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Duo Ouro Negro

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101 canções que marcaram Portugal #23: 'Amanhã', pelo Duo Ouro Negro

Foram embaixadores do Portugal tropical. Foram embaixadores de Angola em Portugal e no mundo. O que fez de Raul e Milo maiores, para além da elegância da sua música, foram aquelas vozes mornas, os braços abertos, a alegria e os passos roubados à caduque e ao semba. Esta é a 23ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Amanhã', Duo Ouro Negro
(1971)

O bairro foi construído em 1952 na zona da lisboeta Avenida de Roma e os seus edifícios tinham arcadas assentes em pilares que lembravam estacas gigantes. Passou a chamar-se bairro das Estacas. Servido de comércio variado, não faltava uma loja de linhas, novelos e agulhas – num tempo em que pôr a arte caseira a funcionar era regra.

20 anos depois de ter aberto, esta loja estava disponível para trespasse – ou porque vender lã a metro não era amparo ou porque estava escrito no destino que aquele espaço de 30 metros quadrados teria de ser de Milo MacMahon. O bar seria batizado de Hit e duraria 9 anos, até 1985, ano da morte de Milo.

Nesse exíguo espaço, cabia um enorme balcão e os bancos altos junto a este eram os mais concorridos. Algumas mesinhas baixas, sofás de veludo e luz vesga completavam a ambiência de pecado. Mas não era um bar de pecado. Era um bar (um pub) musical, de portugueses de Portugal, de retornados, de africanos brancos, mulatos e negros. Era um bar onde existia um piano e onde sobrava espaço para uma banda, para um microfone onde começaram a dar os primeiros passos alguns artistas de então e de depois.

Milo bebia scotch, num tempo em que o gin, a vodca e muito menos o vinho ditavam tendências. Bebia-se scotch porque era a bebida da noite, porque era a bebida de quem podia evitar a democrática cerveja. Porque revelava poder. Nos pubs de então, as garrafas de whisky, às dezenas, arrumavam-se com etiquetas com os nomes dos clientes presas por elásticos. Quase todos os clientes habituais tinham uma. Servia para durar. Servia para partilhar.

Milo MacMahon vinha de uma terra em que não era difícil partilhar, de muita fartura. Vinha da província de Benguela, terra de gente boa, terra de gente pacífica, terra abençoada por um solo rico e uma costa rica. Pisara as praias da Caotinha, da marginal da Praia Morena, da Baía Azul e da Baía Farta (lá está).

Milo não sonhava em ser aquilo em que se tornou, mas é difícil fugir a um destino guardado e Milo também nunca foi de se esquivar aos desígnios da vida. Milo MacMahon e Raul Indipwo encontraram-se. Que não eram carne nem peixe, nem brancos nem negros, nem angolanos nem portugueses, nem cantavam apenas o folclore de Angola nem só as versões das bandas famosas dos Estados Unidos ou de Inglaterra. Que eram tudo isso e mais. Que tinham descoberto a forma certa, numa época certa, de cantar por todo o mundo. Que Angola e os seus filhos passaram a ser mais respeitados – agora que se tentava remediar muito mal feito.

O Duo Ouro Negro catanou caminho antes de outros, abrindo trilho. Souberam causar estranheza ao cantar palavras do dialeto Quimbundo e Umbundo para logo a seguir vir daí uma Beatalhada. Uau! Tinham cabelo desfrisado e alternavam ternos elegantes com roupas tropicais com cores, flores e palmeiras. Estavam na moda e ditavam moda. Preferiram ser reis na Europa do que em África, mas nunca deixaram de cantar a sua saudade. A saudade do que tinham visto na infância e na adolescência. A saudade do que o seu sangue lhes ditava.

Aiués passaram a fazer parte do léxico em Portugal. Os lamentos africanos também. E também a Mutamba, encontro de machimbombos. E o mufete, e a catembe, e os dialetos do leste de Angola. E a marca Duo Ouro Negro passou a reconhecer-se logo nos primeiros acordes de hungus, rebitas e kissanges. E depois aquelas vozes mornas. Aqueles braços abertos, aquela alegria, aquelas passos roubados à caduque e ao semba. E aqueles sorrisos lívidos. A fazer-nos crer que cantavam só para nós, que éramos irmãos de um Portugal uno e indivisível, do Minho a Timor, passando pelo Bengo para ir acender uma vela ao Santuário da Muxima.

‘Amanhã’, canção já da consagração do Duo Ouro Negro (que duraria ainda mais 15 anos) é uma composição com vários andamentos: começa num mar calmo e é revoltado por uma onda que nos convida a viajar por Luanda, por nos convidar a ir com eles para a farra. A voz de Milo em primeiro plano e as frases que Raul nos vai atirando nos bastidores da canção (O que é que vai fazer amanhã, irmão? Aiué. Amizade em primeiro lugar. Luanda está linda).

E depois trocam, Milo e Raul, Raul e Milo. Irmãos de vida, de canções, de palcos, de amizades comuns, de passado. Irmãos da consagração e de um país que, enorme, era pequeno para ambos. Irmãos na morte de Milo MacMahon. Irmãos na morte de um duo único, um duo das terras do ouro negro.

Raul fez luto por 20 anos. Vestir-se-ia todo de branco até ao fim. É a cor do luto em África. Por respeito ao seu irmão Milo, nunca mais se chamaria Ouro Negro e passou a assumir outro apelido que também não era seu, Indipwo. Mas assumiu sempre que o Duo Ouro Negro, que o Milo MacMahon, não eram apenas presente até 1985. Eram presente nos anos em que ainda viveu e haverá de ser presente de cada vez que se ouvir ‘Amanhã, vou acender uma vela na Muxima...’

Nota final: o Hit durou pouco tempo depois do Milo. Passou a ser um incaracterístico ‘Anos 60’ e é, há 15 anos, o Fadarius. Um enorme senhor da noite, Octávio Freitas, é agora garboso timoneiro do bar do Milo, do qual foi cliente. Lembra-se bem da fauna de então. Serve empatia em copos certos e músicas dignas de pausar conversas. Um dia, também ele, que foi militar em Angola, há-de sentir de novo o cheiro de Luanda. Talvez ‘Amanhã’.

Peço ao meu Lemba que faça com que eu volte
A morar na terra amada que me viu nascer

Ouvir também: 'Kurikutela' (1959)

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    Tony de Matos foi ‘o’ grande cantor romântico de Portugal, um Sinatra à portuguesa. Tinha uma melena negra, fatos de bom corte e uma voz agigantada. Fez suspirar mulheres pelo seu jeito marialva e homens pelo seu carisma. ‘Vendaval’ é a história de uma grande canção. Esta é a 11ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #2: 'Pérola, Rosa, Verde, Limão, Marfim', por Dina

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  • 101 canções que marcaram Portugal #3: 'Lisboa Menina e Moça', por Carlos do Carmo

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  • 101 canções que marcaram Portugal #4: 'Demagogia', por Lena d'Água

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  • 101 canções que marcaram Portugal #5: 'A Canção do Beijinho', por Herman José

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    O Portugal de 1980 estava ainda a despedir-se da euforia da revolução. Estava a ser bonita a festa, pá. Estava de bem consigo, indiferente à troika que aí viria. Queria pão e vinho sobre a mesa. Festas e afetos. E Herman José, que nunca aprendera a ser povo, fê-lo sempre em maior do que todos. Esta é a quinta de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

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    Se Portugal pudesse escolher uma só cantiga do Festival da Canção, escolheria com certeza a ‘Desfolhada’. Simone de Oliveira deporia em 1969 a sua condição de menina. Tomaria balanço para mais cinco décadas de emoção – sentida e feita sentir. Sempre a conjugar com o verso de Ary, com um fogo posto. Esta é a primeira de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas, os compositores e os intérpretes que ficaram para história da música portuguesa