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Jimmy Cobb

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Jimmy Cobb (1929-2020). O adeus do mais delicado génio da bateria

“Faz com que pareça que estamos a flutuar”, disse-lhe Miles Davis, antes de “Kind of Blue”. Com Coltrane gravou “Giant Steps”, com Wes Montgomery ”Boss Guitar”. Acompanhou Sarah Vaughan e até Billie Holiday. Jimmy Cobb, o mais delicado dos génios da bateria, morreu aos 91 anos

“És tu o Jimmy Cobb?” À pergunta, James, um miúdo de 20 anos, com a missão de acompanhar Dinah Washington pelos concertos que conseguiam arranjar na Flórida, respondeu afirmativamente. Ainda mal saíra de Washington, a sua cidade natal, apenas dava os primeiros passos entre os maiores nomes do Jazz e sem o saber já o Olimpo se colocava à sua disposição. A pergunta tinha sido feita Julian Adderley, conhecido por Cannonball, um dos saxofonistas de Miles Davis. A conversa fluiu e a oportunidade não tardou: Miles estava a precisar de um baterista e Cobb aceitou juntar-se para substituir as, cada vez mais frequentes, ausências de Philly Joe Jones. Da primeira sessão nasceria Porgy and Bess, ópera de George Gershwin, orquestrada por Gil Evans, executada por Miles Davis e a sua orquestra. “O Joe tinha gravado metade, eu gravei a segunda parte, foi assim que começou. Pouco tempo depois ligou-me, Quero-te na banda”, contou ao Smithsonian. Mas o lugar não estava ganho, Miles estava em Boston, Cobb em Nova Iorque e o primeiro concerto seria nessa noite. “Arrumei a bateria e corri para o La Guardia. Quando lá cheguei já tocavam, o Paul (Chambers), o Red (Garland), o (John) Coltrane, o Cannon (Adderley) e o Miles. Estavam na Round about Midnight, sentei-me, esperei pelo momento do 'break' e entrei, sem ensaio ou pauta. Tocámos toda a noite”. Estava ganho o lugar na banda de Jazz mais cobiçada do Mundo, provavelmente a mais respeitada da história. Jimmy Cobb morreu no passado Domingo, aos 91 anos vítima de cancro nos pulmões, o último dos membros da banda que a 2 de Março de 1959, em Nova Iorque, gravou o disco de Jazz mais vendido de sempre, Kind of Blue.

Nascido na capital norte-americana em 1929, a adolescência foi passada na dúzia de quarteirões em torno da sua Corcoran Street. Por lá viveu, de arrancava a pé até à escola católica onde estudou, por lá engraxou sapatos, distribuiu jornais, entregou gelo a casa e recolheu tampas de garrafa para trocar, em molhos de vinte, por dólares e ajudar a mãe a pagar as contas. Filho de pais divorciados, o pai dividia-se entre a segurança em edifícios de governo e o taxi, a mãe entre os filhos e a limpeza de casas. À escola o pequeno James pouco foi. Não porque tivesse sido chamado para a pequena fazenda de tabaco do avô ou porque, como tantos na época, o Exército o tivesse arregimentado. Antes por causa de um amigo que lhe mostrara que o simples bater dos dedos, em mesas ou caixotes, permitia acompanhar os discos. Estes, vinham da mãe e de uma amiga da família que, sabendo do gosto do pequeno, fazia questão em lhos oferecer.

“Não sei bem como, mas tinha no meu quarto todo o Jazz do bairro. Juntavam-se muitos por lá só para ouvir os discos”, contaria mais tarde. E nessa altura a música estava por toda a parte. “Ia para a escola católica e lá tinha os coros e os cânticos, depois havia a igreja batista com o gospel, as big bands na rádio … lembro-me de assobiar música sinfónica quando caminhava na rua”. O pior, ou o melhor, foi quando na rádio, entre a meia noite e as seis da manhã, um DJ mais afoito às novidades começou a passar Bebop. “Nunca mais dormi. Trabalhava a partir das quatro da tarde, ouvia o programa toda a noite. Dormia nas aulas”, confessava. A bateria chegou pouco depois, mas não antes de um dissabor. Numa loja de música, um saxofone prendeu-lhe a atenção e por 75 dólares levou-o. “Pensei que era tenor e só em casa descobri que não. Um amigo acabou por o pedir emprestado, levou-o à loja de penhores e nunca mais o vi. Acho que nem escalas cheguei a tocar”, disse ao Smithsonian. Depois, a prestações, compraria uma bateria. Essa nunca deixaria fugir.

De Billie Holiday a Miles Davis

Primeiro de ouvido, depois com Jack Denay, baterista na National Symphony Orchestra, como professor, foi aos 14 anos que se sentou no banco onde melhor ficaria durante toda a vida. Em plena Segunda Guerra Mundial, por Washington só faltavam músicos. Os mais velhos, que já haviam ultrapassado a idade para serem incorporados, mantinham a animação nos clubes, os mais novos que por ali passavam queriam animação para compensar a dureza dos dias e o pequeno James lá ganhou o seu lugar, fosse a tocar blues, swing, dixieland ou a acompanhar as cantoras que lhe abriram as portas do circuito da alta sociedade. E foi entre elas que desenvolveu a sua maior imagem de marca, a delicadeza com que sempre tocou a bateria. “A sensibilidade, provavelmente, veio de trabalhar com cantoras. É preciso ser muito sensível para as ouvir e conseguir apenas fazer parte do que se está passar”. Hoje, outro fator, facilmente, deve ser tomado em conta: a qualidade da companhia. Aos 18 anos era Cobb quem acompanhava Billie Holiday pelo circuito mais fino da capital americana.

Earl Bostic, saxofonista, seria o primeiro a levar Cobb em digressão, na verdade, o primeiro a mostrar-lhe o mundo fora da cidade natal. E seria na estrada que conheceria alguns dos seus cúmplices mais famosos. Como na temporada passada a servir de banda residente num programa de rádio em Filadélfia, o Symphony Sid All Stars, onde na lista de convidados, além de Miles Davis, passaram Charlie Parker, Milt Jackson ou Toots Thielemans, o belga então ainda guitarrista e sem a famosa harmónica à vista. Sem o saber, aproximava-se do circuito onde acabaria em destaque, mas a que também conheceria o lado mais negro. Charlie Parker morreria novo com complicações causadas pelo consumo de heroína, Coltrane passou perto e mesmo Jimmy apanhou uns sustos. Um deles, Miles conta-o na sua autobiografia, precisamente em Filadélfia. “Fomos tocar ao Showboat em Filadélfia e foi onde apareceu um polícia para tentar prender o Jimmy e o Coltrane por posse de droga, mas toda a gente estava limpa. Durante essa viagem vieram ter comigo também à procura de drogas. Como não encontraram, baixei os calções e disse-lhes para olharem bem para tudo visto que não encontravam nada em mais lado nenhum”, contou o trompetista, conhecido pela pouca tolerância ao consumo de drogas nas suas bandas. Ainda assim, tanto Coltrane como Cobb estariam na sua sessão de gravação mais emblemática.

“Faz com que pareça que estamos a flutuar”

“Faz o que costumas fazer. Faz com que pareça que estamos a flutuar”, disse-lhe Miles antes da primeira sessão de gravação de Kind of Blue. Sem mais que ligeiras indicações por cada música, o disco saiu de improviso e grande maioria das faixas seriam gravadas num único take. “Fui o primeiro a chegar porque naquela altura ainda se levava a bateria para todo o lado. Foi nos estúdios da Columbia, uma velha igreja adaptada que deu aquele som à gravação. Eles foram chegando, cada um com o seu sítio já marcado e bem separados. O Miles deu-nos um papel, que eu nunca tinha visto, com indicações muito simples e pouco mais além dos nomes das músicas. Foi simples. Ele confiava em nós e sabia que se não respondêssemos bem nunca lhe iríamos servir. A verdade é que muitas daquelas músicas foram no primeiro take”, contou ao Smithsonian.

Também no disco, Coltrane já se preparava para fazer o seu caminho e também ele haveria de chamar Jimmy. Demasiado pesado para a delicada fase que Miles atravessava, da convivência em estúdio, Cobb guardou nas memórias a picardia com Sonny Rollins, então o mais famoso dos saxofonistas. “Era a época em que o Sonny era o Colosso (Saxofone Colossus, disco editado em 1956) e todos queriam soar como ele. O Trane apanhava pancada todas as noites em palco. O Miles era maldoso, nessa altura sentava-se sempre para ver. (A picardia) Foi boa e o Coltrane percebeu que tinha de descobrir um som próprio”, contou. Hoje é fácil ver que Coltrane o conseguiu e também ele com a ajuda de Cobb – é sua a bateria em Naima, uma das faixas mais emblemáticas de Giant Steps.

Constar da ficha técnica de Kind of Blue e Giant Steps seria suficiente para ficar numa classe muito restrita de músicos de Jazz. Mas Cobb fez mais. Com Davis gravou Sketches of Spain, Miles & Monk entre outros, acompanhou Coltrane em Stardust, Bahia e no memorável dueto com Kenny Burrell. Com Wes Montgomery gravou oito discos, entre os quais os quais Full House e Boss Guitar, dois dos seus mais bem aclamados álbuns. Cannonball Adderley, Wynton Kelly, Art Peppers, Wayne Shorter, Sarah Vaughan foram outros que o chamaram na hora de gravar e como líder de banda, gravou perto de vinte discos.

Conhecido pela boa disposição, modesto explicava o porquê da carreira. Dizia ter estado sempre “no sítio certo à hora certa” e assumia-se como “ladrão” de truques de outros músicos. Numa das suas últimas entrevistas, já com um estatuto de lenda que ninguém questionava, pediram-lhe um conselho para os novos músicos. “Nunca se sabe para o que vos vão chamar. Aprendam tudo que acabarão por pagar a renda”.