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Uma parceria com o jornal EXPRESSO

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Né Ladeiras num detalhe da capa do álbum “Sonho Azul”

101 canções que marcaram Portugal #22: 'Sonho Azul', por Né Ladeiras

'Sonho Azul' é a canção mainstream de Né Ladeiras, a que iria lançar a cantora hoje conotada com uma ambiência mais tradicional. É uma canção elegante e intemporal dos anos 80, mas foi para Né Ladeiras um apeadeiro na música que queria dar ao país nas décadas que se seguiriam. Esta é a 22ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Sonho Azul', Né Ladeiras
(1984)

Em 1973, um professor universitário e ativista chileno é torturado e assassinado pelo neurótico regime de Pinochet. Victor Jara seria, desde aí, um ícone da liberdade e de oposição a regimes opressores. O seu nome pareceu por isso apropriado a uma banda nascida nos ecos da liberdade em Portugal – numa época em que a Brigada se dedicava a decompor os versos e as músicas que se faziam em países desassossegados da América Latina.

Né Ladeiras era uma das vozes desse projeto que mais tarde soube aconchegar a música mais tradicional de Portugal – que soube juntar instrumentos, recolher cancioneiros e dissociar das nossas raízes musicais o xaile e a postura curvada. Em 1982, aventurou-se em nome próprio com o álbum ‘Alhur’. A cantora da Brigada Victor Jara, que se conotara com a esquerda interventiva, quis nesse álbum os Heróis do Mar, músicos virtuosos mas conotados com outra intervenção e sobretudo com outras latitudes musicais. Os Heróis do Mar souberam ler bem mais do que se pronunciava e fizeram desse primeiro álbum de Né Ladeiras um prelúdio do que iria fazer dali para a frente. E serviu para acicatar a sua liberdade em escolher o que queria fazer.

Né Ladeiras, por feitio ou influência das gentes que com ela partilharam palcos, nunca soube infletir a sua dignidade: no início dos anos 80, a editora sugeriu que trocasse de nome; queriam fazer dela uma Rita Lee à portuguesa. Queriam fazer dela o que Né Ladeiras nunca fora nem nunca seria. Cedeu apenas a Pedro Ayres Magalhães ao fazer o álbum de que menos gosta no seu caminho musical, ironicamente aquele que as rádios mais bem receberam, aquele que ironicamente a fez, num fogacho, mainstream.

O "Sonho Azul" é um álbum de que Né Ladeiras não gosta e não gosta de ser cunhada por ele, por aquela canção (dado factual: delicada, melódica e bela). Não gostou da capa nem de quase tudo o resto, mas o 'Sonho Azul' é hoje uma canção intemporal, com laivos de jazz e de groove. Inscreve-se na pop fresca que se fazia nos anos 80 e que faz parte, à revelia de Né Ladeiras, das canções elegantes que se fizeram nessa década e que ainda hoje perduram. Pode ser uma canção de fim de noite em qualquer década e, por ser uma canção de amor, fica bem em qualquer banda sonora de qualquer entrelaçar de mãos.

O 'Sonho Azul' não era a música que Né Ladeiras tinha feito até aí e decididamente não seria a música que queria fazer daí em diante. Mas a música, como a vida, não é um poema em linha reta e antes de Né Ladeiras cantar outros poetas, outras atmosferas e outros discursos, tomou o 'Sonho Azul' como um apeadeiro do seu percurso artístico.

A cantora dos Trovante e da Banda do Casaco queria dar a Portugal música apurada, cruzar recolhas e cancioneiros. Queria compor diferente e que para ela compusessem diferente. Queria unir o contexto urbano e as expressões musicais de carácter tradicional e cultural próprias do ambiente rural. Deu a Portugal obras-primas e quis estar do lado certo da música – que é a música na sua essência, sem cedências.

Né Ladeiras é uma cantora introspetiva e traz serenidade a quem a ouve. Gosta de sons, muitos, mas abomina o barulho, a tralha musical. Tem o ouvido treinado para sons depurados, para instrumentos tocados depuradamente. Consegue, na sua via progressiva e transgressora, embalar e hipnotizar. A nossa Lisa Gerrard consegue transpor atmosferas terracotas. E sabe bem incorporar memórias trágicas e felizes. E faz gala em registar o nomadismo de terras longe e de povos com outras perspetivas musicais – como o Brasil, Angola ou Moçambique.

Antes de um álbum tomado das canções de Fausto Bordalo Dias, "Todo Este Céu", dedicou ao seu país uma obra-prima, porventura a sua maior obra-prima. Recolheu-se em Trás-os-Montes, bebeu Giacometti e Margot Dias e compôs um álbum com título homólogo. Era esta afinal a Né Ladeiras por que queria ser invocada. ‘Trás-os-Montes’ é um álbum belo, de ambiência tradicional (do melhor que a nossa música tradicional tem), cerzido com vagar e talento. É um álbum português mas poderia ser um álbum sem fronteiras. E Portugal deve orgulhar-se de o ter.

Faria depois incursões pela darkwave melancólica, de inspiração xamânica e quase psicadélica, mas o que nos faz querer continuar a ouvir Né Ladeiras é a sua consistência. É a sua alegria de cantar e de nos dizer em forma de canções o melhor que temos na nossa raiz.

Levei-o comigo
Sonhou um sonho
Da cor do meu
Deitados no leito da lua
Na frescura, que tremor...

Ouvir também: 'La Molinera', incluído no álbum ‘Trás-os-Montes (1994), revisitada mais tarde no disco ‘Voz e Guitarra’ (1997) numa versão depurada só com as cordas de Pedro Jóia e Amadeu Magalhães. Uma canção embalada pelas fiandeiras de Miranda do Corvo, traduzida e cantada para castelhano.

  • 101 canções que marcaram Portugal #17: 'Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades', por José Mário Branco

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    Aquilo por que José Mário Branco lutou foi a sua matriz de vida: a liberdade. Tomou-a a pulso e guardou décadas a tentar incutir em Portugal que a liberdade não é um dado adquirido e que há muitas formas de repressão. A história de José Mário Branco atravessa Humberto Delgado, Paris, Zeca Afonso e Luís de Camões. É feita de inquietação e serve de rumo para um Portugal atual. Esta é a 17ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #18: 'Sôdade', por Cesária Évora

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    Cesária Évora é a embaixadora de Cabo Verde no mundo, 'Sôdade' a sua canção mais emblemática. A que define a essência dos cabo-verdianos: a angústia de ficar querendo partir e a angústia de partir querendo ficar. Esta é a 18ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #19: 'Marcha dos Desalinhados', pelos Delfins

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    A história dos Delfins cruza-se com António Variações, Eduardo Nascimento e Miguel Esteves Cardoso. Tiveram engenho para criar canções servissem tanto quem quisesse revoltar-se como quem quisesse uma música de fundo para abraços apaixonados. Foram a banda do pós-PGA, de uma geração que não tinha por que revoltar-se, a maior banda portuguesa dos anos 90. Esta é a 19ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #20: 'Cavalos de Corrida', pelos UHF

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    No final dos anos 70, como reação a canções de intervenção e delicodoces, passou a construir-se uma nova música em Portugal. Nascidos na margem a sul da capital, os UHF foram alento para uma nova geração de músicos e de público, regulando até hoje o rock que se faz por cá. Esta é a 20ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #21: 'Porta Secreta', por Artur Garcia

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    Em 1967, o Festival da Canção foi ganho por Eduardo Nascimento. Nesse ano, Artur Garcia, uma das grandes vedetas em Portugal, levou a canção que o iria imortalizar, tendo porventura escolhido o ano errado para levar a concurso a sua ‘Porta Secreta’. Foi um ídolo do seu tempo. Esta é a 21ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #13: 'Canção de Madrugar', pelo Conjunto Académico João Paulo

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    Portugal não compareceu na Eurovisão em 1970, mas Sérgio Borges, o vencedor, inscreveria com autoridade outra das canções desse festival. O seu Conjunto Académico faria de ‘Canção de Madrugar’ um sucesso. É uma canção que, cantada de mil formas, soará sempre nova. Esta é a 13ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #14: 'Estou Além', por António Variações

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    António Variações viveu 39 anos e varreu Portugal em dois. Portugal ainda não se recompôs de António Variações. Variações não era de tempo algum e o nosso tempo ainda não chegou a Variações. Uma história da música em Portugal que cruza Amares, o Frágil, o Zé da Guiné, a Guida Gorda e Andy Warhol. Esta é a 14ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #15: 'Verdes Anos', por Carlos Paredes

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    Carlos Paredes era um compositor complexo e um homem complexo. O bem que fez resume a essência de onde está a nossa génese. Poderia servir de compêndio para a diferença entre o virtuosismo e a emoção. A sua história cruza música popular e erudita. Malangatana. E Big Macs. Esta é a 15ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #16: 'A Minha Casinha', por Milú

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    Milú foi figura primeira de filmes nos anos 40 e 50. Arriscou carreira no Brasil, regressou e esteve quase vinte anos sem filmar. José Fonseca e Costa recuperou-a já veterana, desconstruindo a imagem cândida que preservava de filmes estereotipados. ‘A Minha Casinha’, tal como ela, faz parte de um tempo ingénuo e puro, faz parte de Portugal, mas pouca parte faz já de nós. Esta é a 16ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #7: 'Recordar É Viver', por Victor Espadinha

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    ‘Recordar É Viver’ é uma canção portuguesa, mas poderia ser francesa ou italiana. Victor Espadinha, homem inquieto e de muitos talentos, soube aí que tinha mais um: cantar. O homem dos palcos, da rádio, da televisão, da greve de fome, da carreira adiada em Londres, teve assim a legenda de uma carreira que não se bastou aí. Esta é a sétima de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #8: 'Kanimambo', por João Maria Tudella

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    João Maria Tudella foi espião, cantor, tropicalista empedernido. Era um aristocrata nos modos e na substância. 'Kanimambo', o seu 'one hit wonder', é hoje uma canção datada, que conserva a memória dos que viveram no Portugal ultramarino. Ainda que essa memória não esteja ainda esquecida, quem ouve hoje os primeiros batuques da canção não deixa de sorrir, de rever o seu humor. Uma história que cruza Lourenço Marques, o Repórter X e Jorge Jardim. Esta é a oitava de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #9: 'Amor', pelos Heróis do Mar

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    Foi uma das saídas fora de estrada que os Heróis do Mar fizeram para regressarem depois à sua matriz. À provocação do início seguiu-se uma canção doce, dançável, inflexão ao rock seco que se fazia então em Portugal. Ainda hoje, aquele ‘dráá-tá-tá-tá’ tem um efeito dopamínico. Esta é a nona de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #10: 'Menina dos Olhos d'Água'

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    Pedro Barroso foi um homem de contradições: doce e indignado, um homem com o ‘sim’ por génese e o ‘não’ por convicção. Um esculpidor de cantigas impassível a modas, um criador sem tempo – sempre no tempo certo. Esta é a décima de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #11: 'Vendaval', por Tony de Matos

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    Tony de Matos foi ‘o’ grande cantor romântico de Portugal, um Sinatra à portuguesa. Tinha uma melena negra, fatos de bom corte e uma voz agigantada. Fez suspirar mulheres pelo seu jeito marialva e homens pelo seu carisma. ‘Vendaval’ é a história de uma grande canção. Esta é a 11ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #1: 'Desfolhada Portuguesa', por Simone de Oliveira

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    Se Portugal pudesse escolher uma só cantiga do Festival da Canção, escolheria com certeza a ‘Desfolhada’. Simone de Oliveira deporia em 1969 a sua condição de menina. Tomaria balanço para mais cinco décadas de emoção – sentida e feita sentir. Sempre a conjugar com o verso de Ary, com um fogo posto. Esta é a primeira de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas, os compositores e os intérpretes que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #2: 'Pérola, Rosa, Verde, Limão, Marfim', por Dina

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    Dina. Dinamite. A meia dose, como lhe chamava Kris Köpke. Bebeu música de África e do rock, e com elas compôs baladas. Pouco tempo antes da reclusão, teve direito a celebração com músicos insuspeitos. Como insuspeito foi construído o seu percurso na canção em Portugal. Esta é a segunda de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas, os compositores e os intérpretes que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #3: 'Lisboa Menina e Moça', por Carlos do Carmo

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    Esta canção, escrita a quatro mãos, tornou-se no hino de Lisboa. De uma Lisboa que ainda existe, que existirá sempre. Os bairros, o fado, a sua luz. Lisboa vive hoje de outros pregões, mas nem por isso deixa de ser uma cidade menina e moça, a mulher da vida de muitos. Esta é a terceira de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #4: 'Demagogia', por Lena d'Água

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    'Demagogia' é uma canção da pré-ressaca do rock português. Uma canção politizada, de inquietação contra os políticos, uma canção de ressaca da saída de Lena d'Água da Salada de Frutas. Esta é a quarta de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #5: 'A Canção do Beijinho', por Herman José

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    O Portugal de 1980 estava ainda a despedir-se da euforia da revolução. Estava a ser bonita a festa, pá. Estava de bem consigo, indiferente à troika que aí viria. Queria pão e vinho sobre a mesa. Festas e afetos. E Herman José, que nunca aprendera a ser povo, fê-lo sempre em maior do que todos. Esta é a quinta de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa