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Little Richard

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Little Richard era o rei e a rainha. Sem ele não teria havido “sexo, drogas e rock and roll”

Figura ímpar dos alvores do rock and roll, Little Richard derrubou barreiras, criou uma imagem e uma forma de estar em palco, inspirou os Beatles, os Rolling Stones e sucessivas gerações de artistas ligados à corrente. Desapareceu esta semana aos 87 anos. E o mundo curvou-se numa justa vénia

Em 2013, numa peça da Rolling Stone destinada a assinalar os seus 80 anos, Little Richard procurava explicar de onde tinha afinal de contas vindo o rock and roll de que se proclamava o Arquitecto e o Criador. O que teria sido, na sua origem? Uma expressão de frustração juvenil ou uma manifestação de êxtase? “Foi uma dor e depois uma alegria avassaladora”, explicou então o homem nascido Richard Wayne Penniman a 5 de dezembro de 1932, em Macon, Georgia. “Eu queria expressar essas duas coisas”. Segundo o músico veterano, o êxtase era espiritual e derivava de Deus, mas a dor era uma condição inerente de quem tinha nascido negro, no sul segregado: “A minha mãe tinha 12 filhos. O meu pai foi morto quando tinha 40 anos e foi o meu melhor amigo que matou o meu pai. Por isso a minha mãe teve que ter ajuda. Houve muita dor, mas também muito amor”.

Depois de uma pausa, como escreveu Neil Strauss, o jornalista da Rolling Stone que assinou a reveladora peça, Little Richard concluiu: “Portanto, a dor não era sofrimento. Era a dor do amor. Hum... Isso devia ser uma canção, ‘The Pain of Love’. Gosto disso. É lindíssimo”. Aos 80 anos, Little Richard continuava a pensar nos contornos particulares da sua vida como matéria emocional para fabricar canções. A sua vida era rock and roll e talvez por isso o mundo tenha sentido tanto a sua partida. O músico sucumbiu a um cancro nos ossos no passado dia 9 de maio, em Tullahoma, Tennessee. E, como seria compreensível, o mundo uniu-se num uníssono aplauso que reflecte o seu inabalável estatuto de pioneiro de uma cultura global. Tendo visto outros pioneiros como Elvis Presley, Chuck Berry, Johnny Cash, Carl Perkins, Bo Diddley, Fats Domino, James Brown, Bill Haley ou Gene Vincent partirem, a História resguardava o homem de “Tutti Frutti” como um dos últimos representantes da era que viu o rock and roll nascer. Restará agora Jerry Lee Lewis, três anos mais novo do que Richard, e poucos mais.

Uma vida tutti frutti

Na introdução de Feel Like Going Home – Portraits in Blues and Rock ‘n’ Roll (O & E, 1971), Peter Guralnick, talvez um dos mais importantes autores a ter dado atenção à história dos blues e do período formativo do rock and roll, sublinhava a estranheza inicial do som ao recordar a primeira vez que ouviu Little Richard, quando ia no carro com alguns amigos a caminho da escola: “A-wop bop a lu bop a lop bam bam / Tutti frutti, oh rooty / Tutti frutti, oh rooty, gritou-nos. A nossa primeira reacção, penso eu, foi de desapontamento. O pai de um dos meus amigos ia a conduzir e expressou o nosso descontentamento antes de nós mesmos o podermos fazer. Que domínio da língua inglesa, disse ele, e mudou de estação. Rimo-nos todos, embaraçados, porque era, afinal de contas, culpa nossa”. E por “nossa”, Guralnick, que contava então 12 anos, queria obviamente dizer de toda uma geração nascida durante ou imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, uma geração que sabia estar a cavar um fosso que os iria irremediavelmente separar dos seus antecessores, uma geração que queria coisas diferentes da vida, que iria questionar todas as instituições até aí tidas como inabaláveis e que mantinham a sociedade americana em funcionamento: a moral e os bons costumes, o casamento, a religião, a economia, a estrutura de classes, a separação racial – pilares de uma realidade que estava prestes a desmoronar-se. O rock and roll era a alavanca que iria ajudar a deslocar essa realidade. Os mais velhos não iriam compreender. “E a culpa era nossa”, garantia Guralnick.

“Podem olhar para qualquer lado... Eu sou a única coisa que resta. Eu sou o bonito Little Richard lá de baixo de Macon, na Georgia. Vocês sabem, o Otis Redding é de lá, e o James Brown é de lá, e o Wayne Cochran é de lá... Eu era o mais bonito, por isso fui o primeiro a sair. A coisa mais bonita da cozinha, sim senhor. Eu quero que saibam que sou o Liberace de bronze. Pouco barulho, pouco barulho”. Em 1970, antes de uma longa entrevista com o músico, David Dalton recordava nas páginas da Rolling Stone o clássico discurso de introdução que com poucas variações Little Richard manteve até ao fim da sua carreira de palco. Um discurso que deixava claro que tinha sido a música e o desafio das convenções a permitir-lhe escapar: à Georgia, à cor e à própria identidade sexual.

Myles E. Johnson escrevia há dias no New York Times, numa peça com o revelador título O Triunfo Queer de Little Richard, que o estilo deste músico era algo nunca antes visto: “um acerto de contas entre as suadas cerimónias das igrejas baptistas do sul que ele testemunhou enquanto criança e a sensualidade crua que caracterizava o jazz e os blues. Ele fez uma ponte com a extravagância e a teatralidade da igreja negra e extraindo daí sentido deu-o depois a milhões de consumidores. E fez tudo isso enquanto abraçava uma feminilidade que pode ser directamente relacionada com a sua “queerness”:”

Depois de James Brown nos anos 70, depois de Marvin Gaye, Prince, Freddie Mercury, Elton John, David Bowie, Marilyn Manson, Andre 3000 e Nicki Minaj, Lizzo ou Megan Thee Stalion, depois de Variações e Conan Osíris ou Filipe Sambado, talvez a imagem de Little Richard, com o seu bigodinho aparado, sobrancelhas tratadas, cabelo esculpido, maquilhagem e roupas feitas de luz, inspire apenas o sorriso que se reserva para as velhas glórias. Mas se fecharmos os olhos e o plantarmos no centro do Sul segregado dos anos 50 do século passado, o mesmo sul que tinha inspirado a fruta estranha a que Billie Holiday e Nina Simone e Jeff Buckley deram voz, talvez se entenda um pouco da sua enorme coragem.

Em 1970, as memórias de Little Richard relativas aos seus primeiros passos na música, década e meia antes, estavam ainda muito frescas. E o seu retrato do momento em que “Tutti Frutti” se juntou à banda sonora de uma verdadeira revolução era muito claro e vívido: “Os miúdos estão a sair de casa porque não conseguem falar com as suas mães, preferem falar com um amigo; os jovens rapazes não conseguem falar com os seus pais, porque os pais pensam que eles são malucos. Mas eles não são malucos, são apenas sábios e têm mais coragem para fazerem o que acham que têm que fazer e antes não podiam. Eles são o povo real que os falsos não querem que o mundo saiba que existe”.

Em 1955 o mundo era de facto diferente. “Tutti Frutii”, o primeiro hit de Little Richard, talvez possa ter sido precedido por algumas canções que poderiam igualmente reclamar o título de “big bang” do rock and roll – “Rocket 88”, o tema de Ike Turner a que Jackie Brenston deu voz em 1951 é bastas vezes apontado como o princípio disto tudo -, mas o rock and roll nunca foi apenas uma batida e “Tutti Frutti” condensou uma série de qualidades que até aí nunca se tinham exactamente cruzado, pelo menos não naquelas proporções: para lá da cadência que de facto já representava um nítido passo evolutivo em relação ao rhyhm n’ blues, o tema tinha uma óbvia carga sexual (mesmo depois da letra original, com explícitas conotações homossexuais – “Tutti Frutti, good booty / If it's tight, it's all right / And if it's greasy, it makes it easy” – ter sido suavizada), incorporava calão que funcionava como uma espécie de código geracional – “os jovens rapazes não conseguem falar com os seus pais”, certo? – e, sobretudo, era interpretado daquela maneira maior do que a vida, visceral, magnética, por um homem que compreendia que não se podia subir a um palco com a mesma roupa com que se ia à igreja ao domingo. Little Richard, pode dizer-se, foi dos primeiros a entender o real significado de “show” na palavra “showbusiness”.

O single, lançado na recta final de 1955, foi um êxito de ambos os lados do Atlântico, há-de ter feito saltar da cadeira miúdos jovens como John Lennon ou Mick Jagger, e precedeu uma série de outros clássicos a que deu voz, corpo e alma, de “Long Tall Sally” e “Rip It Up” a “Ready Teddy”, “The Girl Can’t Help It”, “Lucille”, “Keep A-Knockin’”, “Good Golly Miss Molly”, “Baby Face” ou “Whole Lotta Shakin’”, todos lançados antes da década de 50 se esgotar. Os êxitos de que a rádio parecia não se fartar alimentavam tours intermináveis por um sul ainda segregado, mas que o rock and roll começava a transformar, com a energia contagiante a derrubar as fronteiras artificiais que nas salas separavam a audiência branca da negra.

O sucesso também alimentou o seu apetite sexual. Richard já tinha sido preso por voyeurismo, mas as circunstâncias particulares da estrada e o dinheiro facilitariam o seu estilo de vida. O cantor conheceu Angel em Savana, na Geórgia, uma jovem extremamente bonita que atraía homens para sexo nos bastidores, dando ao cantor o seu tipo de satisfação preferida. Um dos homens que Angel seduziu foi Buddy Holly. “Buddy e eu éramos bons amigos”, recordou Richard nas páginas da Rolling Stone, em 1984. “Buddy gostava de Angel. Ele era maluco pelas mulheres. Um dia estávamos a tocar no Paramount e o Buddy veio ao meu camarim. Ele estava a fazer sexo com a Angel quando o apresentaram no palco. Ele estava a tentar despachar-se para poder ir para o palco. E conseguiu. Acabou e foi para o palco, ainda a apertar o cinto. Nunca me hei-de esquecer: ele veio-se e depois foi-se”.

Lidar com todas estas questões – o peso da cor de pele, a orientação sexual, o sucesso e a promiscuidade, o álcool e as drogas – levou Little Richard a questionar o seu modo de vida e a ver sinais divinos em tudo – depois de um concerto em Sidnei, na Austrália, em Outubro de 1957, Richard afirmou ter visto uma bola de fogo no céu, algo que encarou como um sinal de Deus mesmo depois de ter sido informado tratar-se do rasto do lançamento do Sputnik 1, o primeiro satélite artificial a orbitar a Terra. “Para mim chega. Acabou-se. Vou deixar a música e regressar a Deus”. O músico interrompeu a digressão, exigiu regressar mais cedo aos Estados Unidos e depois acabou por confirmar ter feito a coisa certa quando o avião em que era suposto ter voltado depois do último concerto se despenhou no oceano. Little Richard decidiu estudar teologia, mas não demorou a ser expulso do colégio após um dos alunos ter confessado ao pai, um dos líderes da instituição, que o ex-cantor gostava de o observar enquanto se tocava.

O regresso à música foi a consequência, com Brian Epstein, manager dos jovens Beatles, a trazer Little Richard para apresentações no Cavern de Liverpool e depois para uma residência em Hamburgo, na Alemanha: “Passámos dois meses em Hamburgo. O John, o Paul, o George e o Ringo. Eles ficavam no meu quarto todas as noites. Eles não tinham dinheiro nenhum, por isso eu costumava pagar-lhes a comida. Costumava pagar bifes ao John”.

Little Richard teve sempre que encaixar a tensão entre a carne e o espírito e ao longo da sua carreira oscilou várias vezes entre o rock and roll e o gospel, entre a electricidade e o poder de Deus. Descreveu-se como gay, bissexual e omnisexual, e condenou até publicamente a sua própria orientação quando, em 1982, em entrevista a David Letterman, afirmou que estava “curado”: “Deus deu-me a vitória. Já não sou gay agora, mas, sabes, fui gay toda a vida. Penso que terei sido um dos primeiros gays a assumir-se. Mas Deus fez-me saber que fez” – e a frase resulta melhor em inglês do que traduzida – “Adam be with Eve, not with Steve”.

Génio cheio de contradições que não beliscam a sua pioneira importância, o seu contributo para a transformação da história, da música, mas também da sociedade, é inquestionável. “Tutti Frutti” encabeçou a lista da Revista Mojo com as 100 Canções que Mudaram o Mundo, foi adicionada aos registos da Biblioteca do Congresso Americano que declarou que o tema “anunciou uma noa era na música”. Little Richard foi distinguido com um Lifetime Achievement Award nos Grammys em 1993, viu três das suas canções clássicas serem adicionadas ao Hall of Fame da mesma instituição e recebeu todo o tipo de honrarias locais, estatais e até nacionais.

Entre as inúmeras despedidas e vénias de que foi alvo após a sua morte ter sido divulgada na inmprensa internacional, as palavras a ele dedicadas pelos Foo Fighters de Dave Grohl espelham um sentimento amplo: “Ele foi o inovador mais rebelde e cheio de alegria do rock and rol. Obrigado por teres plantado essa semente, Richard”. 65 anos depois, felizmente, Little Richard ajudou a que haja hoje outro tipo de fruta suspensa na árvore do sul nascida dessa semente. Sem ele, o rock and roll seria, muito provavelmente, outra coisa qualquer. Menos enérgico, menos colorido, menos escandaloso e bem menos divertido.