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Rebobinanços #1: “Apostrophe (')”, de Frank Zappa (1974)

O caldeirão do Obélix? Zappa também lá caiu, mas a poção era outra. Durou uma vida inteira a genialidade... Esta é o primeiro 'rebobinanço', um olhar sobre álbuns que deixaram a sua marca

David Alves

David Alves

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Quem não se lembra de ir com o walkman para todo o lado? E da desilusão que sentia quando acabavam as pilhas e era preciso ir à loja comprar novas? Pior era quando a fita da cassete ficava presa. Safava a velhinha Bic...

É sobre a música desses tempos, feita sem os meios tecnológicos dos dias de hoje, que se escreverá por aqui. Tempos em que as bandas iam para estúdio e os músicos gravavam todos juntos e, numa semana apenas, tinham o disco feito. Em que os engenheiros de som se reinventavam a cada disco, em que tudo era novidade.

Semanalmente, vamos ao baú buscar os álbuns que o demonstram. Já a sentir a nostalgia? Então vamos lá rebobinar.

“Apostrophe (')”, de Frank Zappa
(1974)

Era uma vez um tipo que sonhou que era esquimó e decidiu escrever uma música sobre isso. O herói da história chamava-se Nanook e vivia num Iglu. A mãe do herói bem o tentou demover, mas sem sucesso: "Don' be a naughty eskimo (...) Watch out where the huskies go, and don't you eat that yellow snow". Muito desgostosa lá o viu partir.

É assim que começa "Apostrophe(')" de 1974. Zappa transformou este sonho estranho numa mini ópera rock de 10 minutos dividida em quatro partes. Na primeira, Nanook vai para longe da mãe. Na segunda, entra em confronto com um caçador de peles que ataca a sua foca bebé preferida. Mas a resposta de Nanook não tarda. O esquimó cega o caçador ao esfregar-lhe nos olhos neve com urina dos huskies, a tal "yellow snow". O injuriado lembra-se, então, que para se curar terá de ir para uma localidade chamada "Saint Alfonzo". Antes, o caçador contra-ataca com fezes caninas. Nanook perde a visão. No entanto, como os heróis levam sempre a melhor, a cegueira revelar-se-á apenas temporária.

Na terceira parte da aventura, o caçador chega a "Saint Alfonzo". Rouba pacotes de manteiga na estalagem, urina nos cartões do bingo e tenta seduzir uma mulher casada com um fuzileiro. Tudo faz ainda menos sentido na quarta faixa deste sonho. Zappa descreve como um padre que angaria fundos em "Saint Alfonzo" mantém encontros sexuais com um duende e... uma meia!

Confuso?! Zappa não. Eu?! Talvez, embora nem em sonhos consiga eleger outras canções cujas letras encaixem desta forma tão genial numa música. E há mais um devaneio lírico do mesmo género: "Stink Foot" fala de um homem que não consegue tirar os sapatos há meses, daí cheirarem tão mal. É um tema muito blues-rock, mas com umas pitadas de jazz à mistura.

Quanto mais se ouve este disco, mais refinado fica. "Cosmik Debris" é disso exemplo. Uma das músicas mais brilhantes da carreira de Zappa. Uma mistura de rock, blues, jazz muito bem conseguida, um saxofone absolutamente essencial no crescendo do tema. A cereja no topo do bolo? Tina Turner faz backing vocals. Sim. "A" Tina Turner.

Também entra outro gigante: Jack Bruce. O músico uniu-se a Jim Gordon e Zappa para uma jam transcendental na música que dá nome ao disco. "Apostrophe´" é totalmente instrumental. É, aliás, o único instrumental do disco, antecedido pela canção "Excentrifugal Forz", a mais electro-jazz do álbum.

"Uncle Remus" é talvez a faixa mais séria e interventiva do álbum. É um seguimento de "Trouble Every Day", tema que figurou no primeiro disco da carreira, "Freak Out", de 1966. Ambas refletem as preocupações do autor em relação às questões raciais. "Trouble Every Day" é, muito possivelmente, a minha música preferida de Zappa, a par com "My Guitar Wants to Kill Your Mama".

Falar sobre Zappa é falar sobre genialidade. É falar sobre humor e também sobre sarcasmo. É falar sobre criatividade extrema. É falar de um músico anti-sistema por sistema. Um inovador a cada acorde que pensava e executava. Uma força brilhante que se reinventava a cada disco que lançava.

Apesar de se ter tornado num dos melhores guitarristas do mundo, a verdade é que o primeiro instrumento que lhe despertou verdadeiro interesse foi a bateria. Chegou até a tocar como baterista profissional em algumas bandas antes de os Mothers of Invention surgirem na sua vida.

Músico persistente e insistente. Em vários momentos da vasta carreira (80 discos de estúdio lançados), Zappa teve problemas com os músicos que o acompanhavam. Ora porque elevava a exigência a patamares utópicos, ora porque, simplesmente, os músicos se opunham à sua postura autocrática.

Apesar disso, sempre se rodeou de músicos fantásticos como Steve Vai, Jean-Luc Ponty, Captain Beefheart, Terry Bozzio, Vinnie Colaiuta ou Jack Bruce, entre tantos, tantos outros.

Zappa explorava diferentes estilos musicais como o rock progressivo, o jazz, a música clássica ou eletrónica. Por outro lado, sabia também encarnar o mais puro minimalismo. A ímpar mestria com que conjugou géneros tão distintos valeram-lhe, sem surpresas, um lugar no Rock And Roll Hall of Fame com a inscrição: "Ele foi o compositor mais prolífico da sua época".

"Apostrophe (')" é um dos discos mais acessíveis do músico americano em termos de composição. É muito consistente. Com músicos brilhantes. É, sem dúvida, o melhor disco para quem quer conhecer Zappa pela primeira vez. E, como refere a letra de "Stink-Foot", "Ain't this boogie a mess?". Absolutamente, mas é tão bom.

Bons rebobinanços.