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Jehnny Beth

Jehnny Beth, a furiosa líder das Savages: da dramática estreia a solo ao livro escrito em Portugal

“Tenho uma ligação muito forte com Portugal e prometo que não digo isso sobre a Alemanha, por exemplo”. A entrevista com Jehnny Beth, vocalista das Savages, que mal pode esperar por voltar a tocar para os amigos portugueses

Quando falámos com Jehnny Beth, que melhor conhecemos como a intempestiva vocalista das Savages, ainda a Europa estava em pleno confinamento. A conversa durou meia-hora e decorreu como quase todas têm decorrido em meses de pandemia: à distância e com recurso a uma plataforma digital de comunicação. Sem vídeo, a pedido da artista. Depois de vários anos a viver entre Londres e Paris, Beth, cujo verdadeiro nome é Camille Berthomier, resolveu voltar à base e fixar-se na capital francesa... mas não seria de estranhar se um dia a encontrássemos a viver em Portugal, provavelmente no Porto, país que nos confessou ter um lugar muito especial no seu coração e onde se isolou para escrever o vindouro livro "C.A.L.M.".

O ponto de partida da entrevista, bem mais sumarenta do que a que lhe fizéramos em 2015 a propósito do segundo álbum das Savages, "Adore Life", foi "To Love is to Live", o seu existencialista e dramático disco de estreia a solo, que conta com coprodução do marido Johnny Hostile (a outra metade da dupla John & Jehn) e uma belíssima ajuda de Atticus Ross, dos Nine Inch Nails . Mas rapidamente a conversa resvalou para a inusitada amizade que a une a Romy Madley Croft, vocalista dos xx; para o "ótimo homem ciumento" dos Idles, que convidou para cantar consigo em dueto; ou para a técnica pouco comum que utiliza para gravar em estúdio: dobrada sobre si própria e com o microfone no chão... E nem o futuro incerto das Savages ficou de fora.

Como está a lidar com a pandemia? Está em Londres ou em Paris?
Estou em isolamento, em Paris. Estou bem, confinada há uma semana porque fiquei doente na semana passada. Alguns membros da minha equipa testaram positivo para o novo coronavírus e eu depois comecei a sentir-me adoentada, com os mesmos sintomas. Não há forma de ser testada sozinha, mas os médicos vieram cá e disseram-me só para ficar em casa. Já lá vai uma semana e ainda me faltam mais duas. Estou a promover o álbum, portanto, normalmente, nesta altura deveria andar na rua a fazer promoção, mas estar isolada em casa é algo que faço bastantes vezes quando estou a criar, a escrever. Às vezes, fico em casa durante dias, portanto não é algo que me seja estranho. O timing é que não é bom, de certa forma. Mas estamos todos no mesmo barco, portanto...

“To Love is to Live” seria um álbum completamente diferente se se chamasse “To Live is to Love”?
Que pergunta estranha. Não, não seria, porque o título do álbum foi pensado como uma coisa cíclica. Na letra de ‘We Will Sin Together’ digo “to love is to live, to live is to sin” e depois se continuasse diria “to sin is to love, to love is to live, to live is to sin, to sin is to love”, portanto é uma coisa cíclica. Para mim, “amar é viver” e “viver é amar” é exatamente a mesma coisa.

Diz que trabalhou neste álbum como se fosse morrer... A vida e a morte, o masculino e o feminino, o amor e o sexo: todas estas diferentes dicotomias parece ter um papel central no álbum. Foi catártico escrever canções existencialistas?
É um disco bastante existencialista quando pensas nele nesses termos, não é? O ponto de partida foi o facto de me estar a sentir isolada. Quando decidi fazer este álbum precisava de me reagrupar e de me encontrar novamente. Sentia-me muito fragmentada. ‘Innocence’ foi uma das primeiras canções que escrevi e estava a sentir-me bastante enjoada e doente com o facto de estar a viver na cidade, rodeada por pessoas... não sentia uma ligação e estava a recusar qualquer tipo de coletivismo. Rejeitei a união como maior objetivo da humanidade. Acho que sentia um cansaço genuíno do mundo, dos problemas do mundo, portanto precisava de encontrar intimidade novamente. Senti que era a única autodefesa que poderia encontrar. O mundo estava demasiado assustador e eu precisava de encontrar forma de mudar para avançar. Portanto, fazer este álbum fez parte desse processo.

Bom, o mundo está ainda mais assustador neste momento...
Sim! Eu sei, é uma loucura. Sinto que estou sempre à frente. Sinto as coisas antes de elas acontecerem.

Há cinco anos, disse-nos que adorava música que lhe dava vontade de partir coisas. Ainda sente isso?
Sim! Sem dúvida. Estou neste momento a fazer uma playlist para a Apple Music e chama-se “se o mundo se calasse”. Está cheia de canções zangadas (risos). Adoro essa intensidade na música, gosto de música que vai aos extremos e sinto que o meu álbum está construído dessa forma. Calma extrema e depois extrema violência... Acho que reflete aquilo que sei sobre a vida, que é bastante extrema, por vezes. Também refletem sentimentos e experiências que podemos ter. É a melhor forma que tenho de representar a vida tal como a conheço.

Já tinha estas canções em si há muito tempo ou nasceram quando decidiu que queria gravar um álbum a solo?
Não sei. Eu escrevo a toda a hora, portanto já andava a escrever antes de informar o resto da banda da minha intenção de fazer um disco sozinha e de o gravar em vez de fazer um álbum das Savages. Já tinha começado a escrever mas estava muito longe de saber aquilo em que este disco se iria transformar. Portanto, quando tomei a decisão foi uma espécie de ato de fé. Não sabia com quem ia trabalhar nem do que falaria o álbum. Mas já tinha escrito ‘I’m the Man’ e já tinha algumas das letras. Escolhi quais seriam as canções bastante rápido. Acho que depois de um ano de trabalho já tinha todas estas canções.

Tendo em conta que, no geral, as canções das Savages são bastante musculadas, queria perguntar-lhe: permitiu-se ser mais vulnerável, mesmo que a crueza continue lá?
Definitivamente. E era essa a intenção ao fazer este disco. Por exemplo, uma das primeiras coisas que a minha amiga Romy Madley-Croft, dos xx, me disse quando me começou a conhecer foi que se ia fazer um álbum pessoal tinha de explorar partes da minha personalidade que ela não vê nas Savages. E que gostaria muito de ver neste disco. Foi difícil perceber, no início, o que ela queria dizer com aquilo, porque implicava que teria de mudar a forma como escrevo canções, os métodos de escrita. Às vezes, usas poesia para esconderes quem és e dás mais importância ao estilo do que à substância. Definitivamente, a ferocidade faz parte de mim e da minha expressão artística, mas não queria que neste disco se tornasse algo sistemático. Precisava de ser violenta, porque adoro a violência da música e encaixa bem na minha voz, mas precisava de encontrar novas formas de o fazer, que fossem menos ensaiadas e mais reais. Não que não fosse real nas Savages, mas talvez quisesse algo mais musical. E também fiquei mais interessada na produção, nesse sentido. Como na canção de abertura, ‘I Am’, que foi produzia pelo Atticus Ross: a forma brilhante como ele encontrou a intensidade através de instrumentos de corda, violinos e muitas camadas de guitarras.... Foi muito diferente e eu dei por mim a pensar “isto sou eu, mas num contexto diferente”. E era exatamente isso que queria.

O trabalho que ele desenvolve com Trent Reznor, que também é um performer intenso e uma voz zangada, era uma referência?
Mesmo! Ele consegue ser suave e agressivo. Adoro a música dos Nine Inch Nails por causa disso e adoro o trabalho que eles fazem em bandas sonoras também. Essa intensidade tinha de ser mais frágil mas também tinha de ter explosões. Adoro essa tensão na música. E senti-me muito honrada pelo facto de o Atticus ter querido trabalhar comigo. Ele não produz para ninguém. Diz que não a toda a gente, portanto sinto-me uma sortuda.

Falou de Romy Madley-Croft... A música das Savages e a música dos xx estão em extremos tão afastados. Como se conheceram?
Verdade! Ela veio ter comigo depois de um concerto das Savages no festival de Coachella. As mãos dela estavam a tremer de tão tímida que é. Disse-me que adorava a nossa música, que tinha adorado a minha performance e que queria conhecer-me. Eu adorava a música dos xx naquela altura, e continuo a adorar, claro, portanto disse que estava disposta a isso. Encontrámo-nos depois, noutro festival, começámos a falar e desenvolvemos uma amizade. Tornou-se muito pessoal e começámos a mostrar música, maquetas e ideias uma à outra e foi maravilhoso. Ela andava em busca de inspiração e eu também, portanto foi um casamento muito bom. Depois, pedi-lhe para escrever comigo, para experimentarmos coisas diferentes e ela aceitou prontamente, portanto fomo-nos encontrando. Estivemos no quarto de hotel dela em Berlim a escrever e depois fomos a discotecas, à noite. Encontrámo-nos também quando eu estava em tour com os Gorillaz em Las Vegas e em Londres e explorámos novos métodos de escrita. Ela empurrou-me, definitivamente, para me revelar mais.

Em canções como ‘The Rooms’ ou ‘French Countryside’ a sua voz está contida e assombrosa. Foi difícil encontrar esse tom mais suave?
Para gravar ‘The Rooms’ tive de ir para uma sala sozinha e gravar-me. Foi mais na parte final do disco. Estava a gravar com o Flood e, sem dizer a ninguém, aluguei um pequeno estúdio em Hackney, em Londres, com um engenheiro de som e passei alguns dias lá a gravar voz e piano. Mostrei ao Flood e disse-lhe que gostava muito desse momento e ele concordou, portanto decidimos trabalhar nela. A ‘French Coutryside’ também foi gravada dessa forma, sozinha. E acho que é muito bom estarmos sozinhos a cantar porque é muito difícil... Todas as vozes deste álbum foram gravadas de forma muito pouco convencional... Sei que isto vai soar estranho mas gosto de gravar a minha voz quando estou completamente dobrada ao meio, com a minha cara quase no chão, quer esteja sentada ou em pé com os joelhos dobrados e a barriga apoiada nas coxas.

Quase como se estivesse com dores?
Sim! Fecho os olhos e é assim que o faço. O Flood insistiu sempre que eu gravasse com o meu microfone, aquele que utilizo sempre para gravar os meus programas de rádio... São microfones muito longos, nada como aqueles microfones mais polidos que usamos nos estúdios, mas ele não quis saber porque com esse microfone consigo agarrá-lo com ambas as mãos e fazer aquilo que quiser com ele. Gravar sozinha é ótimo! Quando vais para uma cabine no estúdio é tão impessoal... Estás ali de pé, não faz sentido nenhum. E dizem-te para não tocares no microfone porque é muito caro. É enervante, horrível.

Apesar de ser um álbum a solo, colaborou com uma série de pessoas. A Romy, o ator Cillian Murphy, Joe Talbot dos Idles. Como surgiram estas colaborações?
Bom, eu e o Johnny Hostile começámos a trabalhar juntos depois de eu ter começado a escrever as letras e algumas ideias. Explorámos muitos sons, alguns deles mantivemos e outros deitámos fora, mas houve muita pesquisa. Contudo, ficou bastante claro entre nós que não queríamos ser apenas nós a trabalhar neste álbum, porque sentimos que já tínhamos feito isso no início do nosso percurso e que seria repetir o passado. Isso estava a criar grande ansiedade em nós. Ficámos muito abertos à ideia de ter mais pessoas a trabalhar connosco. Sou grande fã dos Idles desde o ‘Brutalism’ e a canção que canto com ele, ‘How Could You’, era sobre ciúmes, a loucura e a violência dos ciúmes. Achei que o Joe seria um ótimo homem ciumento, porque conhece os seus lados negros e conhece-se bastante bem e a essa violência. Perguntou-me se eu queria que ele escrevesse a parte dele e dei-lhe o segundo verso para fazer o que quisesse. Dei liberdade total a todas as pessoas que colaboraram neste disco e espaço aos produtores e músicos para se expressarem. Não me interessava ser controladora. Alguns discos a solo são muito controlados e depois isso nota-se na música. Consegues ouvir que não se preocupam se é uma boa ideia ou não, desde que esteja lá. Eu não gosto mesmo nada dessa forma de trabalhar. E quando falas de artistas a solo há sempre aquela ideia de que temos de fazer tudo sozinhas: gravar, escrever, produzir... Eu provavelmente poderia fazê-lo, mas conheço bem as minhas limitações, portanto nunca teria ficado tão bom quanto ficou devido à contribuição de todos. E também estava muito interessada na forma como os álbuns são feitos hoje, os discos de hip-hop como o “To Pimp a Butterfly” ou mesmo álbuns pop. Não gosto da Beyoncé, mas o álbum homónimo dela é brilhante. Tem muitos produtores independentes e underground e quebrou as regras da escrita de canções. Há uma canção dentro de outra canção e os géneros misturam-se. É tão interessante. E o uso dos grandes baixos era algo que queria no disco como forma de encontrar intensidade por outros meios. Esses discos influenciaram-me muito pela forma como foram feitos e produzidos.

Já tocou em Portugal várias vezes com as Savages e deveria regressar este ano para o NOS Primavera Sound. Pensa que quando voltar a atuar cá, trazendo consigo este trabalho a solo, vai ser uma experiência muito diferente para si e para o público?
Tenho uma ligação muito forte com Portugal e prometo que não digo isso em todo o lado. Não digo que tenho uma ligação muito forte com a Alemanha, por exemplo. Quando escrevi o livro "C. A. L. M.: Crimes Against Love Memories", que sai em junho, fui para o Porto para me isolar e escrever. Adoro os portugueses. Acho que tem a ver com a gentileza de caráter dos portugueses. Não consigo explicar bem... As pessoas são tão simpáticas. Lembro-me do concerto das Savages no Primavera no Porto, que foi quando me surgiu a ideia para escrever a canção 'Fuckers'. Mal posso esperar por voltar. E tenho muito bons amigos portugueses, portanto quero muito estar com eles. Aquilo que as pessoas poderão esperar é algo tão louco quanto o álbum. Não será aborrecido, certamente.

E as Savages regressarão, no futuro? Mantém-se em contacto com elas?
Não vejo qualquer reunião com as Savages por agora. Não temos nada falado nem estamos ativamente a procurar fazê-lo. Estou bastante ocupada com este álbum e ainda não voltei a sentir o desejo de voltar.

O que quer retirar da música que faz?
Não sei. Ainda é um mistério para mim esta necessidade que tenho de escrever uma canção ou gravar um disco. Ao longo dos meus 20s pensei que a arte era mais importante do que a vida, portanto não tinha uma grande ligação com a minha família e afastei-me. Tudo o que me interessava era criar. Mas quanto mais velha fico, mais começo a pensar se o que é mais importante é a arte ou a vida. Agora, diria que é a vida. A família, as pessoas que tens ao teu redor, são mais importantes do que qualquer coisa, mas não consigo viver sem a arte, sem criar. Sinto que morro por dentro se não o faço, portanto no fim não sei bem.