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Tony Allen

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A história de Tony Allen, talvez o melhor baterista de todos os tempos

Cúmplice de Fela Kuti na criação do revolucionário afrobeat na Nigéria, Tony Allen gravou abundantemente até ao final da sua vida, tendo estabelecido proveitosa parceria com Damon Albarn dos Blur em vários projetos. Há dias, os Gorillaz dedicaram-lhe 'How Far', uma sentida homenagem para um músico que foi longe e que Brian Eno considerava “o melhor baterista que já viveu”. Uma história rica que aqui se percorre, dias depois de o homem que colocou África no futuro ter partido

África era, à entrada dos anos 70, um continente turbulento, marcado por guerras civis, por um sentido independentista vincado, por ideias progressivas, mas também ferido de forma profunda por séculos de colonialismo europeu e por interferências das grandes potências que encaravam muitos dos então ainda nascentes países – e a Nigéria, por exemplo, só se tinha tornado uma república independente do império britânico em 1960 – como territórios onde poderiam exercer os seus interesses políticos, económicos e geoestratégicos.

Quando regressaram à Nigéria, no início dos anos 70, depois de quase um ano de trabalho em Los Angeles, os Koola Lobitos eram um coletivo transformado. O seu líder, Fela Kuti, tinha batizado a sua particular mistura de highlife (um ritmo proveniente do país vizinho da Nigéria, o Gana), jazz e ritmos tradicionais yoruba, como o juju, como afrobeat, mais uma ideia, no início, do que exactamente um som – “tudo era ‘afro-isto’ ou ‘afro-aquilo’ naquele tempo, por isso na altura ‘afrobeat’ era apenas um rótulo novo”, recordava Tony Allen na sua biografia, "Tony Allen – An Autobiography of the Master Drummer of Afrobeat" (Duke University Press, 2013).

Foi essa a ideia que Fela carregou consigo para os Estados Unidos, país onde escutou o funk revolucionário de James Brown e testemunhou, em primeira mão, as igualmente revolucionárias e combativas estratégias de afirmação política dos Panteras Negras. De regresso a Lagos, Fela estava desejoso de levar a sua ideia de afrobeat mais longe, para o futuro, descartou o nome Koola Lobitos e substitui-o por um muito mais expressivo, Afrika 70, dando ao seu baterista, Tony Allen, o papel de diretor musical.

Em Los Angeles, Fela tinha aprendido a força que a simplicidade de arranjos e a determinação rítmica da música podiam concentrar e essa direcção começou a manifestar-se nas suas novas composições, em temas como “Black Man’s Cry” ou “Beautiful Dancer” e “Jeun K’oku”. “Foi depois de ‘Jeun K’oku” que tudo rebentou para nós”, contava Tony Allen. “Fomos diretos ao topo e ficámos lá. Todas aquelas malhas eram mais simples, sem grandes fogos de artifício, e a música começava realmente a mexer. Era muito melhor que o que fazíamos com os Koola Lobitos. E foi por isso que, quando James Brown veio a Lagos com a sua banda, por volta de finais de 1970, nós deixámo-los boquiabertos. Eles estavam instalados no Hotel Federal Palace, mas paravam no Afro-Spot todas as noites, porque curtiam a música, havia muitas raparigas por ali e porque queriam fumar, também. O próprio James Brown nunca veio ao clube, mas o Bootsy Collins estava a tocar baixo com ele e eu conseguia perceber que ele era um perfeito génio no baixo. Até hoje, o Bootsy Collins diz que ter visto a nossa banda foi uma das mais importantes experiências da sua vida”.

Da América, Fela pode ter trazido uma ideia, uma direção, mas de Lagos, James Brown e os seus músicos, os explosivos J.B.’s, levaram a certeza de que a música poderia ser uma ferramenta transformativa de sociedades, um laboratório para o ensaio de conceitos progressivos e, sobretudo, uma devastadora força na pista de dança. E Tony Allen era, indubitavelmente, o centro dessa imparável força motriz que haveria de transformar o afrobeat num género maior, de impacto global.

Tony Oladipo Allen

“Eu nasci Tony Oladipo Allen, em Lagos, a 20 de Julho de 1940, e cresci numa zona chamada Lafiaji, mesmo no centro da Ilha de Lagos”, começava por relatar o baterista, no arranque da sua autobiografia. “O nome do meu pai era James Alabi Allen. Ele era nigeriano, um Yoruba de Abeokuta. Não sabemos muito bem como é que o nome ‘Allen’ cehgou à família do meu pai, mas é muito provavelmente o nome de um dono de escravos”. Nas páginas seguintes da envolvente autobiografia escrita com Michael E. Veal, um músico, professor de música e de Estudos Afro-Americanos em Yale, nos Estados Unidos, Allen explicava ser o mais velho de seis filhos, relatando depois as diferentes profissões dos seus irmãos, boa parte deles estabelecidos em Londres: um engenheiro de aeronáutica empregado pela British Airways, um funcionário público, um médico, uma enfermeira chefe (que trabalha num hospital de Boston, nos Estados Unidos) e uma comerciante, estabelecida num dos mercados de Lagos. “Todos temos nomes Yoruba, mas como a nossa mãe era do Gana, também temos nomes ganenses. Eu por exemplo: há gente em Lagos que ainda hoje me conhece por Kwame, porque eu nasci a um sábado e esse é o nome habitual no Gana para quem nasce nesse dia”.

Tony Allen passou o final da adolescência a trabalhar para um tio numa fábrica de rádios alemã em Lagos chamada Witt & Busch. “Fazíamos amplificadores”. Talvez por causa dessas qualificações, Allen ganhava um dinheiro extra aos fins de semana a tocar discos em festas, como DJ, levando a sua própria aparelhagem: “Eu tocava sobretudo highlife do Gana, coisas como E.T. Mensah, The Ramblers, The Stargazers. E também tocava highlife nigeriano, Bobby Benson, Victor Olaya e o Cardinal Rex Lawson”. Um dia, um tipo chamado Akanni Pereira levou-lhe um rádio para reparar. Allen veio a descobrir tratar-se de um guitarrista, músico de Victor Olaya, e quando lhe entregou o rádio já reparado, acabou por assistir a um ensaio da banda e apaixonou-se pelo trabalho de Osho, o baterista, a quem pediu, no final da sessão, que lhe desse aulas. E, claro, Allen começou por aprender a tocar highlife, seguindo-se a rumba e a valsa e o mambo, ritmos habituais nos bailes em que as bandas nigerianas tinham trabalho. Pouco depois de ter começado a dominar o básico da bateria, Tony Allen envolveu-se num confronto físico com um seu superior, um funcionário alemão da fábrica em que trabalhava, e acabou por se despedir, comunicando aos pais que queria dedicar-se a tempo inteiro à música: “Isto foi para aí em 1959 ou 1960”.

A paixão de Tony Allen pelos discos levou-o a estudar com atenção não apenas os êxitos de highlife que tocava nas festas como DJ, mas também discos de juju, um popular estilo nigeriano nos anos 40 e 50, e os álbuns de grandes bateristas de jazz americanos como Max Roach e Art Blakey, Elvin Jones ou Gene Krupa e Philly Joe Jones ou ainda os discos de Guy Warren, um grande baterista do Gana que haveria de tocar com gigantes do jazz como Thelonious Monk, Charlie Parker ou Dizzy Gillespie. “Ouvi sempre os grandes bateristas de jazz. Escutar esses tipos fez-me compreender a forma como a bateria deveria se tocada”, explicava Allen na sua biografia. Bebendo dessas diferentes fontes, Allen aprimorou um estilo próprio e quando o baterista de Sir Victor Olaya abandonou o seu grupo, os Cool Cats, Allen ocupou a vaga e começou a trabalhar como músico profissional. Começou aí um percurso que o levou posteriormente a trabalhar com bandas como os Heatwave, os Nigerian Messengers ou os Melody Makers e os Toppers. “Os grandes bateristas contavam uma história ao tocarem ritmos diferentes, algo que faziam com coordenação independente. É assim que a bateria deve ser tocada. E foi por isso que o jazz foi uma descoberta tão importante para mim, uma descoberta que me tornou muito melhor. E foi Fela Ransome Kuti que me deu a oportunidade de realmente tocar esta música... Depois de o conhecer, o jogo mudou”.

Fela Ransome Kuti

“Estávamos em 1963 e Fela tinha acabado de chegar de Londres e trabalhava para a Nigerian Broadcasting Company (NBC). Ele trabalhava como apresentador de programas de jazz. Tocava jazz durante 30 minutos às sextas-feiras à noite, sobretudo discos da Blue Note. Fela tocava-os muito bem. Aqueles 30 minutos sabiam mesmo bem”. Fela Kuti tinha sido enviado para Londres pelo pai, um médico, para estudar medicina, mas acabou por se interessar mais pelo circuito de clubes de jazz, preferindo dedicar-se ao trompete, como Miles Davis. Quando regressou a Lagos, paralelamente ao trabalho na NBC, começou a tentar montar uma banda, um quarteto, para tocar jazz.

Quatro anos depois de conquistada a independência de Inglaterra, a Nigéria começou a mergulhar em conflitos internos, determinados pelas zonas tribais e pela vontade de controlar as explorações de petróleo, facto que mergulhou o território em violentos confrontos que levaram muitos músicos mais qualificados a fugirem para países como os Camarões, em busca de contextos mais pacíficos. Por isso mesmo, Fela teve alguma dificuldade em encontrar os músicos certos para o seu quarteto e foi um jovem baixista, Ojo Okeji, quem lhe recomendou que fizesse uma audição a Tony Allen. O quarteto haveria de se reunir no estúdio da rádio NBC para essa audição e quando Allen acabou de tocar, Fela voltou-se para ele e perguntou-lhe onde tinha estudado: “Em Inglaterra? Nos Estados Unidos?” Espantado com a qualidade musical de Allen, com o refinamento dos seus solos, Fela estabeleceu aí uma aliança que haveria de se revelar fundamental para a sua carreira.

À época, os mais populares líderes de orquestras highlife tinham uma ótima vida, com carros e casas de luxo que eram medidas do seu enorme sucesso. Fela não tardou a perceber que tocar jazz não lhe iria garantir esse tipo de sustento e rapidamente começou a investir pelos terrenos do highlife criando, com Tony Allen ao seu lado, os Koola Lobitos. Em 1969, já com uma rodagem de palcos que incluía países vizinhos da Nigéria como o Gana, Fela embarcou numa digressão aos Estados Unidos, o que lhe permitiu recolher as peças que faltavam para erguer em definitivo a sua visão – o afrobeat. Por um lado, contactou directamente com a revolução pelo groove operada por James Brown que nessa altura era provavelmente o artista negro com maior sucesso nos Estados Unidos. Por outro, descobriu o pensamento revolucionário de Malcolm X, a política de elevação racial professada pelos Panteras Negras e a filosofia do orgulho negro. Ainda nos Estados Unidos decidiu rebatizar a sua banda com o nome mais apto Nigeria 70, mas, logo que aterrou em Lagos, com a cabeça a fervilhar de ideias, decidiu-se pela clássica designação de Afrika 70 (que se manteve até aos anos 80 quando mudou o nome do grupo para Egypt 80).

Com Fela, Tony Allen registou uma extensa obra logo a partir de 1970. De "Fela’s London Scene" (1970) a "Music of Many Colours" (1980), foram mais de três dezenas de influentes registos aqueles a que o baterista emprestou o seu personalizado pulsar, incluindo clássicos maiores como "Afrodisiac" (1973), "Expensive Shit" (1975), "No Agreement" (1977), "Sorrow Tears and Blood" (1977) ou "V.I.P." (Vagabonds in Power) (1979), crónicas de uma combativa música que se revelaria tão revolucionária como as mais pronunciadas correntes de canção de protesto, com uma direta componente política com que se afrontava sem medos o repressivo poder vigente na Nigéria que haveria de entender o líder dos Afrika 70 como um perigoso agitador que precisava de ser silenciado.

Em finais dos anos 70, no entanto, Allen começava a vislumbrar o fim da caminhada efectuada com Kuti: “As coisas tinham ficado muito descontroladas depois do exército ter destruído a casa de Fela”, relembrava Allen na sua autobiografia. Fela, imerso em dívidas, incapaz de pagar aos seus músicos, apostava agora numa apresentação num festival em Berlim que lhe renderia 250 mil dólares, o suficiente, garantia o músico, para se reerguer e saldar as suas contas em atraso. “Para mim, eu estava a chegar ao fim da minha corda – não apenas por causa de todo o dinheiro que o Fela me devia, mas porque havia demasiada loucura dentro da organização de Fela. As pessoas costumavam chegar-se ao pé de mim a toda a hora e perguntar, “o que raio andas a fazer – porque te manténs ao lado de Fela? És maluco?”

A loucura que Allen referia manifestou-se no verdadeiro séquito que Fela levou para Berlim: 71 pessoas, das quais apenas 28 com trabalho definido. “Os 250 mil dólares tornaram-se nada muito rapidamente”. O baterista explicava nas suas memórias como tudo se tinha passado: “Tocámos no Philharmonic Hall. Os organizadores pediram-me a mim, ao Ginger Baker e a Henry Kofi para abrirmos o concerto só com percussão e conseguimos uma ovação de pé”. O antigo baterista dos Cream de Eric Clapton, também já desaparecido, era um dos admiradores da obra de Kuti. As coisas com a banda desagregaram-se quando os músicos perceberam que não iriam ser pagos e Allen já tinha os seus próprios planos, tendo agendado sessões em Londres com Ginger Baker. "Progress", um álbum a solo que o baterista tinha registado com os Africa 70 como banda de suporte em 1977, ia ser licenciado pela Virgin e essa revelou-se a porta de saída para o músico que no entanto acabaria por ficar durante algum tempo em Berlim, antes de regressar a Lagos para tentar acertar as suas contas com Kuti, algo que nunca sucedeu.

E depois de Fela?

“Quando eu deixei o Fela foi porque Deus me disse para o fazer. Fela costumava dizer frequentemente que qualquer músico que o abandonasse nunca conseguiria ir a algum lado. Era quase como se ele os amaldiçoasse. E alguns dos tipos que saíram acabaram mesmo por regressar. Mas no meu caso, Deus entrou-me na cabeça e disse-me: ‘está na hora’.” Em 1980, Tony Allen, lançou "No Discrimination", trabalho gravado já com a sua própria banda. Entre 1980 e 1984 fez carreira a tocar sobretudo entre Lagos e Londres, mas em meados dos anos 80 acabou por se estabelecer em Paris, cidade que lhe permitiu cruzar-se com outros grandes nomes da música africana como King Sunny Adé ou Ray Lema, com quem gravaria.

Tony Allen registou vários discos em nome próprio na década de 80 e, depois de uma pausa nas edições a solo, regressaria em força à ribalta quando se aliou à etiqueta Comet em finais dos anos 90, já depois do desaparecimento de Fela em 1997, gravando, a convite do produtor Doctor L, trabalhos como Black Voices, entrando assim noutros terrenos, como a eletrónica, demonstrando uma renovada vontade de se encontrar com o futuro, pouco interessado em repisar ideias antigas, em permanecer no mesmo plano. “Eu penso que Fela era um líder natural”, concluía Allen, já nas páginas finais das suas memórias. “Pode liderar-se as pessoas com ideias sãs, boas ideias, ou pode-se tentar que elas te sigam como zombies através de enorme loucura. Fela escolheu o caminho mais radical. E aquilo em que eu acreditava era na sua música. O respeito que eu lhe devo é enquanto músico; ele foi um compositor genial até ao seu último dia”.

Allen, por seu lado, viria a beneficiar de um tardio, mas mais do que justo e merecido reconhecimento. Seria chamado a dar o seu inestimável e inconfundível contributo a discos de gente como o rapper Common (gravou no clássico "Like Water For Chocolate"), Manu Dibango, Charlotte Gainsbourg, Grace Jones, Ernest Ranglin, o rapper britânico Ty (falecido por estes dias) ou Sebastian Tellier e as Zap Mama. E depois, Allen haveria de conhecer Damon Albarn, dos Blur, com quem estabeleceria proveitosa parceria, criando com ele e com Paul Simonon dos Clash o projecto The Good, The Bad and The Queen e, mais tarde, os Rocket Juice & The Moon e os Africa Express.

“A forma como o Damon entrou na minha vida, foi como se estivesse predestinado. Ele revelou-se a pessoa mais importante para mim no meio de todos os projetos que realizei. Tê-lo conhecido foi como ter conhecido outro Fela; teve essa importância toda porque este homem não só fez uma grande diferença na minha carreira, como se tornou também um grande amigo”.

Damon Albarn confirmou a força dessa ligação quando fez uma vénia sentida ao malogrado baterista no dia 1 de Maio e postou um vídeo de Allen no Twitter com a legenda: “There is No End – Tony Allen”. Entretanto, os Gorillaz, lançaram “How Far”, um tema que gravaram com Tony Allen e o rapper Skepta. “Este tema foi gravado antes do arranque do confinamento, em Londres, e está agora a ser partilhado como um tributo ao espírito de um grande homem”, escreveram os ingleses.

Tony Allen foi, de facto, um grande homem, um músico que outros músicos não se cansaram de elogiar, um discreto génio que alterou os ritmos que a mais interessante música popular haveria de investigar. Brian Eno descreveu-o há alguns anos como “o maior baterista vivo”. Allen viverá agora através das cadências que são o seu eterno legado ao mundo. No final do seu livro de memórias, Allen rematou a sua visão de vida com a sinceridade que sempre marcou o seu discurso: “Às vezes o dinheiro pode chegar em grande e outras vezes pode ser apenas o suficiente para viver. Eu só preciso do suficiente para alimentar a minha família, para fazer com que todos à minha volta estejam felizes, e para ter a certeza que nada falta a ninguém. É tudo o que eu persigo e é isso que eu tenho. Por isso, sinto-me realizado. Penso que as coisas para mim estão maravilhosas assim mesmo”.