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Estivemos no Zoom com John Legend a ouvir o novo álbum. Um homem político também pensa em sexo

Há dois dias seguimos um link e deparámo-nos com John Legend. A conversa partiu de "Bigger Love", o novo álbum, mas passou por política, racismo e até sexo

O encontro virtual estava marcado para as 16h00 portuguesas, mas pediram-nos para entrar na reunião por Zoom cinco minutos antes. O objetivo era falar com John Legend sobre "Bigger Love", o seu vindouro álbum, e ouvir 11 das 16 canções que o compõem, mas a conversa rapidamente resvalou para os grandes assuntos do momento: a pandemia de Covid-19 e as manifestações do movimento Black Lives Matter. Antes sequer de nos depararmos com a cara do músico norte-americano, sentado ao computador de onde respondeu amigavelmente às questões dos convidados, fomos informados pelo pessoal da editora que não nos seria permitido gravar áudio nem tirar fotografias (talvez nos tenhamos portado mal no que diz respeito à segunda exigência) e que o nosso feedback sobre as novas canções seria muito bem-vindo.

Quando Legend surge finalmente, visivelmente contente não só por mostrar o seu novo "filho" mas por se preparar para ouvir o que interlocutores muito diferentes teriam a dizer sobre o mesmo, percebemos que a conversa seria desempoeirada. Explicou-nos como preferia que a próxima hora decorresse: "vou mostrar-vos as minhas canções e falar um pouco sobre cada uma delas, mas peço-vos que deixem as vossas questões e comentários na caixa de chat". Rapidamente a música ficou para segundo plano: entre os esporádicos elogios à sua voz e a determinadas canções, as questões que se atropelavam foram sempre mais direcionadas para a forma como vê a convulsão em que o seu país entrou, entre a pandemia de Covid-19 e as manifestações antirracistas.

Antes de abrir as hostilidades com 'Ooh Laa', canção na qual admite ter tentado cruzar doo-wop e trap, Legend explica que a coprodução de "Bigger Love" ficou a cargo do seu colaborador e amigo de longa data Raphael Saadiq. "Sempre o admirei. Começámos a trabalhar juntos no meu segundo álbum", diz, sobre o músico e produtor que tem no currículo trabalhos com D'Angelo, Whitney Houston, Erykah Badu, Kelis ou Solange. Acrescenta de seguida que os temas que nos preparamos para ouvir foram escritos "antes de o mundo mudar tão drasticamente". "São canções sobre amor, resiliência, esperança e a ideia de que conseguimos ultrapassar momentos maus se mostrarmos amor uns pelos outros. São essas as canções que me parecem ainda mais necessárias e relevantes agora do que quando as escrevemos".

'Actions', o segundo single retirado do álbum, sobre "fazermos aquilo que dizemos que queremos fazer" porque "actions speak louder than love songs", é a canção que se segue - e inclui um dos "poucos samples que temos neste disco": 'The Edge', de David Axelrod e David McCallum, utilizado também em 'The Next Episode' de Dr. Dre. Tanto 'Actions' quanto 'Ooh Laa' são duas das novas canções favoritas de Legend, o que fez com que tivesse querido iniciar o disco com elas, "quis dar o mote para com estes dois temas".

A terceira das 11 canções que ouvimos, intitulada 'I Do', conta com produção e coautoria de Charlie Puth e, segundo Legend, é a favorita dos seus filhos, que "adoram dançar" com ela. Simples e agitada, 'I Do' traz um refrão direto ao assunto, revelando-se um dos temas mais pop de "Bigger Love". E isso contrasta bastante com a explosiva e solene 'Wild', colaboração com o guitarrista Gary Clark Jr. que escutamos de seguida ("ele elevou a canção a um nível totalmente diferente"). Uma das observações feitas, após quatro canções, indica que este poderá ser "o álbum com a sonoridade mais moderna" de todos os que já editou... "Bom, vamos ouvir tudo antes de falarmos sobre isso, porque penso que há algumas canções bastante clássicas e nostálgicas e outras mais modernas e arriscadas. Mas penso que sempre fui um artista que tenta juntar velho e novo, fazer essa ponte, e continuei a fazer isso neste álbum".

'Bigger Love', a canção que dá nome ao álbum, foi escrita por Ryan Tedder (OneRepublic) e Cautious Clay, e cai para o lado das "mais modernas". "Foi escrita antes da pandemia, mas fizemos um vídeo que entra no espírito confraternal que tentámos criar uns com os outros nestes tempos de confinamento", explica, "é uma canção que fala de como o amor nos pode ajudar a ultrapassar tudo isto". Depois de aberta a porta para questões mais sérias, Legend é interpelado sobre o facto de ter uma personalidade muito política mas geralmente deixar isso de lado na sua música. "Este álbum está definitivamente mais centrado na alegria, no amor, esperança e otimismo. Acho que o meu disco anterior, 'Darkness and Light', era mais sobre estar preocupado com o mundo. Sou naturalmente otimista, mas também presto atenção às notícias e falo muito sobre aquilo que se passa no mundo. Vou continuar a fazer ambos, mas parte do meu trabalho enquanto músico é levantar a moral das pessoas".

"Estou zangado pelo facto de outro homem negro ter sido morto pela polícia, estou zangado pelo facto de o polícia o ter feito de forma tão cobarde durante nove minutos, mas também me sinto inspirado por ver tantas multidões nas ruas, gente de todas as etnias a dizer que as vidas de pessoas negras importam e a manifestar-se contra o racismo. É uma coisa linda e poderosa", responde o músico ao ser interpelado sobre a morte de George Floyd, "acho que vamos assistir a muitas mudanças, nascidas disto". Voltando a rebater a ideia de que não é um artista "político", vemo-lo perder a paciência pela primeira (e única) vez, ironizando "não sei como conseguiria ser mais político, só se me candidatasse à presidência". "Obviamente que as minhas canções não são todas políticas e também não gostava que fossem. Gosto muito de cantar sobre amor e todas as outras coisas que tornam a vida interessante e divertida", acrescenta, dizendo que, apesar disso, se sente muito lisonjeado ao ver pessoas a manifestarem-se enquanto cantam temas seus, como 'Glory' (da banda sonora do filme "Selma") ou 'Preach'.

As duas canções que se seguem, 'U Move, I Move', com Jhené Aiko, e 'Slow Cooker' são provavelmente as que ajudam "Bigger Love" a ser "o álbum mais sexy" da sua discografia. Quanto à primeira, Legend diz que depois de a ter escrito percebeu que a letra pedia um dueto e que a sua voz e a de Aiko soam muito bem juntas. "É uma canção muito bonita e sensual" que "abre a secção sexy do álbum, a secção que vai ajudar a fazer bebés". 'Slow Cooker', que ouvimos logo de seguida, conta com a melhor prestação vocal de todo o disco, com o cantor a aproximar-se dos registos de D'Angelo ou mesmo Prince. E é precisamente por isso que o questionamos: o sexo é uma espécie de musa criativa? "Sim, diria que é. E também é uma boa forma de testarmos a nossa música", responde, antes de soltar uma vigorosa gargalhada.

Além de Jhené Aiko, o disco inclui outros dois duetos, um com a rapper Rapsody e outro com a jamaicana Koffee. "São artistas mais jovens, fantásticas, muito importantes para a música negra neste momento", explica Legend, "acho que um álbum fica sempre melhor com alguma energia feminina e todas as cantoras convidadas são mulheres. Sou fã de cada uma delas". Depois de um curto excerto de 'Conversations in the Dark', porque o tempo começava a ficar apertado e o vídeo já estava cá fora para todos verem e ouvirem, mostra a "canção perfeita para o verão" com "sabor a Jamaica", 'Don't Walk Away', o já referido dueto com Koffee. "Queríamos incluir um artista jamaicano na canção e eu andava a ouvir a Koffee e achava-a fantástica. Cruzei-me com ela nos Grammys e disse-lhe: 'tenho uma canção e gostava muito que fizesses parte dela'. Ela, amavelmente, concordou em juntar-se a mim". O mesmo aconteceu com Rapsody, que leva o seu condimento à balada nostálgica 'Remember Us'. Guardada para o fim, a canção que encerra o disco, 'Never Break', é "uma espécie de alegação final, que faz imenso sentido neste momento" e se debruça sobre "um amor tão resiliente e poderoso que nos consegue fazer ultrapassar tempos difíceis".

Enquanto escutávamos as canções, Legend foi acompanhado sempre com um playback apenas perturbado pelo delay habitual e dançando na cadeira, mostrando que está verdadeiramente apaixonado pelo novo trabalho. Não fomos apenas nós a reparar nisso. E a pergunta que se impunha era: está preparado para apresentar as canções ao vivo? E quando pensa que isso vai acontecer? "Obviamente que queremos estar num local onde possamos interagir com o nosso público novamente, sem que as pessoas tenham medo de sair de lá infetadas com um vírus mortal", começa por dizer, "até isso acontecer, vamos tentar dar a volta à questão, encontrando outras formas de atuar. Já me viram a fazer lives no Instagram, concertos em realidade virtual e esse tipo de coisas. Provavelmente faremos mais alguns num futuro próximo, mas esperamos que apareça uma vacina e consigamos voltar à estrada no final de 2020 ou início de 2021".