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Agir: “Com algum álcool à mistura, é impossível haver um segurança por pessoa para ver se à sua volta está um espaço de 20 metros”

As regras indicadas pelo Ministério da Cultura para o regresso dos concertos terão impacto também nos músicos. Agir sublinha que há que ser “tolerante” para quem está a regulamentar esta situação pela primeira vez, mas tem sérias dúvidas sobre a forma de pôr as medidas em prática. Especialmente “com a euforia que é maior nos espetáculos ao ar livre”, maioritariamente feitos pelas câmaras municipais

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

No dia em que são conhecidas as diretrizes que o Ministério da Cultura enviou aos promotores de espetáculos para a reabertura das salas, em contexto de covid-19, Agir diz à BLITZ que é importante ser "tolerante" para com quem está a legislar sobre esta matéria "pela primeira vez". Contudo, o músico mostra sérias dúvidas quanto à exequibilidade de várias das medidas propostas pelo Ministério da Cultura (MC).

"Temos de perceber que não existe uma fórmula. Não adianta começar a 'cascar' só porque sim. Ainda assim, é preciso tentar perceber se estas medidas são praticáveis, se são exequíveis", afirma. "A maior parte dos espaços fechados é composta por teatros pelo país inteiro, com lotações inferiores a 800 ou 600 lugares. Separar as pessoas, sentando cada uma com dois lugares vagos a seu lado... Nem vou falar do investimento que se tem de se fazer na parte da segurança sanitária extra. Vou falar só na bilheteira, que é o negócio principal destes teatros: se a cultura já passa dificuldades em dias normais, reduzir drasticamente a lotação, sendo a a atitude certa, creio que não é exequível a nível financeiro. Não é sustentável", considera.

Recorde-se que a alocação de um espectador por cada 20 metros quadrados em eventos ao ar livre, lugares marcados dentro e fora de portas, ocupação espaçada em filas desencontradas nas salas e bilhetes obrigatórios mesmo em espetáculos gratuitos são algumas das regras que o Ministério da Cultura sujeitou à apreciação dos promotores de espetáculos ao ar livre ou em recinto fechado em tempo de covid-19. A redução de lotações será, em todos os casos, uma realidade.

"Estamos a viver num tempo em que as pessoas estão num misto de querer sair de casa, mas ainda com algum medo de o fazer. Não acredito que de um dia para o outro desatem a ir ver teatro, música ou bailado", opina o músico. "Em Portugal 80% ou 90% dos concertos são feitos pelas câmaras: com a euforia que é maior nos espetáculos ao ar livre, com algum álcool à mistura, é quase impossível haver um segurança por pessoa para ver se à sua volta está um espaço de 20 metros. Imaginemos a zona da restauração, imaginemos a casa-de-banho de um festival... O investimento que teria de ser feito para haver casas-de-banho onde só entrasse uma pessoa de cada vez, para desinfetá-la após a saída de cada pessoa... E imaginar o Alive com cadeiras à frente do palco!", elabora.

"Eu tenho a certeza que estas medidas vêm do melhor lugar possível, das melhores intenções possíveis. E temos de começar a experimentar. Estas medidas resultam? Não, vamos melhorá-las passo a passo. Temos de ser muito tolerantes. Quero zero derrotismo, nem quero 'cascar' em quem teve as ideias, mas na prática avizinham-se tempos muito difíceis", avisa.

Agir acredita que "a seguir ao confinamento virá uma época de crise económica gigante, e se a isso juntarmos um país sem cultura, ficamos ainda mais pobres!". "Estas são pequenas soluções", reconhece, "até um pouco mais para nós, músicos, continuarmos a sentir-nos estimulados para fazer coisas e para as pessoas terem um momento de distração".