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Bob Dylan

Está tudo bem, mãe, é a vida. Apenas a vida. Bob Dylan aos 79 anos

Acaba de lançar um novo álbum aos 79 anos, o 39º de uma justamente celebrada carreira. E é um disco carregado de agudos auto-retratos, de avisos, de vida, morte e amor, assinado pelo homem que um dia cantou “está tudo bem, mãe, é a vida, apenas a vida”. É isso que continuamos a precisar de ouvir da sua boca

Por onde começar com Bob Dylan se, como o próprio garante, ele contém imensidões? Não há uma forma certa, na verdade, e entrar (ou reentrar...) no seu vasto e fascinante universo por Rough and Rowdy Ways, o álbum que acaba de lançar, funcionará certamente tão bem como qualquer outra “porta de entrada” que se possa escolher.

Poderíamos igualmente recuar até ao seu incrível arranque de carreira no início dos anos 60, quando escreveu algumas das canções que ajudaram a fazer o mundo em que hoje vivemos, e começar a aventura de descoberta da sua obra por Bob Dylan funcionaria igualmente bem.

Ou então optávamos por fazer um molho com os 39 álbuns de originais que lançou entre 1962 e 2020 (quase seis décadas, hein? Admirável...), baralhávamo-los como se estivéssemos num jogo de cartas num quarto de hotel em Las Vegas e, de olhos bem fechados, escolhíamos um dos discos ao calhas. E se nos saísse, sei lá, o Slow Train Coming que Dylan lançou depois de descobrir que afinal era cristão, também nos esperaria uma intensíssima e certamente recompensadora jornada de descoberta.

Como um prisma, a obra de Dylan contém muitas faces, mas todas resguardam o brilho eterno que emana do seu centro. E esse centro faz-se de palavras. Palavras tão fundas e tão significantes que lhe valeram o prémio Nobel em 2016. Palavras tão fundas e tão significantes que se erguem como um dos grandes monumentos da civilização ocidental dos últimos 60 anos.

Dylan contém multiplicidades, de facto. E pouco haverá de melhor para fazer num domingo (ou em qualquer outro dia da semana, para dizer a verdade...) do que perdermo-nos nesses labirintos de sentido que Dylan desenhou com a imaginação de um poeta-pintor. Rough and Rowdy Ways é uma recompensa para quem nunca desistiu de Dylan e uma promessa de maravilhas sem fim para quem só agora a ele chega.

Dylan canta muito, mas curiosamente fala pouco. Desta vez, resolveu atender o telefone a Douglas Brinkley, professor de História na Universidade Rice, autor do livro American Moonshot: John F. Kennedy and the Great Space Race, em missão para o New York Times e, a partir da sua casa em Malibu, discorreu sobre a vida e a morte e a arte, lançando mais alguma luz sobre as canções e as suas visões desta coisa tão frágil a que chamamos civilização.

A dada altura, Brinkley atira-lhe com a bomba que, francamente, ninguém no seu perfeito juízo se escusaria de usar caso lhe fosse concedida a oportunidade de interpelar o bardo: “Considera esta pandemia em termos quase bíblicos? Uma praga que se alastrou pela terra?...”

“Rough and Rowdy Ways”, de Bob Dylan

“Rough and Rowdy Ways”, de Bob Dylan

Teria sido bom se o professor ao serviço do New York Times nos tivesse revelado se Dylan respondeu imediatamente ou se fez alguma pausa antes de falar. Se foi obrigado a pensar antes de oferecer a sua resposta ou se as palavras que proferiu lhe saíram de imediato.

Por alturas do primeiro capítulo da sua trilogia “sinatriana”, Shadows In The Night , lançado em 2015, Bob Dylan acedeu a falar com Robert Love, editor principal da AARP – a revista publicada pela Associação Americana de Gente Reformada, lida por cerca de 35 milhões de pessoas com mais de 50 anos. E nessa ocasião, o peso da idade foi um dos fios condutores da conversa. O jornalista mencionou que muitas das canções mais recentes de Dylan lidavam com o envelhecimento e apontou uma ideia expressa em tempos pelo cantor – “as pessoas não se reformam, vão simplesmente desaparecendo” – e depois rematou: “E agora tem 73 anos e é bisavô”. “Veja”, respondeu Dylan, “uma pessoa envelhece. A paixão é o jogo do homem jovem, ok? Os mais jovens podem ser apaixonados. As pessoas mais velhas têm que ser mais sábias. Quer dizer, anda-se por cá algum tempo, deixam-se certas coisas para os mais novos e não se tenta fingir que se é novo. Uma pessoa pode-se magoar se o fizer”.

O jornalista referiu ainda um período, há mais de meio século, em que Dylan se retirou do olhar do público durante mais de um ano, gesto que motivou muita discussão: “foi para proteger a sua família, certo?” A resposta do patriarca foi directa: “Totalmente. Foi isso mesmo”. Bob Dylan foi sempre um homem reservado, de muitas poucas falas sobre a sua vida privada, o que até gerou especulação sobre a sua ligação à família, mas muita dessa privacidade foi sempre, afinal de contas, uma estratégia de defesa.

Mesmo no final da entrevista, Dylan comentou: “da última vez que dei uma entrevista, o tipo queria falar acerca de tudo menos de música. Pá, sou apenas um músico, sabe? Desde os anos 60 que me fazem isso – colocam-me questões como colocariam a um médico ou a um psiquiatra ou a um professor ou a um político. Porquê? Porque é que me fazem essas perguntas?”

Porque, quer Dylan o reconheça quer não, as ideias e as imagens e as palavras e os pensamentos, as metáforas e as mensagens directas, as referências – tanto as claras como as opacas –, as reflexões ponderadas ou as rajadas que lhe saem quase em escrita automática, formam um massivo corpo, uma poderosa âncora que ajuda este barco a que chamamos civilização a manter-se mais ou menos estável mesmo quando o mar está mais agitado.

É por isso que lhe colocam estas perguntas. E querer saber o que Dylan, um tipo que devotou algum tempo a pensar seriamente sobre os mais inescrutáveis abismos da natureza humana, extrai da pandemia que vergou o planeta nos últimos meses é absolutamente compreensível, ainda que, como ele mesmo admite em “False Prophet”, uma das canções-chave de Rough and Rowdy Ways, ele não vá provavelmente dizer-nos o que queremos ouvir: “eu sou o inimigo da vida não vivida e sem sentido / não sou um falso profeta / só sei o que sei / e vou onde só os solitários conseguem ir”.

Já lá iremos ao que Dylan respondeu a Douglas Brinkley, mas, para melhor se descodificar a sua resposta, ler um pouco mais do que escreve em “False Prophet” pode ser realmente útil. Dylan também diz, com a arrogância que só cai bem a quem já muito viu e viveu, que é único: “Sou o primeiro entre iguais / Não sigo ninguém / O último dos grandes / Podem enterrar os outros / Enterrem-nos nus com a sua prata e ouro / Ponham-nos debaixo de terra e eu rezo pelas suas almas”. E depois um auto-retrato apurado, ainda que a traço grosso: “Procurei por todo o mundo / Pelo Cálice Sagrado / Canto canções de amor / Canto canções de traição / Não ligo ao que bebo / Não ligo ao que como / Subo as montanhas com espadas nos meus pés nus”.

Ora este é precisamente o homem que queremos escutar a discorrer sobre o vírus que virou o mundo do avesso, o homem que sobe às montanhas com lâminas nos pés nus, que não segue ninguém e que, portanto, aponta caminhos, o que vai onde nenhum de nós jamais chegou.

E responde ele à sugestão do homem do NY Times de que a pandemia poderia ter uma leitura em termos religiosos: “Penso que é um sinal de algo que ainda vai chegar. É uma invasão, certamente, e está espalhada, mas será bíblica? Refere-se a algum tipo de sinal de aviso para que as pessoas se arrependam dos seus maus caminhos? Isso implicaria que o mundo se encaminha para algum tipo de castigo divino. Arrogância extrema pode levar a algumas penalizações catastróficas. Talvez estejamos em vésperas da destruição. Pode pensar-se neste vírus de muitas maneiras. Penso que teremos que o deixar seguir o seu caminho”.

E assim terá que ser, certamente. Enquanto o vírus segue o seu caminho, na nossa reclusão poderemos procurar algum tipo de conforto ou o necessário estremecimento interior enquanto escutamos um álbum que se faz de, como tão bem expõe Douglas Brinkley, “transes e hinos, blues desafiantes, lamentos de amor, justaposições cómicas, jogos de palavras de um brincalhão, ardor patriótico, determinação rebelde, cubismo lírico, reflexões da idade do crepúsculo e contentamento espiritual”.

Está lá tudo, de facto. O álbum arranca com uma solene balada, derrapa para um blues rockeiro, pisca o olho ao country gospel de Johnny Cash, volta a cair nas malhas baladeiras de banco de igreja, explora o fado da folk americana, exulta no rio dos blues como quem acaba de ser baptizado nas águas do Mississippi, embala-nos como se fôssemos todos bebés, regressa aos blues com tensão eléctrica à Muddy Waters ou Howlin’ Wolf, embrulha-nos na doce manta de um acordeão para nos falar da morte e, por fim, naquele enorme mural que é “Murder Most Foul”, Dylan volta a soar solene, quando nos relembra as marcas de civilização que nos fizeram, evocando a morte de JFK como um marco na agitada aventura que nos trouxe até aqui. E aos 79 anos – Dylan fará 80 daqui a meros 11 meses! – o poeta-pintor canta com a clareza que só a absoluta tranquilidade de uma vida resolvida pode proporcionar.

A última pergunta de Brinkley na entrevista do NY Times é colocada ao homem, ao velho ser humano que nos ofereceu agora este Rough and Rowdy Ways. “Como é que a sua saúde se está a aguentar? Parece estar são como um pêro. Como é que mantém mente e corpo a funcionarem em uníssono?” Ao que Robert responde: “Ó, essa é a grande questão, não é? Como é que alguém o faz? A mente e o corpo andam juntas. Há que existir algum tipo de acordo. Gosto de pensar na mente como espírito e no corpo como substância. Como se integram essas duas coisas não faço ideia. Eu tento apenas seguir numa linha recta e manter-me nela, manter-me direito”.

Os modos de Dylan não são rudes e abrutalhados, com os que o título do álbum refere. A vida é que é assim. Mas Bob Dylan, mestre das letras e das palavras, cantor de décadas e voz do passado, presente e futuro, não se desvia nem um milímetro do caminho. Em tempos cantou “está tudo bem, mãe, é a vida, apenas a vida”. Continua a ser “apenas” a vida. E continuamos a precisar de ouvir isso da sua boca.