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Coliseu dos Recreios, Lisboa

Rita Carmo

O verão poderá não estar perdido. O otimismo cauteloso dos promotores de concertos em Portugal

Os promotores de concertos reagem com cautela mas algum alívio às regras para a reabertura dos espetáculos. O cenário prometia ser negro, mas a injeção de verbas nas autarquias para assegurar programação no verão é vista como essencial. Ainda assim, com restrições nas lotações, “não há milagres”. Que música vamos ver em palco este verão em Portugal?

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

As regras para espetáculos em sala fechada ou ar livre, contidas nas medidas excecionais para a cultura em contexto de pandemia de covid-19, estão a ser recebidas pelos promotores de espetáculos com um otimismo cauteloso.

Genericamente, a reabertura das salas de espetáculo e espetáculos ao ar livre, tal como apresentada esta semana pelo Ministério da Cultura, exige a utilização de máscaras por parte do público em salas fechadas, lugares sentados nessas circunstâncias (e alternados, mesmo podendo ser ocupadas todas as filas) ou delimitados nos casos dos eventos ao ar livre (cumprindo distância mínima de um metro e meio entre espectadores), definição de vias de entrada e de saída, e limpeza e desinfeção das instalações e recintos. Para os promotores, a maior implicação na sua atividade será a redução de lotações.

Para Luís Pardelha, diretor-geral da Produtores Associados e membro da direcção da Associação de Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos (APEFE), estas regras trazem um “otimismo relativo”.“Os piores cenários não se confirmaram. Estas são as primeiras regras e queremos acreditar que daqui a 15 dias, ou a 30 dias, já existam sinais nos números que a Direção-Geral de Saúde vai recolhendo que permitam ir aligeirando estas restrições e abrindo cada vez mais os recintos de espetáculos e as salas. Esta será a fórmula mínima para reabrir e para podermos voltar a fazer alguma coisa”, acredita o agente de nomes como GNR, Lena d'Água, Dead Combo e Manel Cruz.

Vasco Sacramento, responsável máximo da Sons em Trânsito, considera que "as normas são exequíveis, mas continuamos a falar de um corte de lotações brutal". Representa artistas como Ana Moura, Pedro Abrunhosa, António Zambujo ou Gisela João, estando também à frente do Festival F e da programação da sala lisboeta Capitólio.

Um primeiro exemplo desta nova realidade é o espetáculo Deixem o Pimba em Paz, anunciado para o Campo Pequeno nos dias 1 e 2 de junho, numa produção conjunta da Everything Is New e Força de Produção, ambas da direção da APEFE. Pardelha afirma que este espetáculo serve para "testar e dar um sinal de confiança às pessoas, que responderam inequivocamente que estão com vontade". A primeira data anunciada esgotou "em 10 ou 12 minutos", falando Pardelha de uma lotação de duas mil pessoas para cada espetáculo no Campo Pequeno.

“Vamos ter que nos reinventar e fazer espetáculos que vão ser, na sua larga maioria, com artistas nacionais", disse Álvaro Covões, da Everything Is New, à SIC. "Portanto, vamos ter que baixar custos para que [a redução de lotação da sala] seja suficiente”. O também promotor do festival NOS Alive considera, contudo, que “este pontapé de saída deveria ter sido dado mais cedo”.

A valorização do artista nacional é, para os vários promotores, essencial neste momento. “Este verão, temos que nos apoiar conjuntamente e temos que apoiar também os artistas portugueses. Artistas internacionais nesta fase nem tão pouco viajam, não há ideia de abertura dos mercados”, sublinha Jorge Lopes, da promotora PEV Entertainment, responsável pelo festival MEO Marés Vivas e tendo a seu cargo a exploração da Super Bock Arena - Pavilhão Rosa Mota, no Porto.

30 milhões para as autarquias. Mas “tem de haver critério”

Sobre a verba de 30 milhões de euros que o Governo afirma que será disponibilizada às autarquias para assegurar programação cultural neste contexto, Luís Pardelha prefere "esperar para poder analisar". "Estamos a falar de uma verba que está a ser injetada na programação dos municípios, para fazerem essa programação, mas uma boa parte dos municípios já cancelou ou adiou alguns dos eventos de verão. Temos de perceber quem cancelou, ou quem adiou, o quê, perceber os critérios de atribuição desse valor às autarquias e como é que o vão utilizar. Qualquer injeção de valor na cultura é sempre positiva, mas é preciso não cair nalguns erros do passado recente e deixar bem claras e definidas as regras do jogo, para que essa responsabilidade das autarquias não vá cair em saco roto", considera.

O mesmo afirma Jorge Lopes. "Tem que haver, efetivamente, algum critério. Há que haver alguma criatividade e que não seja para financiar as habituais festas e romarias. Pelo menos nesta primeira fase. Todos nós acreditamos que isto, mais dia menos dia, e esperemos que seja em breve, abra de alguma forma. Mas as indicações que temos neste momento, com estas regras, é que é possível fazer coisas sentados e ponto final”. Ciente de que a pandemia poderá persistir, Vasco Sacramento alerta para a importância de os profissionais dos espetáculos terem "algum rendimento nesta folgazinha que o verão aparentemente nos apresenta, tendo em conta que os especialistas dizem que poderemos ter uma segunda vaga [da pandemia] no outono/inverno".

Para Pardelha, esta verba deve refletir-se numa "mais-valia para artistas, técnicos e para as empresas que estão paradas há meses". A compensação prevista pelos eventos que o próprio Estado cancelou é vista como importante por Sacramento: "A obrigação do Estado é amparar essas pessoas num momento de aflição, e se o Estado não pode controlar o cancelamento de todos os espetáculos que os artistas tinham, pode fazê-lo nos próprios espetáculos [que organizou]". "Esperamos que os órgãos de poder autárquico tenham esse sentido de responsabilidade e de entender que cancelar um evento é inevitavelmente prejudicar uma série de intervenientes, desde os artistas aos técnicos, às empresas de som e montagem de palcos, é toda uma cadeia de valor que fica parada e em casa", acrescenta o diretor da Sons em Trânsito.

O que aí vem

Falando dos seus próprios planos para os próximos meses, Vasco Sacramento refere que tem "muita vontade de reabrir o Capitólio o mais cedo possível". Contudo, também precisa de "manter algum equilíbrio financeiro na operação, ou não vale a pena". "No Capitólio, grosso modo, fazemos espetáculos com duas estruturas: sentados, para 400 pessoas, ou em pé para 1000", afirma Vasco Sacramento. "Em pé, não podemos fazer de todo, logo aí uma parte significativa da atividade da sala, provavelmente até a maioritária, está impedida. Nos espetáculos sentados, de 400 passamos para 200. Ainda não tenho a lotação exata, mas deve ser mais ou menos isso. Com 200 lugares, não há milagres. Não me parece que consigamos fazer muitas coisas. Hoje anunciámos o António Zambujo no Teatro Aveirense dia 6 de junho, e no início da semana vamos anunciar um projeto maior, mas ainda não posso revelar", acrescenta.

Jorge Lopes, da PEV, revela que tem vários projetos em mão, mas "carecem de uma nova atualização destas medidas". "Tal como o governo anunciou, e que reúne no tal decreto da proibição dos festivais, há uma cláusula que diz que de 30 em 30 dias fará uma atualização da abertura ou eventualmente alguma retração que tenha de haver. É mais esta inconstância que nos dificulta, de alguma forma, o trabalho e a programação de alguma coisa. Agora, estamos a trabalhar a ver se conseguimos salvar de alguma forma este verão”, acrescenta.

O promotor do Porto recusa a possibilidade de realizar festivais. "Todos conhecemos o que são os festivais e o que é o comportamento das pessoas, e se alguém acreditar que consegue fazer marcações no chão e as pessoas respeitarem… Na versão sentada, sim. Estamos a pôr a nossa massa cinzenta a funcionar a ver se conseguimos criar algumas coisas interessantes". Já a pensar na edição de 2021 do MEO Marés Vivas, Jorge Lopes afirma que optou por "reconfirmar a Anitta, o Liam Payne e a Jessie J, e ainda há mais um ou dois que queremos reconfirmar", mas também quer "ir atrás de novos". "Estamos à espera de perceber quais são os grandes artistas do próximo ano", conclui.