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Uma parceria com o jornal EXPRESSO

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Excerto da capa de “To Pimp a Butterfly”, álbum de 2015 de Kendrick Lamar

#BlackMusicMatters: as vozes e os sons da resistência negra na América. Uma história que importa lembrar

Em 1942, o músico que a história recorda como Sun Ra foi obrigado a comparecer num tribunal do Alabama. Cansado da sólida retórica intelectual do réu, o juiz terá exclamado: “Nunca tinha visto um preto como tu”. Não ficaria sem resposta. De Sun Ra a Duke Ellington ou Killer Mike, dos Public Enemy a Kendrick Lamar, há uma longa história de resistência negra ao racismo que agora faz arder as ruas da América, a autoproclamada terra da liberdade que não permite que a “estranha fruta” tão dolorosamente cantada por Billie Holiday ou Nina Simone continue a florescer nas suas árvores. É importante não esquecê-la

Em 1942, o músico que a história recorda como Sun Ra foi obrigado a comparecer num tribunal de Jasper Alabama. Ra batalhava arduamente para defender a sua recusa de cumprir serviço militar argumentando ser um objetor de consciência enquanto, ao mesmo tempo, declinava qualquer afiliação com uma corrente religiosa definida, o que lhe poderia ter sustentado o pedido de não incorporação. Presente a um juiz, o músico que respondia ao nome legal Herman Blount subiu ao palanque para prestar depoimento segurando uma bíblia que conhecia de cor e salteado, citando várias das suas passagens para justificar a sua opção pela não violência. Nas páginas de Space is the Place, o biógrafo de Ra, John F. Szwed, conta que os juízes desse tempo, sobretudo aqueles que estavam sediados num sul ainda profundamente segregado e de tradições abertamente racistas, não estavam propriamente habituados a terem confrontos de sólida retórica intelectual com homens negros. Pelo que depois de ambos os homens terem esgrimido opiniões, o juiz, cansado do poder argumentativo de Sun Ra, terá exclamado: “Nunca tinha visto um preto como tu”. “Não”, respondeu a futura lenda do jazz, “e nunca mais verá outro”.

A arte, e muito particularmente a música, foi sempre um campo de batalha para os negros americanos que, como hoje tão dramaticamente se percebe, continuam a ver-se forçados a combaterem um racismo sistémico e endémico ainda muito longe de ser um problema arrumado nas dobras da história. O caso recente de George Floyd incendiou muito literalmente as ruas da América e voltou a recentrar as atenções globais no paradoxo em que assenta a moderna história da América, a autoproclamada terra da liberdade que continua a não permitir que se faça justiça e que a “estranha fruta” tão dolorosamente cantada por Billie Holiday ou Nina Simone continue a florescer nas suas árvores, cheias de sangue nas folhas e nas raízes.

A irmandade é real

Tal realidade, que assenta numa história de opressão com séculos de existência, tem fornecido combustível à inspiração de diferentes gerações de músicos negros, permanentemente forçados a lidar com a injustiça que a América tornou cruel realidade para os descendentes dos escravos que ajudaram a erguer o país. E não, o combate pela elevação, pela justiça e pela igualdade não começou apenas quando Chuck D e os seus Public Enemy gritaram “Fight The Power” em 1989 ou sequer um ano antes quando os N.W.A. de Dr. Dre, Ice Cube e Eazy-E se tornaram alvos de perseguição policial depois de lançarem “Fuck Tha Police” no seu álbum de estreia, Straight Outta Compton. A luta vem muito de trás, integrou o lamento dos blues, mas também alimentou as mais enérgicas visões do jazz que nos anos 30, no famoso Cotton Club do Harlem, na “progressiva” Nova Iorque de um norte supostamente mais liberal, ainda era descrito como “música da selva”.

No histórico clube frequentado por estrelas como Marlene Dietrich, o único espaço disponível para os negros era o do palco e a única roupa com que podiam entrar na sala onde a elite artística e política convivia abertamente com os gangsters que na época faziam fortunas à conta da lei seca era a que tinham que vestir para servirem à mesa. Mas no palco estava um génio, Duke Ellington, homem que ao classificativo menorizante “jungle music” respondia com a sofisticação de peças como “Black and Tan Fantasy”. Tal como George Gershwin, Ellington também tinha estudado Debussy ou Stravinsky. Mas apesar do talento, apesar dos aplausos efusivos que lhe eram generosamente entregues pela tal elite, Duke era obrigado a entrar pela porta de trás do clube e quando viajava com a sua orquestra não podia ficar hospedado em qualquer hotel que desejasse. Discreto, o compositor combatia essa feia realidade à sua maneira, acedendo a fazer concertos para angariar fundos para a NAACP (National Association for the Advancement of Colored People), fazendo donativos para a equipa que defendeu os Scottsboro Boys, 9 adolescentes falsamente acusados de violação e presos em 1931. A história parece-vos familiar? É importante não esquecer que em 1989 Donald Trump fez publicar em alguns dos mais importantes jornais de Nova Iorque um anúncio de página inteira em que pedia pena de morte para os jovens designados como The Central Park Five e que mesmo depois de provada a inocência num processo que inspirou uma série para a Netflix, When They See Us, o hoje presidente dos Estados Unidos continuou a insistir na teoria de que pelo menos alguns seriam culpados, recusando-se a pedir desculpas. Uma aguda lembrança de que os problemas que alimentam os fogos em que arde a América não são de hoje.

Sun Ra

Sun Ra

DR

Ao captar a imaginação da jovem América, o rock and roll que inundou as playlists das rádios de meados dos anos 50 do século passado em diante assumiu a parte dianteira do combate do racismo e da exclusão. A diferença gritante do recentemente desaparecido Little Richard ou a popularidade desafiante de um pioneiro como Chuck Berry eram espinhos cravados directamente onde quer que doesse mais à mentalidade conservadora. Ao ponto de se terem congeminado acusações que roubaram ao autor de “Rock and Roll Music” a possibilidade de uma carreira de maior sucesso, levando-o a ser preso em 1962 num processo em que o juiz nada fez para esconder o seu orgulhoso preconceito.

Mas o jazz nunca se demitiu do seu papel progressista e do combate pela justiça. A música nascida da dura experiência de escravos na Congo Square de Nova Orleães evoluiu graças ao génio criativo de artistas que nunca se conformaram com a ideia de serem cidadãos de segunda, sem os mesmos direitos que todas as outras pessoas e que usaram a música para alavancarem os seus protestos. Como Sun Ra que se declarou natural de outro planeta, certamente mais justo do que o que o viu efectivamente nascer, ou John Coltrane que antes de professar o amor como valor supremo se inspirou no lamento de Martin Luther King, Jr. após o bombardeamento, levado a cabo por membros do Ku Klux Klan, que vitimou três crianças numa igreja em Birmingham, Alabama. Comovido pelo sentido discurso do reverendo King, Coltrane fez do seu tema “Alabama” um elevado louvor ao espírito das inocentes vítimas e um apelo a uma harmonia inexistente. O saxofonista, que tocou várias vezes em eventos destinados a angariar fundos para o Civil Rights Movement, declarava em 1966 numa entrevista: “A música é uma expressão de ideais para elevados... a irmandade é real. E eu acredito que havendo irmandade desaparece a pobreza... não haverá guerra... eu sei que há forças negativas, forças postas aqui e que impõem sofrimento aos outros, que trazem miséria ao mundo, mas eu quero ser uma força do bem”. E uma força do bem era, certamente, uma força de resistência.

“I'm black and I'm proud”

O Movimento dos Direitos Civis foi embalado pelos sofisticados sons da soul na década de 60, com a dinâmica imposta por selos como a Motown, a Stax ou a Atlantic a darem crescente espaço às vozes de artistas como Sam Cooke, que acreditava que uma mudança haveria de chegar, de Otis Redding e Aretha Franklin, que de forma algo codificada exigiam respeito enquanto cantavam perante audiências brancas. Mas, à entrada dos anos 70, ser uma força do bem não chegava, numa América a ferro e fogo com os Black Panthers a argumentarem que a via armada poderia trazer as soluções que o pacifismo comandado por Luther King, Jr. não tinha conseguido impor.

Essa é a era da Blaxploitation, de fortes símbolos negros que carregam armas de fogo e fazem justiça pelas próprias mãos em fantasias com dimensão libertária e sexual que ofereceu novos heróis a uma nascente geração de jovens negros com êxitos de bilheiteira como Shaft ou Superfly. Esta é a era em que Marvin Gaye perguntava What’s Going On e em que Sly Stone, à frente de uma banda com homens e mulheres, com brancos e negros, respondia dizendo There’s a Riot Going On. Porquê? Porque, como defendia James Brown, estava na hora de toda uma geração gritar bem alto “I’m black and I’m proud”.

O explosivo cocktail feito de orgulho negro, reclamação de direitos civis, guerra do Vietname, espírito libertário do jazz, tensão sexual do funk e espiritualidade da soul confluiu em Gil Scott-Heron, poeta tornado músico pela urgência dos tempos, porta-voz transformado em mártir pela crueldade de uma sociedade que não lhe deu espaço amplo para poder escapar. Ainda assim, deu-nos o eterno e ultra actual “The Revolution Will Not Be Televised”, presciente radiografia de uma sociedade que parece ter mudado muito pouco.

Estes eram os sons – os de Gil Scott-Heron, Marvin e Sly, os de James Brown, pois claro, mas também os de Stevie Wonder e Curtis Mayfield ou os de Terry Callier – que educaram uma geração que anos 70 adentro ia crescendo no Bronx, gueto desligado da tal cidade progressiva que um dia tinha forçado negros a entrarem pela porta de trás do Cotton Club. Impedidos de celebrarem o hedonismo branco que atraía a elite pop – Bianca Jagger em cima de um cavalo branco, Liza Minelli carregada em ombros – a espaços como o Studio 54, os jovens negros criavam a sua própria festa na cave do número 1520 de Sedgwick Avenue, em South Bronx, oferecendo ao futuro uma música feita com gira-discos, uma poesia feita com rimas aguçadas e um estilo visual criado a partir das marcas do mesmo capitalismo apostado em excluí-los para as margens. Afrika Bambaataa reclamava o espírito combativo dos zulus, Kool Herc afirmava uma força digna de um herói mitológico e Grandmaster Flash era meio mestre de artes marciais, meio super-herói da Marvel. Juntos fizeram do hip hop a mais eficaz, ainda que ao princípio improvável, arma de resistência que a música negra impôs à História. “It’s like a jungle sometimes”, admitiam eles, “it makes me wonder how I keep from going under”…

Pode argumentar-se que o hip hop condensa e concentra todas as experiências que vieram antes – as que foram sagradas nos lamentos dos blues, expandidas com a sofisticação do jazz, tornadas espirituais com a soul, carnais com o funk – numa fórmula de combate apurada até à última molécula. Foi essa fórmula que tornou os N.W.A. no grupo mais perigoso do mundo, perseguidos pelo FBI e mal-amados por uma indústria que os ouvia a mandar f*der as autoridades, mas que não conseguia resistir ao seu óbvio potencial comercial. Esse poder das cúpulas da indústria era o que os Public Enemy tentavam combater com um Chuck D que nunca escondeu a sua óbvia veia política, o mesmo poder contra o qual se ergueu Prince quando se recusou a ser um mero assalariado, exigiu ser proprietário da sua própria obra e pintou a palavra “slave” no rosto. O mesmo poder, representado pelo republicano que representava os interesses da National Rifle Association, Charlton Heston, que tentou calar os Body Count de Ice-T quando estes fizeram de “Cop Killer” um furioso hino de resistência contra as mesmas forças que espancaram Rodney King em directo na televisão. Não é fácil esta América, mas Kendrick Lamar, que até ousou uma retrato de família no relvado da Casa Branca, já nos garantiu que depois da luta tudo ficará “Alright”. Mas até lá ainda haverá lutas a travar, combates para vencer.

Por agora, a América arde nessa mesma televisão que nunca dará espaço à revolução, como cantava Gil Scott-Heron, a mesma televisão que Killer Mike, o vocal membro dos Run The Jewels, ostentando uma t-shirt em que se pode ler a frase “Kill Your Masters”, sintonizou para ver um polícia branco a matar um homem negro e que deu origem ao seu emocionado discurso em Atlanta na sequência dos acontecimentos que estão a fazer história neste preciso momento. A música vai continuar a ser palco de resistência e o hip hop vai certamente documentar este momento divisivo em que todos, brancos e negros, serão chamados a colocarem-se do lado certo da história.