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Distanciamento de público proposto pelo Ministério da Cultura é “exagerado”, consideram os promotores de espetáculos

“Ir a um concerto não é mais perigoso do que ir ao restaurante”, diz à BLITZ Luís Pardelha, da APEFE, comentando as indicações que os promotores de espetáculos receberam do Ministério da Cultura para a realização de eventos em sala e ao ar livre

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Na passada sexta-feira, o Ministério da Cultura fez chegar aos promotores de espetáculos dois documentos com regras para a realização de eventos durante a pandemia de covid-19. À BLITZ, Luís Pardelha, um dos responsáveis pela Associação de Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos (APEFE), que reúne os maiores promotores portugueses, contou que a associação foi ouvida na Comissão de Cultura na passada sexta-feira e mostrou discordância com algumas medidas.

Quanto à proposta de lei para a realização de espetáculos, que determina a proibição de grandes eventos até 30 de setembro e defende a entrega de vouchers aos detentores de bilhetes, Luís Pardelha diz que a APEFE a considerou "equilibrada". A associação pediu apenas que o Governo inclua no decreto-lei a possibilidade de, caso a pandemia evolua de forma positiva, poder ser antecipado o fim das medidas restritivas, afirma o também diretor-geral da Produtores Associados, produtora de espetáculos e responsável pelo agenciamento de artistas como GNR, Lena d'Água, Dead Combo e Manel Cruz.

Quanto aos documentos que recebeu do Ministério da Cultura, a APEFE tem uma posição mais crítica, nomeadamente no que toca à ocupação das salas e dos recintos ao ar livre. Para Luís Pardelha, o distanciamento defendido pelo Ministério da Cultura é "exagerado", inclusivamente se comparado com o praticado por outros setores, como o da restauração. O tesoureiro da APEFE lembra ainda que "médicos, cientistas e virologistas" concordam que o potencial de contágio é maior nos recintos fechados, pelo que não faz sentido a distância entre espectadores ser maior nos eventos ao ar livre.

Luís Pardelha considera ainda preocupante que a menos de duas semanas da data prevista para a reabertura das salas (1 de junho) ainda não se conheçam em detalhe as medidas necessárias para dar esse passo, lembrando que, ao contrário do que acontece na restauração ou nos cabeleireiros, a gestão de um teatro obriga a um esforço de divulgação da programação e de venda de bilhetes. "Não queremos abrir à força, somos responsáveis", ressalva. "Mas já temos conhecimento de colegas, músicos e técnicos, a passar por situações que roçam o dramático e que precisam de ajuda. Esta é uma área precária e sazonal", diz, lembrando que, na cultura, o inverno corresponde à época baixa e é a partir de março/abril que habitualmente há mais atividade.

Para Luís Pardelha, o grande desafio será convencer os espectadores, e antes disso o Governo, o Primeiro-ministro e a Direção-Geral de Saúde, de que "ir a um espetáculo não é mais perigoso do que ir ao restaurante ou ao cabeleireiro". "Nenhum setor aguenta ficar fechado durante vários meses, muito menos o da cultura, que é tradicionalmente mais frágil e, sobretudo na música, menos subsidiado", reforça. "Dialogar e ajudar o setor" é o papel da APEFE, resume Luís Pardelha, revelando que do manual de boas práticas entregue ao Ministério da Cultura e à Direção-Geral de Saúde na passada sexta-feira consta um plano de cinco fases para a reabertura dos espetáculos, sujeito ao mesmo tipo de avaliação a que o Governo pretende submeter o seu plano de desconfinamento.

"É um faseamento, também, para a retoma à normalidade. Sentimos que as pessoas querem ter a possibilidade de ir ver um concerto, uma peça de teatro ou um bailado, mas recuperar a sua confiança é [difícil]. Temos de perceber que este setor não é mais perigoso que os outros", conclui.