou sozinho, não estou a brincar. Por amor de Deus, fiquem para me salvar. Fui colher bagas aqui perto e devo voltar esta noite".

O bilhete estava assinado como Chris McCandless, e não como Alexander Supertramp, alter ego que criou para si durante a viagem, e deverá ter sido escrito em agosto, poucas semanas antes de perecer.

Num rolo de câmara por revelar, foi ainda encontrado um autorretrato sorridente, tirado frente ao autocarro, com uma mensagem escrita num pedaço de cartão: "Tive uma vida muito feliz. Adeus e que Deus vos abençoe a todos".

Chris McCandless morreu em 1992 e em 1993 Jon Krakauer, escritor e montanhista, dava o primeiro passo para imortalizar a sua história, ao dedicar-lhe um artigo. Em 1996 chegava o livro do mesmo autor e em 2007 Sean Penn apresentava o filme que firmou definitivamente a figura do aventureiro na cultura popular. Protagonizado por Emile Hirsch, "O Lado Selvagem" tornou imensamente popular a saga do jovem desapegado dos bens materiais, levando muitos espectadores a seguir o seu trilho e a tentar encontrar o autocarro ferrugento que, em 2020, as autoridades locais decidiram remover do local, depois de duas pessoas terem morrido ao tentar visitá-lo.

Nem todos apreciaram a mensagem do livro e do filme, todavia. Em 2013, escrevia Jon Krakauer na New Yorker: "Recebi milhares de cartas de pessoas que admiram McCandless por ter rejeitado o conformismo e o materialismo para poder perceber o que era ou não autêntico, para se pôr à prova, para sentir o pulsar da vida sem rede de segurança. Mas também recebi muitas cartas de pessoas que acham que ele era um idiota que acabou mal porque era arrogante, penosamente malpreparado, mentalmente desequilibrado e talvez suicida. A maioria destes detratores acredita que o meu livro glorifica uma morte sem sentido".

A verdade é que em 2020 a demanda de Chris McCandless, que esperava poder escrever um livro sobre a sua aventura, ainda faz bater o coração daqueles que sonham com um quotidiano mais próximo da natureza.

"No phone, no pool, no pets, no cigarettes" [sem telefone, sem piscina, sem animais de estimação, sem cigarros], diz a certa altura do filme o seu protagonista. Hoje em dia acrescentar-se-ia, certamente, o wi fi e o GPS à lista de "ajudas" com que o jovem não pôde contar na sua jornada rumo ao norte.

O impacto do filme não seria o mesmo sem as canções de Eddie Vedder, que mesmo antes de conhecer a história de Chris McCandless aceitou o desafio de escrever a banda-sonora. Sensíveis e contemplativas, as suas composições sublinham a aura poética de um filme sobre um espírito livre que só quis viver à sua maneira, ainda que isso lhe tenha causado a morte.

"Todos os dias penso no Eddie Vedder para fazer música", disse Sean Penn à Spin na altura. "Só falei com ele quando já tinha feito o filme. Ele não conhecia o livro. Mas dois dias depois de começar a lê-lo, telefonou-me e disse-me: 'tenho de fazer isto'", contou o ator e realizador, confessando que, durante as filmagens, começou a pensar na voz de Eddie Vedder como a alma de Chris McCandless.

Lançada em simultâneo com o filme, a banda-sonora de "O Lado Selvagem" acabou por ser o primeiro disco a solo de Eddie Vedder, marcando a direção acústica que o homem dos Pearl Jam viria a seguir nos trabalhos sem a banda. No mais recente concerto em Portugal, incluiu 'Far Behind' e 'Long Nights', dois temas dessa banda-sonora, na setlist.

Em 2020, ano em que uma pandemia pôs muita gente a suspirar por um regresso à natureza, a história de Chris McCandless continua a emocionar. Há poucos dias, quando as autoridades do Alasca retiraram o autocarro das margens do rio Sushana, para evitar mais acidentes, o ator Emile Hirsch, que deu vida ao jovem andarilho no filme, ofereceu-se para "adotá-lo".

Lembrando o "simbolismo" que o velho veículo, fabricado em 1946, representou para pessoas de todo o mundo, o ator disse esperar que o mesmo seja colocado num local onde os admiradores da história "o possam visitar em segurança. Como o meu quintal!", brincou. "Não sei é se conseguiria lidar com tantos visitantes".