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Neil Young em 2020

De coração a sangrar, Neil Young não quis que o mundo escutasse “Homegrown” em 1975. 45 anos depois, a sorte é toda nossa

Um conjunto de canções que deveria ter dado um álbum em meados dos anos 70 só agora vê a luz do dia. É Neil Young fazendo as pazes com as dores de um passado agitado, piscando o olho à sua história. Voltamos a 1974/75 para reencontrar um artista que, ao contrário dos seus pares, não viajava em aviões privados. Entremos, pois, na autocaravana de Neil Young

Mil novecentos e setenta e quatro foi um ano especial. Enquanto num cantinho da Europa se abria caminho para a democracia, do outro lado do oceano a América consagrava definitivamente o rock como uma poderosa indústria capaz de mover milhões. De pessoas e de dólares. O rock and roll contava então menos de 20 anos como entidade musical de contornos definidos e reconhecidos. “Hound Dog” de Elvis e “If Dogs Run Free” de Bob Dylan não estavam apenas separadas por 14 anos, mas também por um autêntico abismo geracional: o rock largou o roll para se tornar contra-cultura na segunda metade dos anos 60 e depois de Woodstock, quando o establishment percebeu que milhares de miúdos eram capazes de fazer muitos quilómetros para verem os seus ídolos, o rock também largou um pouco os sonhos de revolução para se tornar indústria.

Em 1974, várias digressões cruzaram as autoestradas da América com a devida pompa e circunstância que se reserva para os grandes acontecimentos. Bob Dylan e Eric Clapton eram campeões nas bilheteiras, mas até esses dois gigantes empalideceram quando, no mesmo ano, o supergrupo Crosby, Stills, Nash & Young (CSNY) resolveu (pelo menos temporariamente) as diferenças internas e sob a direcção do grande empresário Bill Graham embarcou numa digressão que foi a maior fonte de receitas do universo musical nesse ano na América, lotando estádios em todas as suas paragens. Stephen Stills terá dito na época que a primeira vez que os CSNY foram para a estrada foi por causa da arte, a segunda vez por causa das miúdas e, finalmente, dessa vez, por causa dos dólares.

Mas Neil Young era, na verdade, a carta fora daquele baralho só de trunfos. Mais solitário, o canadiano não viajava com os seus companheiros, que se deslocavam entre cidades de avião, preferindo fazer-se à estrada numa autocaravana com a mulher e um cão. David Crosby, revelava ao Melody Maker em 1974, depois de um mítico concerto em Denver, que Neil Young já estava na estrada enquanto os seus companheiros aproveitavam os efeitos do estrelato nos bastidores: “A esta hora já deve ir umas duas milhas para lá da margem da cidade e tão ‘pedrado’ por causa da energia do concerto que nada lhe pode tocar. Ele vai na estrada. Ele chegou e fez o que tinha a fazer por três horas e sabe que fez isso bem. E nada pode fazer um homem mais feliz do que isso”.

Neil Young em 1974

Neil Young em 1974

Getty Images

Na verdade, aqueles não eram assim tempos tão felizes para Young. O músico tinha conhecido a actriz Carrie Snodgress em finais de 1970 e em 1972 ambos tiveram um filho, Zeke, que nasceu com o que se supunha ser paralisia cerebral, mas que mais tarde se percebeu ser um problema derivado de um aneurisma ocorrido pouco antes do nascimento. Com a relação de rastos, o músico registou, em sessões que decorreram em Junho, Setembro e Dezembro de 1974 e ainda em Janeiro do ano seguinte o material do que deveria ter sido Homegrown, trabalho feito de canções doridas escritas por Young para lidar com o esboroar da sua relação com Carrie. Esse trabalho, no entanto, nunca chegou a sair, tendo o músico optado antes por Tonight’s The Night como sucessor de On The Beach.

Neil Young escreveu Tonight’s The Night como uma reacção às mortes de Danny Whitten, guitarrista dos Crazy Horse, e de Bruce Berry, seu roadie e amigo chegado, ambas causadas por sobredoses de heroína. O álbum foi gravado durante o Verão de 1973 e deveria ter sido o sucessor de Harvest, mas a editora temeu que o seu material mais sombrio não tivesse grande apelo comercial e resistiu à sua edição, tendo On The Beach, que foi gravado logo no arranque de 1974, acabado por ser editado primeiro. O hoje bem-amado trabalho de Young que abre com “Walk On” não terá sido a bomba comercial que a Reprise desejaria para suceder a um trabalho que tinha chegado ao topo das tabelas de vendas e feito de Neil Young um dos músicos mais reverenciados da América no arranque dos anos 70. O álbum quedou-se por uma breve passagem pelos lugares mais baixos do Top 20 e inspirou ao crítico Robert Christgau algumas ideias pouco simpáticas: “Há algo na obsessiva autoexaminação de Neil Young de que é fácil não gostar e algo no seu ligeiro queixume que custa muito a apreciar”.

Por isso mesmo, quando foi hora de decidir qual o trabalho a editar depois de On The Beach, Young, que tinha, entretanto, gravado as canções de Homegrown, ficou na dúvida, tendo convocado alguns amigos para o ajudarem na difícil escolha. “Numa noite de Los Angeles em 1975”, escreve Angie Martoccio da Rolling Stone, “Neil Young reuniu um punhado de amigos no Chateau Marmont para lhes dar a ouvir alguma música. Ele tinha dois novos álbuns prontos e não sabia bem qual deveria lançar. Sentados dentro do mesmo bungalow em que John Belushi haveria de falecer uns sete anos mais tarde, os amigos de Young – incluindo alguns dos seus companheiros dos Crazy Horse e Rick Danko e Richard Manuel dos The Band – escutaram dois álbuns radicalmente diferentes”.

“Ao ouvir esses dois álbuns lado a lado naquela festa”, Young confessaria em 1975 a Cameron Crowe, jornalista da mesma Rolling Stone que mais tarde se tornaria cineasta (assinou Singles ou Jerry Maguire), “comecei a ver as fraquezas de Homegrown”. “O disco era demasiado pessoal... isso assustou-me”.

Mas passados todos estes anos, Homegrown acaba de ser lançado, tendo primeiramente sido disponibilizado para audição via streaming no site oficial de Neil Young. No mesmo site, Neil Young Archives, Bill Bentley assina um ensaio sobre Homegrown na ironicamente nomeada secção “NYA Times-Contrarian”. E aí explica-se que este álbum, visto de 2020, soa a “uma extremamente pessoal carta que Neil Young nos enviou de 1975 e que de alguma maneira se perdeu tendo ficado perdida por trás de algum armário esquecido numa arrumação poeirenta de uma estação de correios todos estes anos. Até hoje, tendo sido agora finalmente entregue”. Bentley prossegue: “De várias maneiras, é uma revelação do passado, os primeiros esboços de uma colecção de 12 canções que enchem o coração, agitam a memória, colocam perguntas a que não é possível responder e provam, uma vez mais, que o rock and roll não pode morrer”.

A Cameron Crowe, Neil Young disse ainda mais, a propósito de Homegrown, quando procurava promover a edição de Tonight’s The Night, um álbum que, aliás, o artista tinha a certeza que iria ser destroçado pela crítica: “Editar este álbum é tipo uma experiência”, explicava Young há 45 anos, referindo-se a Tonight’s The Night; “Estou completamente à espera de algumas das mais determinadamente negativas críticas da minha carreira. Quero dizer, se alguém quiser mesmo arrasar-me, poderá fazê-lo com este. E certamente alguns hão-de fazê-lo”. “Mas”, acrescentava ainda Young que contou a Crowe a história da festa de audição dos dois discos em Los Angeles, “tenho a certeza de que algumas partes de Homegrown hão-de ressurgir noutros discos meus. Há algumas coisas em que a Emmylou Harris faz harmonias. Não sei... Se calhar este disco soa mais ao que as pessoas esperariam de mim agora, mas era um disco muito sombrio. Era o lado mais negro de Harvest. Muitas das canções tinham que ver com a minha separação da minha mulher”.

Tomado como um todo, o álbum parecia de facto ser uma pílula difícil de engolir para Young, mas algumas das canções acabariam por, de diversas formas, serem reaproveitadas: “Pardon My Heart”, com algumas gravações adicionais, foi incluída em Zuma, álbum que sucedeu a Tonight’s The Night; “Star of Bethelem” haveria de surgir em American Stars ‘n’ Bars de 1977; “Deep Forbidden Lake” e “Love is a Rose” foram ambas incluídas em Decade, também de 1977; e “Little Wing” e “The Old Homestead” foram ambas usadas em Hawks & Doves de 1980. Alguns dos outros temas foram regravados e reinventados em múltiplos contextos, com o tema título, por exemplo, a ser regravado pelos Crazy Horse para Chrome Dreams, outro projecto não editado que foi gravado em 1977.

As 12 canções de Homegrown foram registadas em várias sessões, divididas entre o rancho de Neil Young e estúdios em Nashville, Los Angeles e até Londres (aproveitando uma data na capital britânica com os CSNY), com Elliot Mazer, que tinha assegurado a produção de On The Beach, ao comando de boa parte das datas (outra parte teve Young aos comandos com ajudas de alguns dos seus músicos). No disco, Young faz-se acompanhar por Ben Keith nas guitarras pedal steel e lap slide, por Tim Drummond no baixo e Levon Helm na bateria. Robbie Robertson dos The Band, Emmylou Harris e o pianista Stan Szelest (que também passou pelos The Band) são outros colaboradores pontuais.​​​​​​​

E a que soa afinal de contas este álbum de coração sangrado que Neil Young não permitiu que o mundo escutasse em 1975? Michael Hann, que há um par de dias escreveu no Guardian, garante tratar-se de um “grande álbum perdido”: “Há uma tentação de Young se concentrar nas canções de grandes declarações, mas o prazer de Homegrown reside na leveza do seu toque”.

Escutando o estranhíssimo “Florida” – tema de spoken word algo absurdista acompanhado pelo som realmente incomodativo de Young e de Ben Keith a esfregarem com dedos molhados a borda de copos de vinho) – ou a bem mais “youngiana” “Kansas” - em que começam por se escutar as palavras “Parece que acabo de acordar de um mau sonho” antes de, com simples acompanhamento de guitarra acústica e harmónica, o cantor se referir a acordar ao lado de alguém de quem nem se lembra do nome - não se tem assim tanta certeza dessa "leveza". E há bem mais neste disco...

A abrir o álbum “Separate Ways”, “Try” e “Mexico”, não permitem que nos esqueçamos da pesada bagagem emocional que Young então carregou consigo para dentro das canções. “Não pedirei desculpas”, admite ele em “Separate ways”, “gostaria de aproveitar uma oportunidade / mas, porra Mary, não sei dançar”, sugere logo depois em “Try”, ao passo que “Mexico” soa a confissão desarmante quando canta “O sentimento foi-se / porque é que é tão difícil agarrar-me ao teu amor?”.

Com guitarras acústicas e harmónica, com pianos melancólicos e toadas bluesy ou mais baladeiras no sentido country do termo, Neril Young procurava neste disco que o mundo não ouviu em 1975 fazer arte da sua atribulada vida sentimental, tentando entender como se lida com emoções profundamente humanas quando, noite após noite, os seus lamentos podem ser aplaudidos por dezenas de milhares de pessoas. Explica Angie Martoccio da Rolling Stone que, há 45 anos, “Homegrown evocava um ideal hippie orgânico”. Young, na verdade, aproveita para cantar com todas as letras “We Don’t Smoke It No More” “como se o bluesman Jimmy Reed tivesse ido parar ao palco enquanto pedia direcções para regressar a casa”, explica Bill Bentley que mais adiante garante que o álbum é “um puzzle cheio de promessas, um dos que cruza memórias e visões”.

Homegrown é um disco voltado para dentro, ensimesmado da melhor maneira possível, um retrato de um autor que não temia expor as suas fragilidades, de peito e feridas românticas abertas. E embora seja o tipo de disco que relembra uma era perdida e talvez até irrecuperável da história da música – quando o rock finalmente se afirmava como força dominante, capaz de encher autoestradas de campeões e estádios de electricidade significante, gravando os seus marcos entre estúdios, agarrando a tradição em Nashville, afirmando a sua universalidade em Londres e a sua força comercial em Los Angeles --, este álbum é também um recado de quase meio século que se revela estranhamente síncrone com os tempos presentes na sua dimensão introspectiva, na sua economia acústica e na sua valorização do amor. Mesmo aquele que destroça corações.