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Rita Carmo

Promotores de espetáculos em Portugal avançam para concertos com lotação reduzida. E dizem que não vão subir preços

Alguns dos principais agentes de artistas e promotores são unânimes num aspeto: os concertos com lotação limitada são a única solução e não há alternativa senão abraçá-la. Adaptar formatos e custos será inevitável, mas o preço do bilhete, acreditam, não poderá disparar

A reabertura dos espetáculos de música ao vivo será possível, de acordo com o plano de desconfinamento apresentado pelo Governo, observando lotações reduzidas das salas de espetáculo, para cumprimento das regras de distanciamento físico, e impondo a obrigatoriedade de lugares marcados. A primeira fase de retoma da música ao vivo começa a 1 de junho e alguns dos principais agentes dizem que “não há alternativa” senão abraçar o desafio.

"Isto é novo para toda a gente e um território muito desconhecido para todos. Vamos trabalhar com lotações reduzidas. Não haverá outra solução senão avançar", afirma Vasco Sacramento, diretor-geral da Sons em Trânsito, responsável pela agenda de concertos de artistas como Pedro Abrunhosa, Carolina Deslandes, Ana Moura e António Zambujo, e programador do Capitólio, em Lisboa. "A alternativa era estar parado, o que é insustentável para o negócio, para a manutenção dos postos de trabalho e o sustento das pessoas que vivem disto".

A mesma visão tem Miguel Birra, diretor-geral da Ruela Music, empresa de management e agenciamento que gere as carreiras de nomes como Rui Veloso, Mariza ou Carminho. "Não tenho dúvidas que a abertura das salas de espectáculos e auditórios que tenham lugares marcados, respeitando uma lotação reduzida e distanciamento físico, é o passo certo para iniciar a reanimação de muitas vidas em suspenso e da regular atividade cultural".

A confiança do público é um fator fulcral. "Para além da questão racional, há um papel emocional que cumpre à música, que é ser o motor de uma certa capacidade de regeneração e reacção perante algo que está a atacar o nosso estilo de vida", considera Vasco Sacramento.

Álvaro Covões, responsável máximo da Everything Is New, não só promotora do NOS Alive como de uma vasta lista de concertos em sala (Guns N' Roses, Slipknot, Aerosmith, Lenny Kravitz, uns adiados, outros à espera de clarificação) fala da questão do "medo". Para incrementar uma ideia de segurança, "a Associação de Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos [que conta com Covões na direção] está a trabalhar para apresentar ao Governo um manual de boas práticas, como todas as associações de vários setores estão a fazer, para que possamos garantir segurança aos espectadores e a quem trabalha".

É tido como aceitável que o 'break even' de um espetáculo não andará longe dos 70% a 80% da bilheteira, isto é, num concerto as receitas superam os custos quando a lotação da sala está preenchida a cerca de 3/4, variável a que a limitação de capacidade dos espaços criará constrangimentos. "Tudo depende do que serão essas lotações reduzidas. Uma coisa é ser metade, outra coisa é ser 1/6", afirma o patrão da Sons em Trânsito. "Depende das regras que forem impostas, inclusivamente no que diz respeito a medidas de higiene, segurança, que também vão custar dinheiro", acrescenta.

"A necessidade aguça o engenho", acredita Covões. "O que nós temos de fazer é engenharia financeira. Nós não podemos é ficar sentados a dizer ‘ai, agora ninguém nos ajuda e vamos morrer’. Não! Vamos trabalhar com limitações, então vamos todos a jogo. Quem quiser vir a jogo vem a jogo, com as limitações que existirem. Claro que isto não é sustentável a médio prazo, mas no início... Como se costuma dizer, mais vale ganhar 20 euros do que não ganhar nada".

Birra ressalva, porém, que "o trabalho de todos os 'players' neste mercado não entrou em saldos apenas porque as oportunidades escassearam e deve continuar a ser valorizado como antes". "A importância das garantias das autarquias sobre reagendamentos e pagamentos de valores devido aos cancelamentos, garante liquidez e salva postos de trabalho", sublinha Birra. "O rápido apoio financeiro extraordinário do governo central às autarquias parece-me uma ferramenta a implementar com efeitos imediatos na reactivação da economia local".

A adaptação é a chave. "Procurar soluções que permitam fazer alguns espetáculos e tentarmos trabalhar com as regras possíveis nesta fase", adianta Sacramento. "Estamos à procura de formatos alternativos, não só para sala fechada como ao ar livre, respeitando as normas em vigor, mas que nos permitam manter-nos minimamente ativos", declara, sem especificar a forma como tornará este modelo operacional. "No limite, o espectáculo poderá acontecer com contornos e formatos diferentes do habitual em palco. Mas isso não é necessariamente mau", acrescenta Birra.

Com menores receitas previstas, poderá haver um agravamento do preço dos bilhetes? Vasco Sacramento é claro: "a solução não pode passar por aí porque a situação económica vai agravar-se imenso nos próximos meses". Birra também não acredita que "o preço dos bilhetes dispare para valores absurdos".

O envolvimento maior de marcas e patrocínios "é um caminho" que a Sons em Trânsito está a explorar. "As marcas querem associar-se à música porque também querem passar a mensagem de que estamos a viver a época mais difícil das nossas vidas, mas ao mesmo tempo temos que nos mostrar disciplinadamente insubordinados", crê. Foi o que aconteceu quando Pedro Abrunhosa, por si agenciado, deu um concerto online para colaboradores do Montepio Crédito. É da mesma entidade financeira o patrocínio do dueto do artista do Porto com Carolina Deslandes, 'Tempestade', revelado esta semana.

"Quer seja em salas ou ao ar livre, estamos a tentar encontrar soluções e temos muitos projetos em preparação para conseguirmos ter alguma atividade no verão. Também sinto que no resto do setor há muita gente inquieta e a procurar alternativas", afirma Sacramento. Alguns espetáculos serão simbólicos? "Claramente. Além de obter uma rentabilidade, é preciso ter a missão de dar um sinal de resistência e passar uma mensagem de confiança ao público, porque compreendemos que as pessoas se sintam neste momento receosas de estar num espetáculo. Temos que ajudar o público a sentir-se mais confiante".

com Mário Rui Vieira